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AINDA O CONSELHEIRO XX

Cronista mais célebre de sua época, Humberto de Campos (1886/1934) foi um primoroso escritor. Dominou todos os gêneros a que se dedicou, desde o conto, a crítica e o ensaio até a poesia. Sob o pseudônimo de Conselheiro XX se tornou, ao mesmo tempo, o mais popular e o mais temido cronista da imprensa brasileira. Mesclando a beleza da linguagem com uma espantosa erudição para quem viveu tão pouco, usava o humor, a ironia e o chiste como formas de atrair e prender seus numerosos leitores. É figura relevante na história da crônica literária nacional, gênero que encontrou grandes expoentes em nosso país.

Como contista também produziu obras de qualidade. Nos tempos vividos em Belém, buscando fugir da miséria no Piauí e no Maranhão, escreveu trabalhos admiráveis, tanto no jornalismo como na ficção, tendo sempre como pano de fundo a vida miserável dos seringueiros e a exploração a que eram submetidos. Essas obras alcançaram destaque na chamada “literatura amazônica” ou “nortista.” Entre as ficções desse período, merece lembrança o conto “Vingança”, recolhido por Edgard Cavalheiro e Raimundo de Menezes à conhecida antologia “Histórias de Crimes e Criminosos”, publicada pela Editora Civilização Brasileira, integrante do amplo painel dos melhores contos nacionais.

Como cronista, Humberto de Campos foi implacável com os vaidosos, fúteis, bajuladores, exibicionistas, ostentadores e toda a fauna que os cerca. Muitas foram suas vítimas, entre elas o famoso jornalista João do Rio, um de seus alvos preferidos. Colunista social (na época dizia-se colunista mundano) de grande jornal carioca, sob o título de “Pall-Mall Rio” e com o pseudônimo de José Antônio José, comprazia-se João do Rio em elogiar ricos e poderosos cariocas e paulistas, como os Guinle e os Freitas Valle, políticos e ministros de plantão, entre os quais Lauro Müller, sempre em estilo bombástico e superlativo. Irritado com aquilo, Humberto de Campos inventou a coluna “Pele-Mole”, publicada em outro grande jornal, e através dela passou a satirizar tudo que dizia José Antônio José. Assinando-se João Francisco João, acompanhava dia a dia o que o outro escrevia e sobre aquilo construía suas sátiras repletas de humor e ironia, ressaltando o interesse por trás de cada palavra. “Tais paródias eram sátiras cruéis, que procuravam lançar ao ridículo tanto o cronista mundano como as personalidades por ele citadas” – escreveu R. Magalhães Jr., biógrafo de João do Rio. O caricatural “Pele-Mole” tornou-se muitíssimo lido, conquistou inumeráveis apreciadores, transformou-se em verdadeira mania. As paródias vinham em prosa e verso, quase sempre felizes, atingindo o centro do alvo, e isso divertia os ávidos leitores, sequiosos por conhecer a “vítima do dia”. Magalhães Jr. cita muitos exemplos. “Há pessoas que nunca pensaram em tomar sorvete e que, entretanto, tomam sorvete em Veneza no outono. Tudo é uma questão de ambiente” – dizia “Pall-Mall Rio.” E o “Pele-Mole”, no dia seguinte: “Há pessoas que nunca pensaram em tomar sorvete. Outras há que tomam sem pensar. O sorvete refresca!” Assim, a cada dia, João do Rio e seus personagens  caíam na boca do povo. 

Criou-se, em consequência, um clima de pânico. Pessoas que bajulavam o colunista em busca de espaço para “aparecer”, agora fugiam dele como o diabo da cruz. Ninguém queria, por nada, ser colunável de João do Rio e ele, desesperado, não sabia o que fazer. Gilberto Amado, seu amigo,  relata o drama por ele vivido. A coluna constituía sua vitrine, seu pedestal para expor a desmedida vaidade, além de propiciar vantagens de toda ordem. A própria mãe de João do Rio, idosa e doente, temendo pelo filho, bateu à porta de Humberto de Campos e pediu, humildemente, uma trégua.O inventor de “Pele-Mole” não cedeu: ou João do Rio acaba com aquilo ou tudo vai continuar! E João do Rio não teve alternativa: com dor de coração fechou as portas de sua coluna. Para sempre. Ela ficou como um episódio bizarro na sua vertiginosa vida.

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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