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Acima da peleja

No Brasil precário de cultura governamental, professores foram censurados por se manifestarem contra o Presidente Jair Bolsonaro.

Seus assessores desocupados em vigília constante, abriram processo de investigação contra eles, que o criticaram em eventos transmitidos pela Internet.

Um deles, o professor Pedro Hallal, disse que o presidente não manda “absolutamente em nada na UFPEL (Universidade Federal de Pelotas), quem manda é a comunidade. O senhor é desprezível”.

O outro Professor, Eraldo Pinheiro, disse que “nosso país é liderado por um sujeito machista, racista, homofóbico, genocida, que exalta torturadores e milicianos, que ao longo do tempo vem destruindo as estruturas já precárias em nossas instituições”. Além de chamar Bolsonaro de “presidente com p minúsculo”.

Os dois professores criticaram a decisão do Jair em nomear a professora Isabela Fernandes como reitora da Universidade, sendo que ela estava em segundo lugar na lista de indicações, porém era a preferida do Presidente.

Os professores da UFPEL assinaram termo de ajustamento de conduta para que as investigações fossem encerradas. Foram obrigados a prestar depoimento no mês passado e os termos foram publicados no Diário Oficial da União. Assim se comprometeram a não repetir os atos pelos próximos dois anos.

A ação desses professores foi um ato intelectual, de manifestação política, que deve ser permitido quando vivemos num estado democrático de direito.

O “intelectual” faz eco a uma política em curso e a sustenta com sua própria palavra, e com autoridade advinda de sua própria notoriedade.

A decisão militar, serviu para fins de promoção/afirmação do aparato instrumentalizado deles mesmos, que desde a Idade Média fomenta ideias focadas em políticas centralizadas na fabricação do inimigo.

Ato similar ocorreu em 1914, durante os primeiros movimentos de guerra dos pedantes das barbáries da época.

Romain Rolland, prêmio Nobel de literatura do ano seguinte, fez uma forte crítica ao governo da época, mas também estendeu ao povo que apoiava os ditadores de então. Se dirigiu aos alemães e, do mesmo modo, tentou fazer os beligerantes de todas as nacionalidades ouvirem uma voz “acima da peleja”.

Sua argumentação se apoiou na ideia de que a Alemanha foi levada contra sua própria tradição no pangermanismo belicista do imperialismo prussiano. Intimou o povo alemão a não seguir esse belicismo: “Vocês são netos de Goethe ou de Átila?  Vocês se mostram indignos dessa grande herança, indignos de tomar parte no pequeno exército europeu que é a guarda de honra da civilização”, escreveu ele após as destruições de Louvain e de Reims pelos soldados alemães em 1914.

De uma hora para outra, Rolland é abandonado pelos livreiros, que pararam de vender seus livros, e as autoridades militares aventaram medidas de repressão contra o poeta.

Aqui vemos a crítica de um intelectual contra uma barbárie militar. Esta é, de fato, a razão pela qual os “intelectuais” se referem aos militares radicais e antidemocráticos, como criaturas que os enche de cólera e de tristeza. Em lugar de exercer seu poder crítico, esses “pedantes da barbárie” (Miguel de Unamuno), simulam uma matilha latindo na trilha em que o caçador os soltou.

No Brasil, me parece que voltamos no tempo, pois não saímos da mordaça política degradante e degenerativa. Não conseguimos dar o próximo passo, os ditadores da política nos puxam de volta à Idade Média. 

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Waldemar Cezar Neto
O autor é jornalista
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