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Hemingway e os Mau-Mau

O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) foi um grande caçador. Realizava safaris à África para se dedicar à caça grossa, levando a esposa e uma comitiva chefiada pelo experiente guia Philip Percival, acrescida de nativos contratados para vários serviços, apetrechada de armas e equipamentos necessários. Era também aficionado por box, rinhas de galos e touradas. Estas últimas o levaram muitas vezes à Espanha, país que adotou como segunda pátria e de cuja Guerra Civil participou como correspondente de grandes jornais e propagandista da causa legalista. Durante a Guerra escreveu sua única peça teatral, “A Quinta Coluna”, introduzindo a expressão no linguajar corrente. Em seu livro “As Verdes Colinas de África” fica evidente o prazer que lhe causava uma caçada bem-sucedida. Não é fácil entender esse lado matador em artista tão sensível, mas o ser humano é um enigma.

No inverno de 1953/1954 Hemingway estava outra vez no Quênia, realizando um safari a alguma distância das chamadas Terras Altas Brancas destinadas às fazendas dos imigrantes europeus. Com ele estava sua quarta e última esposa, Mary Welsh, também apreciadora de caça e que desejava matar um leão bravio com tiros bem calibrados. O escritor foi nomeado Inspetor de Caça pela administração colonial, o que é também difícil de entender porque implicava em entregar a guarda do galinheiro à própria raposa. Além disso, sua missão se mostrava inútil e impossível. Na vastidão de território que lhe cabia inspecionar não existiam estradas e os meios de acesso eram precários.

Naquele período o Quênia estava em ebulição. Jomo Kenyatta (1894/1978), suposto líder do movimento revolucionário dos Mau-Mau, estava preso. Pertencente à etnia kikuyo, era muito culto e viajado, professor que havia lecionado em diversos lugares, viveu na Inglaterra e se casou com uma inglesa. Os Mau-Mau constituíram uma guerrilha secreta, violenta e temida, cujas atividades passaram a ser acompanhadas pelo mundo todo. Acusavam os fazendeiros europeus de haverem roubado suas terras férteis, onde havia bastante água, deixando para eles as de qualidade inferior. Como os kikuyo foram os mais prejudicados, o movimento entre eles cresceu com rapidez. Em segundo plano, a rebelião lutava pela independência do Quênia das garras da Grã-Bretanha, da qual era colônia.

Os Mau-Mau aterrorizavam os fazendeiros e colonos europeus. Sua arma se constituía de um longo facão de um só fio, lâmina fina e cortante como navalha, fabricado no interior da Inglaterra e levado em grande quantidade para o trabalho agrícola na África. Chamado de panga, cada guerrilheiro portava um deles na cintura. Quando um grupo aparecia num povoado, numa estrada ou fazenda, era o horror. Os brancos europeus abalavam pelas matas e caminhos em busca de socorro. E não era para menos porque os guerrilheiros não hesitavam em decepar cabeças com precisos golpes de seus afiados facões. Lembro-me muito bem das reportagens publicadas pelas grandes revistas da época descrevendo o pavor dos fazendeiros brancos. Não só deles, mas também de outros africanos, inclusive da mesma etnia, que se recusassem a aderir aos Mau-Mau e fazer o juramento secreto de fidelidade à causa.

Tudo ia bem no acampamento até que correu a notícia de que os Mau-Mau estavam se preparando para invadi-lo. Não se sabe como essa informação chegou, mas os nativos contratados ficaram apavorados e começaram a insistir para que Hemingway se retirasse para Nairóbi. O escritor, no entanto, parece que não deu a menor importância e prosseguiu nas suas caçadas, inclusive fazendo incursões pelas matas. Numa delas deparou de repente com um grupo de revolucionários chefiados por um jovem bem-apessoado, trajando o uniforme típico dos guerrilheiros e armado até os dentes. O grupo cercou o escritor e o comandante se aproximou, falando em swáili:

Que está o inglês fazendo aqui?

– Não sou inglês, sou americano – respondeu Hemingway com a maior calma.

– Como se explica que tem cargo do governo colonial?

– É um cargo simbólico porque sou independente. Sou escritor e estou realizando um safari. Nada tenho com a política local.

Os guerrilheiros pareciam nervosos e foram fechando o cerco. O comandante, porém, mantinha a calma e falava com os demais para que nada fizessem. Hemingway continuou conversando com ele e o homem pareceu convencido. Então o escritor o convidou para um jantar no acampamento, com seus homens, e ele prometeu aceitar. Despediram-se em paz. Os nativos não podiam acreditar no que viram e imaginavam que o buana branco tinha poderes sobrenaturais. Tranquilo, Hemingway prosseguiu na sua caçada. À noite, no acampamento, o assunto foi um só: o encontro com os Mau-Mau. Depois os nativos iniciaram cantorias e orações a seus misteriosos deuses e os sons repetitivos ecoavam na mata densa.  Simba, o leão, rugia e uma manada de elefantes pastava nas proximidades. Hemingway e a esposa dormiram em paz, confiavam nos integrantes de sua expedição. 

Patrick Hemingway, segundo filho do escritor, escreveu: “Um kikuyu se convertia em Mau-Mau mediante um juramento secreto que o afastava de sua vida normal e o transformava em um camicase, um míssil humano apontado contra seu patrão, o fazendeiro imigrado da Europa. “ Sobrava razão para os integrantes do safari se afligirem, embora Hemingway não revelasse qualquer temor.

As caçadas prosseguiram, Mary obteve o “seu” leão e foi muito aplaudida pela perícia com que abateu o feroz animal. O safari se realizou na forma programada e tudo foi relatado pelo escritor no livro inacabado “Verdade ao Amanhecer”, que o filho Patrick concluiu, preparou e publicou. O título se deve ao fato de que Hemingway escrevia de madrugada.

No Quênia a situação evoluiu. O país conquistou a independência.  Jomo Kennyata saiu da prisão, fez extensa carreira política e acabou presidente da República. Adotou uma postura conciliatória que indignou os revolucionários, pregando o esquecimento do passado e uma visão de futuro. Acusações de corrupção e de se tornar o maior latifundiário do país mancharam sua atuação, embora obtivesse notoriedade mundial como líder anticolonialista. O aeroporto de Nairóbi leva o seu nome. Os Mau-Mau ficaram para sempre na história da descolonização. Esta crônica tem muito de história e um pouco de ficção. Tem verdades e mentiras. Mas, como dizia Hemingway, todo ficcionista é um grande mentiroso embora suas mentiras costumem retratar a mais cristalina das verdades. Razão pela qual ele buscava sempre e sempre a verdade naquilo que escrevia.

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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