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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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A DEPOSIÇÃO DO HOMEM

Falecido em 1948, Monteiro Lobato (1882/1948) é uma presença constante em nossa vida cultural e muitas vezes de maneira surpreendente. Com a publicação de novas edições de suas obras, por exemplo, tem obtido consideráveis espaços na mídia, como raros autores vivos conseguem obter.

“Cidades Mortas”, considerado seu melhor livro para adultos, tem sido objeto de incontáveis comentários, inclusive porque constitui uma espécie de prenúncio do que poderá acontecer com a Amazônia se o desmatamento prosseguir no mesmo ritmo. O livro, no conjunto, ainda que tudo esteja diluído na ficção, mostra o que fizeram o latifúndio e a monocultura do café no Vale do Paraíba, como uma mostra, em pequena escala, do triste futuro da Região Amazônica.

O livro “O choque das raças ou o presidente negro”, único romance que saiu de sua pena, previu com 82 anos de antecedência a possível eleição de um presidente negro nos Estados Unidos, concorrendo com uma candidata loira. Panorama parecido com o pleito americano, confirmado com a eleição de Obama. Nesse livro, outras e muitas antecipações de Lobato estão presentes, espantando o leitor moderno pela acuidade e imaginação. Além disso, outra surpresa: as novas edições despertam grande interesse e os livros se vendem em quantidade, contrariando mais uma vez os notórios pregoeiros do fim do livro.

Não obstante, no final de uma vida de árduas lutas, vitórias e derrotas – mais derrotas que vitórias – Lobato se revelava um descrente do ser humano, convicto de que a sociedade humana havia falhado sem resolver seus mais elementares problemas, inclusive o tratamento adequado e a educação da criança. Naquele tom meio irônico e ao mesmo tempo sério, escreveu uma espécie de manifesto em que propunha a deposição do homem da condição de rei da criação, colocando em seu lugar seres mais aptos a conduzir o planeta.

“Homo Sapiens”, texto modelar, foi incluído no volume “A Onda Verde” de suas Obras Completas, por ele próprio organizadas. Parodiando Marx e Engels, bradava: “Animais todos da Terra, basta de submissão! Uni-vos!” (p. 63). Segundo ele, “em toda parte está o Homo como o próprio mal encarnado, matando, esfolando, torturando, saqueando, desnaturando, perturbando a harmonia das coisas… Ele, o cultor consciente da arte da dor” (loc. cit.).

É verdade que muitos dos seres que ele convocou para a revolução estão extintos ou em fase de extinção, circunstância difícil de imaginar naquela época. Leões do Saara, tigres da Índia, onças do Brasil, lobos da Rússia, bisões do Arizona, chacais africanos, pelo que me consta só existem, quando existem, enjaulados para observação nos zoológicos. Prevendo a possível concorrência futura, o Homo se adiantou e eliminou o inimigo, com isso estragando também a revolução de Lobato. Salvaram-se outros animais, uns tantos domesticados e outros em permanente fuga, aterrorizados com a presença do macaco glabro que colocou em sua própria cabeça a coroa de rei. Seja como for, a par da leitura de um texto curioso, permaneceu o apelo de Lobato em favor das crianças, em especial das crianças pobres, cujo tratamento naquela época já se mostrava desumano e que hoje muito se agravou. Hoje como ontem elas continuam sendo vítimas da exploração e da brutalidade.

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