- Publicidade -
16.7 C
Balneário Camboriú
Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
- Publicidade -
- Publicidade -

MESTRE E AMIGO

Eu passava as férias do internato na casa de meus avós, em Campos Novos. Andava feliz da vida com a bicicletas que havia ganho de minha avó, Olívia, sempre pronta a presentear o neto mais velho. Tratava-se de uma bicicleta da marca Horimek, de fabricação sueca e toda incrementada com lâmpada de iluminação noturna, espelho retrovisor, campainha e duas flâmulas esvoaçantes no paralama dianteiro. O fino! Com ela eu me exibia pelas ruas da velha cidade.

Numa manhã ensolarada eu saía para dar umas voltas na bicicleta elegante. Diante da casa alguns homens conversavam, entre eles meu tio, Waldemar Rupp, deputado federal, o dentista Walter Fernandes, o vizinho Bernardo Almeida e um cidadão que só conhecia de vista. No momento de montar na bicicleta a corrente saiu do lugar e caiu. Irritado, eu me abaixei para colocar a peça no lugar e foi então que o cidadão que só conhecia de vista se inclinou e me deu uma ajuda.

– Máquina é máquina – disse ele. – Às vezes falha. 

Bateu com a mão nas minhas costas e eu saí ventando pela rua de chão batido.

Passaram-se anos e eu cursava a Faculdade de Direito, em Florianópolis. Chegado ao quarto ano, obtive carta de solicitador e passei a estagiar no escritório do Dr. Oswaldo Bulcão Vianna, que tinha como sócios o Dr. Abelardo de Assunção Rupp, meu professor na Faculdade, e Riciotti Queluz. Eu só praticava atos de menor importância, mesmo porque o solicitador tinha atuação limitada, e fazia trabalhos de gabinete. O escritório tinha grande clientela, embora de gente muito pobre.   

Certa manhã eu estava na minha pensão quando Dr. Bulcão me ligou.

– Fiu intimado para a audiência de instrução e julgamento do processo de “seu” Arlindo Andrade, na comarca de Palhoça. Como ele é meu conhecido abo eleitoral e o caso teve motivos políticos não quero aparecer. A repercussão dos fatos foi muito grande e prefiro evitar algum incidente. Então você se prepare para fazer a audiência. Estou certo de que você dará conta do recado.

E desligou. 

Tremi nas bases. Nunca havia feito uma audiência daquelas, ainda mais em caso de tanta repercussão. Mas tinha que enfrentar! Fui para o escritório e estudei o processo, armei as teses de defesa e imaginei respostas a questões que pudessem ser levantadas pelo Ministério Público. No dia seguinte, engravatado, penteado e barbeado, lá estava eu, pronto para tudo. Fazia força para não denotar nervosismo. Entrei na sala de espera, repleta de pessoas, e em seguida fui encaminhado para a sala de audiências. O Promotor de Justiça e o advogado assistente de acusação tomaram seus lugares e eu, solitário e desamparado, tomei o lugar da defesa. Então a porta se abriu e o juiz entrou na sala. Era um homem ainda jovem, bem vestido e elegante. Cumprimentou a todos com um gesto de cabeça e sentou-se à mesa dos trabalhos. Com um baque do coração, eu o reconheci: era o cidadão que havia me ajudado no problema da bicicleta, em Campos Novos, tantos anos atrás!   Sem dúvida, era ele!  Aquilo me aliviou e me senti mais seguro.

– Está aberta a audiência – disse ele. – Aproxime-se a primeira testemunha.

Ouvidas as testemunhas, tudo acompanhado cum atenção por muita gente, os Arlindos e os adversários, o juiz deu a palavra ao Ministério Público, depois ao assistente de acusação e, por fim, à defesa, ou seja, a mim. Apesar da tensão do ambiente e do ódio que pairava no ar, tratei de me controlar e desfiei os pontos da defesa com a segurança que pude. Para minha surpresa, a voz saiu firme e modulada, e pude observar a atenção do juiz nas minhas palavras. Concluída minha fala, o magistrado levantou-se e falou:

– Está suspensa a audiência por quinze minutos. Sentenciarei no ato.

Houve um movimento nervoso e as pessoas conversavam entre si. Algumas foram ao cafezinho servido no saguão da entrada. Os Arlindos torciam pela absolvição; os adversários pela condenação. Arlindo era o chefe da UDN local e exercia uma oposição ferrenha. A audiência prosseguiu e o juiz proferiu a decisão com muita calma e segurança, em voz clara e firme. Pelo caminho que tomavam suas palavras eu senti que “seu” Arrlindo seria absolvido, como de fato foi. Senti tremendo alívio e me convenci de que poderia ser um verdadeiro profissional. O juiz chegou ao final da sentença, absolveu meu cliente e encerrou: Abelardo da Costa Arantes, Juiz de Direito. 

Desde então eu me tornei seu admirador e passei a visitá-lo sempre que podia. Muito aprendi nas nossas conversas e me tornei seu amigo sincero e desinteressado. Dr. Abelardo da Costa Arantes ficou para sempre no meu coração. Mestre e amigo, modelo de magistrado isento, competente e corajoso.  

Com minha atuação no caso Arlindo passei a ser procurado por clientes de Palhoça, independentes do escritório, e os Arlindos queriam a todo custo  que fosse advogar na comarca. Alguns colegas passaram a me chamar de cidadão palhocense.

Volvidos muitos e muitos anos, um fato revolveu no meu íntimo a lembrança do mestre e amigo. Aproximado pelo escritor e amigo Manoel Cardoso, conheci Marco Antonio Arantes, contista, romancista e ensaísta brilhante, filho do Dr. Abelardo. E, como ele diz, tornei-me um amigo de infância conquistado em “provecta idade”

Até o momento somos amigos escritos, como dizia Monteiro Lobato, porque ainda não nos encontramos em pessoa.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -