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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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RIO AMARILLO

A América Central, com suas espessas florestas, continua sendo um repositório interminável de construções ancestrais. A cerca de 18 quilômetros apenas da grande metrópole maia de Copán (Honduras), encontra-se um recém escavado complexo arqueológico, chamado Río Amarillo, por situar-se em um vale de mesmo nome. As ruinas também são conhecidas como La Castellona ou La Canteada, e formadas por 53 estruturas, entre templos, pirâmides, terraços e praças, distribuídos em duas zonas residenciais (sendo uma ocupada pela elite maia) e uma zona cerimonial. Muito próximo a elas se encontra outros dois complexos menores, chamados Piedras Negras (cerca de 1,8 quilômetros) e Gotas de Sangue (cerca de 3,3 quilômetros) que provavelmente formavam um prolongado complexo urbano, mas que ainda estão em processo de estudo.

Contudo, o que nos chama a atenção em Río Amarillo é justamente seu abandono prematuro, refletindo o derradeiro declínio dos maias. Ali é possível apreciar as edificações incompletas, em plena construção, interrompidas não se sabe exatamente por qual motivo, com as ferramentas abandonas, pedras semi esculpidas e estuques à meio caminho de sua finalização. Isto permitiu aos arqueólogos uma profunda observação sobre as técnicas arquitetônicas e decorativas aplicadas, na lapidação das pedras, sua colocação na formação dos edifícios e até mesmo na utilização da argamassa para sua união. Com a queda da civilização maia, seus habitantes parecem ter, simplesmente, largado tudo no meio do caminho e migrado para uma nova região, ainda desconhecida. E esta é justamente o maior valor de Río Amarillo: o de poder ver como ocorria o processo de construção arquitetônica de uma cidade maia.

Entre suas diversas estruturas, destaca-se o chamado Grupo Núñez Chinchilla, que recentemente passou por escavações e revelou cerca de 145 sepulturas de seus antigos habitantes. Pelos artefatos enterrados – entre eles roupas, ornamentos religiosos, cerâmicas, joias e pedrarias –  acredita-se que pertençam a elite de um local maior e mais complexo (Copán) que usou o lugar como morada eterna ou que o habitou em tempos tardios. A relação entre Río Amarillo e as ruinas de Copán parecem, a cada escavação, mais assertiva. Recentemente, arqueólogos encontraram em Río Amarillo a figura de K’inich’ Yax K’uk’ Mo’ em uma tampa de incensário; o mesmo patrono mítico fundados da dinastia de Copán.

Pelos restos mortais e objetos abandonados no local, os arqueólogos também conseguiram datar a ocupação inicial de Río Amarillo com bastante precisão, em cerca de 400 d.C. (Período Clássico Tardio da civilização maia). Alguns estudiosos acreditam que o local foi uma espécie de ponto de passagem para viajantes e comerciantes que seguiam da América Central para Iucatã e Guatemala. Contudo, em 2014, um grupo de arqueólogos formados por hondurenhos, franceses, guatemaltecos e norte-americanos apresentou uma nova perspectiva para as ruinas. Eles afirmam que Río Amarillo ainda estava ocupada no ano de 1000 d.C., mesmo após o abandono de Copán. Isso revela que a elite de Copán pode ter migrado para Río Amarillo – como mostram as sepulturas de Núñez Chinchilla – e dali para um local ainda desconhecido.

A teoria sobre a morada tardia da elite de Copán em Río Amarillo ganha pontos no incrível detalhamento da ornamentação aplicada, nos chamados mascarones – alguns chegando a mais de 5 x 3 metros – e diversas representações em elaborados traços de seres míticos e deuses do panteão maia. Este refinamento nas artes está associado a presença de uma elite exigente, que planejava enaltecer seu status social, relacionando-o às artes. 

As ruinas de Río Amarillo hoje pertencem a um dos muitos parques hondurenhos que integram uma exuberante natureza e fauna aos vestígios de antigas civilizações; e certamente muitas novas e importantes descobertas virão nos próximos anos, das escavações realizadas em suas estruturas e nos povoados que compõem o entorno de Copán e suas “cidades satélites”.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui)
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