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A SEMANA FAZ 100 ANOS

A literatura tradicional dava sinais de cansaço. O rigor das exigências na prosa (escritores que pareciam escrever com agulha de crochê) e na poesia (versos medidos a metro) denunciavam o esgotamento. Os novos escritores e poetas ansiavam pela liberdade de escrever e poetar, pela escrita coloquial e pelo verso livre. Influenciados, no início, pelas vanguardas européias, e, depois, tomados por um nacionalismo que visava mostrar as nossas coisas, iniciaram a pregação dos ideais modernistas, até então confundidos com o futurismo, através dos jornais. Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia (Hélios) foram os mais ativos pregadores do novo credo, preparando o terreno para a grande revolução de nossa cultura. A cidade de São Paulo foi o palco dos acontecimentos.

Em fevereiro de 1922, depois de longa preparação, aconteceu a Semana de Arte Moderna, ato culminante da revolução que fermentava e que ficou como um dos mais importantes marcos da modernização brasileira. Nos dias 13, 15 e 17, no tradicional Teatro Municipal, foram realizadas as grandes “soirées”, de cujos programas constaram palestras, recitais de poemas, concertos musicais, performances e leituras, enquanto exposições paralelas de artes plásticas se abriam ao imenso público que compareceu. Coerente com as posições sustentadas nos debates prévios, a platéia se dividia entre os que apoiavam e os que condenavam. Aplausos e vaias se alternavam enquanto ocorriam as apresentações. Havia os que urravam como leões, os que latiam como cães, os que xingavam, os que jogavam ovos e tomates. Como disse alguém, foi a “consagração da vaia.” Muitos se retiraram indignados, mas muitos se mantiveram firmes, até o fim, aplaudindo e apoiando as corajosas mensagens renovadoras

Participaram do evento, entre outros, o consagrado escritor e acadêmico Graça Aranha, apontado como o líder do movimento, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Heitor Villa-Lobos (com o pé machucado, regeu de chinelos), Guiomar Novais e Di Cavalcanti. O escândalo foi grande. Segundo a imprensa conservadora, os escritores participantes seriam analfabetos, os poetas ignoravam a poesia, os compositores desafinavam e os pintores não passavam de borradores de telas. Gerou-se um clima de ódio contra eles. E os defensores, por sua vez, apontavam a estreiteza, o provincianismo e a desinformação dos que atacavam os modernistas, alheios às novidades que brotavam no mundo civilizado. Como todo movimento perseguido, a Semana saiu vitoriosa, teve uma repercussão incomum e influenciou o país em todos os setores culturais, libertando escritores e artistas da camisa-de-força em que viviam, permitindo que criassem algo brasileiro, autêntico e inovador. Embora o debate modernistas x conservadores perdure até hoje, novos e ilimitados horizontes se abriram para a criação nas letras, na música, nas artes plásticas, na estética, na política e na filosofia. Ao lado da Revolução de 30, pondo fim à República Velha, a Semana de Arte Moderna foi um movimento que contribuiu de forma decisiva para o advento do Brasil moderno, pondo fim à cultura arcaica.

A Semana de Arte Moderna é um dos episódios mais discutidos e estudados da história cultural brasileira. Contou, desde logo, com adesões de intelectuais de primeira linha e sobre ela existe uma bibliografia imensa, que não cessa de crescer. Neste ano, quando completa 100 anos, muitos eventos serão realizados para comemorá-la. Apesar do tempo decorrido, não pode e não deve ser esquecida pelo muito que devemos a ela e aos seus arrojados realizadores.

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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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