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MARIA BONITA NO CANGAÇO

Com o objetivo de investigar a vida de Maria Bonita e outras mulheres no cangaço, a jornalista paulistana Adriana Negreiros publicou um livro modelar e que ultrapassa em muito o próprio título. Trata-se de “Maria Bonita –  Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço”, publicado pela Editora Objetiva (S. Paulo – 2018) e no qual aborda muitos outros aspectos baseados em vasta e criteriosa pesquisa. É impressionante o volume de fontes que consultou.

 O escopo central do livro é mostrar que a vida das mulheres que seguiam seus homens nos bandos de cangaceiros estava longe de ser o mar de rosas cantado pela fantasia popular. Pelo contrário, muitas delas sofriam violentos maus tratos e até mesmo a morte. Dentre muitos casos, ela reconstitui as relações entre Corisco, o Diabo Loiro, e sua companheira Dadá, que foi raptada ainda jovem, quase menina, e muito sofreu até se ambientar à vida do bando. Depois se tornou uma destemida cangaceira, enfrentando combates e fugas com extraordinária coragem. Muitos outros casos são lembrados pela autora.

Entre os múltiplos temas que ela aborda um apela à curiosidade: os estudos feitos pelos cientistas a respeito dos cangaceiros na tentativa de entender sua índole criminosa. No início do Século XX estavam em voga as teorias positivistas do psiquiatra italiano Cesare Lombroso, autor do livro “L’Uomo Delinquente”, publicado em 1876, e que repercutiam em todo o mundo. Segundo ele, haveria uma relação estreita entre as características físicas da pessoa e sua inclinação para o crime – o criminoso nato ou lombrosiano. Tais pessoas não teriam alcançado o pleno desenvolvimento mental e sofriam de invencível inclinação criminosa.  Essas teorias foram aceitas por cientistas brasileiros, entre eles o antropólogo Nina Rodrigues, professor da Universidade |Federal da Bahia, que se entregou a estudos sobre o assunto.  Tendo como base a frenologia, examinava a formação da cabeça dos indivíduos para identificar ou não sua índole criminosa.Com esse objetivo examinou os cérebros de muitas pessoas, dentre eles o de Antônio Conselheiro, líder de Canudos, e dos cangaceiros Jesuíno Brilhante e Lucas da Feira. Sobre este último já escrevi nesta coluna. Pelo que me consta, nada de anormal encontrou nessas pesquisas. As cabeças dos cangaceiros mortos no Angico, junto com Lampião, ficaram expostas por longos anos numa vitrine do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, onde tive ocasião de vê-las. Espetáculo horrível com aqueles olhos nos contemplando do Além. Mais tarde, diante da grita geral, elas ganharam sepulturas.  

Em 1921 entra em cena o médico e antropólogo Estácio de Lima. Embora admirador de Nina Rodrigues, divergia dele em muitos pontos. Observava com atenção as atividades do cangaço, muito intensas na época, e lia os ensinamentos de Ernst Kretschmer segundo os quais os indivíduos se dividiam em dois grupos: os leptossomáticos e os pícnicos, aqueles os grandes e magros, estes ou pequenos e gordos. Aqueles seriam esquizofrênicos, o que os levaria ao crime. Estácio de Lima não teve dificuldade em abraçar tal entendimento. Para ele, os cangaceiros eram típicos leptossomáticos.

Roquette Pinto, adepto da eugenia, também se dedicou a esses estudos. Presidindo um congresso sobre o assunto, fez curiosas previsões. Segundo ele, em 83 anos o Brasil seria formado por 80% de brancos e 20% de mestiços. A eugenia, pseudo-ciência, conquistou muitas mentes no país, entre elas a de Monteiro Lobato, cujo livro “O Presidente Negro” é tido como racista. Tanto Nina Rodrigues como Roquette Pinto enveredaram por um racismo explícito. O primeiro deles chegou a propor um Código Penal para brancos e outro para negros.

Estácio de Lima, ao contrário, sustentava que a miscigenação é de grande importância para o aprimoramento do ser humano e sua evolução, contrariando a noção de raça pura.

Numerosos outros estudos foram realizados com o intuito de analisar e entender o cangaço, fenômeno típico do Brasil, sem similar em todo o mundo. Até hoje o cangaço desperta a atenção dos pesquisadores e a bibliografia a respeito não cessa de crescer. O livro de Adriana Negreiros é uma importante contribuição.

Voltarei a ele.

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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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