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Livros & Livros

Como dizia um crítico, tudo que diz respeito a um grande escritor é de interesse geral. Com efeito, a obra dele depois de algum tempo cai no domínio público e passa a integrar o patrimônio cultural do país e até da humanidade. Tudo que se relaciona com Monteiro Lobato (1882/1948), por exemplo vem sendo rebuscado com o objetivo de conhecer cada vez melhor a personalidade do escritor e assim interpretar sua obra com perfeição.

Livro dos mais curiosos sobre o taubateano é “Quando o carteiro chegou – Cartões postais a Purezainha”, organizado e apresentado por Marisa Lajolo, grande conhecedora da vida/obra do escritor e autora de inúmeros trabalhos sobre ele (Editora Moderna – S. Paulo – 2006).

Nesse volume de esmerada apresentação a organizadora reuniu inúmeros cartões postais enviados por Lobato a Maria da Pureza Natividade, mais conhecida como Purezinha, sua noiva. São cartões com as mais variadas estampas contendo breves mensagens cheias de ternura. Como diz a organizadora, documentam um tempo em que era moda colecionar postais.  É uma leitura das mais curiosas, revelando o Lobato apaixonado e prestes a casar, logo ele que fazia protestos contra o casamento É uma belíssima coleção que Marisa Lajolo salvou para sempre, enriquecendo ainda mais a vastíssima bibliografia lobatiana Quando se imagina que tudo de e sobre Lobato já foi dado ao público, novidades aparecem para alegria de seus admiradores.


Meu amigo Rosário François Fusco, mineiro de Cataguases, é um escritor admirável. Acaba de publicar um livro muito interessante que venho lendo com prazer. Trata-se de “Histórias de Tobias Mendes”, publicado por Editora Lucel (S. Paulo – 2021) e que me foi oferecido pelo autor. O volume reúne um punhado de crônicas envolvendo esse personagem nas mais curiosas situações. Segundo o autor, Tobias Mendes peregrinou por várias publicações até encontrar seu lugar definitivo nas páginas do livro, depois de passar por alterações e aprimoramentos que costumam acontecer na construção de personagens marcantes como imagino tenha acontecido. Amigo das chamadas bebidas espirituosas (de bar em bar constitui uma série), boêmio, notívago, o personagem é inesgotável criador de histórias (que constituem outra série). A linguagem do narrador é personalíssima, livre e contém muito humor. O trecho em que relata os comentários sobre sua ausência é excelente. E a segunda parte do livro contém uma variedade de “causos” que parece inesgotável. Está de parabéns o amigo Rosário e estou certo de que seu livro será um grande sucesso. O prefácio-aperitivo de Antônio Jaime Soares é excelente, muito bem escrito e divertido.

“Emoções Poéticas” é uma bela antologia organizada por Alcione Gimenes Conejo e publicada por Futurama Editora (S. Paulo – 2021). Reúne um punhado de poetas espalhados pelo país e das mais variadas tendências poéticas, fornecendo leituras para todos os gostos. A publicação revela como os poetas estão ativos, o que costuma acontecer nos tempos de crise, conforme acentuam os historiadores da literatura. Destaco os trabalhos de Aristides Theodoro e Iracema M. Regis, esse “casal literário” que tanto tem dado de si às coisas da cultura. “Poeminha sem realismo”, de Theodoro, é um modelo de criatividade e memória. E “O homem & a porta” bem merece transcrição:

“O homem, ao nascer,

entra para a vida

pela porta da frente.

Após 60, 70 ou novent’anos

cansado de si mesmo,

de deus e do mundo,

deixa a vida e desaparece

pela porta dos fundos:

num mergulho infinito

(ainda bem),

Para nunca mais voltar.”   

Iracema, por sua vez, estampa uma breve seleção de seus mais expressivos poemas. “Perfil de uma metrópole” revela a intimidade como a poeta se movimenta na literatura paulistana.

Ambos estão de parabéns!

Cosme Custódio, baiano de Salvador, mais conhecido como poeta e editor de “O Garimpo”, é um escritor surpreendente. Publica agora o livro “Contexturas & Pretextos” (Mundial Artes Gráficas/BA – 2021), reunindo oito esmerados ensaios difíceis de classificar, mas que me atrevo a registrar como textos dedicados a uma visão crítica da história. Como escreveram críticos dos relatos de nosso passado, nossa história não continha gente, homens, mulheres, seres humanos. Era uma sucessão de datas, documentos oficiais (nem sempre confiáveis), fragmentos de vetustos documentos, enfim um conjunto que fornecia uma imagem estagnada, sem ação, pulsação humana, paixão, revolta, decisão. Tudo parecia uma página plácida, sem movimento. Ora, em Cosme Custódia não é assim, ele não estuda apenas a sucessão de fatos mas ausculta a vibração humana em torno dela. Tem uma visão crítica da história, como bem demonstra neste livro que merece ser lido pelos brasileiros.


Para encerrar, registro ainda a publicação de “Humor Cego”, de autoria de Vieira Vivo (Costelas Felinas – S. Vicente/SP – 2021) e “Esperança Além da Crise”, de Mark Finçey, em tradução de Cecília Eller Nascimento.

Por falar em esperança, encerro este artigo sentindo o peso angustiante da situação do país. Há um clima de medo e opressão de que as forças mais retrógradas imponham uma ditadura nos moldes do Afganistão. E então não poderei mais escrever porque tudo estará sujeito à mais rígida e obscurantista censura. Arrepia-me a ideia de viver outra ditadura depois das duas sob as quais já vivi. E esta ainda pior que as outras.

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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