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SAN AGUSTÍN: O ROUBO DA ESTÁTUA nº 155

Ao longo do século XX – e mesmo em meados da década de 1970 – ainda era bastante comum o tráfico de peças arqueológicas nas Américas. De tão fácil que era, mal podia ser chamado de tráfico! Em muitos casos, bastava acomodar artefatos em uma mala debaixo do banco de seu avião e voltar para casa sem maiores problemas. A certeza da impunidade era tão garantida, que alguns roubos foram descaradamente publicados em forma de aventura, como o fez o inglês Howard Jennings em seu livro O Caçador de Tesouros (1974), no qual descreve como saqueou o patrimônio das antigas civilizações do Equador. Os países americanos começaram a organizar seu patrimônio arqueológico de forma mais efetiva a partir da década de 1970, para evitar casos como o de Jennings e outros, que já formavam uma tradição de saques centenários, aproximando-se de uma profissão quase institucionalizada. Mesmo assim, muitos roubos ainda ocorrem nos dias de hoje.

Na madrugada de 12 de dezembro de 1988, uma caminhonete avançou pelas estradas lamacentas de San Agustín (Colômbia), onde se encontra um dos mais notáveis conjuntos de estátuas pré-colombianas a céu aberto do mundo. As aglomerações dessas peças somam centenas de exemplares e fazem parte do patrimônio arqueológico colombiano. Ninguém notou o movimento suspeito da caminhonete, mas nos dias seguintes, os guardas deram por falta da estátua nº 155 e de outras, que viriam a somar 16 peças das 528 existentes no Parque Arqueológico. A estátua 155 não era das maiores e mesmo assim pesava mais de 100 kg. Daquele dia em diante – pelos próximos 10 anos –, a polícia especializada em roubos arqueológicos não obteve qualquer pista de seu paradeiro. Contudo, em 1998 o ICANH (Instituto Colombiano de Antropologia e História) recebeu um catálogo de leilões provenientes da Dinamarca, onde se encontrava a peça roubada. Por incrível que pareça, a burocracia oriunda dos leilões – que proibia o fornecimento de dados dos compradores – impediu que as autoridades colombianas resgatassem a estátua 155, e ela desapareceu por mais 8 anos.

O paradeiro do artefato só veio a público novamente por uma feliz coincidência. Em 2006, um efetivo da polícia da cidade de Kongens Lyngby (Dinamarca), invadiu a mansão de um milionário por evasão de impostos. No porão da residência, entre outras coisas, surgiu uma coleção de 656 peças arqueológicas, que foram enviadas ao Museu Nacional de Copenhague para identificação. Lá, o arqueólogo Jos van Beurden que estava de passagem pela cidade, conseguiu identificar a estátua 155 de San Agustín, uma vez que em 2002, havia participado de um evento em Bogotá sobre tráfico ilícito de bens culturais da Unesco.

Contudo, embora a Colômbia entrasse com pedido para devolução da peça, o governo dinamarquês impunha barreiras por não possuir leis que obrigassem um colecionador particular a devolver peças que havia adquirido “legalmente” em leilão. A contenda só foi resolvida em 2011, quando um advogado contratado pelos governos conjuntos de Colômbia, Peru e Equador conseguiu um acordo no qual o colecionador devolveria de livre e espontânea vontade, parte de sua coleção.

O caminho para a recuperação do patrimônio arqueológico americano roubado é tortuoso, e depende de leis eficazes de ambos países envolvidos; mas também de um pouco de sorte e boa vontade dos políticos que podem mudar definitivamente as regras para dificultar tais ações ilícitas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

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Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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