- Publicidade -
22.8 C
Balneário Camboriú
Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
- Publicidade -
- Publicidade -

NA AUSÊNCIA DE MAIGRET

Ao colega da Revista Rio Total,

DR. PEDRO FRANCO

O comissário Jules Maigret, investigador da Polícia Judiciária francesa, protagoniza inúmeros romances e contos de autoria do escritor belga Georges Simenon (1903/1989). Entre os mais prolíficos autores de sua época, Simenon nasceu, viveu e faleceu no Século XX. Foi um homem do século passado e através de sua vasta obra o leitor percebe as modificações e os progressos que ocorriam no mundo. Nos textos mais antigos, Maigret viajava de trem e se locomovia em táxis nas suas investigações. A Chefatura de Polícia parecia dispor de poucos veículos e o gabinete do comissário era aquecido nos rigorosos dias do inverno parisiense por uma estufa bastante primitiva. Por outro lado, embora estrangeiro, Simenon conhecia a capital francesa como a própria mão.

Ele classificava uma parte de sua obra romanesca como “romans durs”, aqueles que escrevia com total liberdade, inclusive descrevendo de forma crua cenas chocantes. Assim acontece, entre outros, com “O Quarto Azul”, um dos mais famosos de sua autoria. Nele o comissário Maigret está ausente, mas nem por isso os crimes deixam de ocorrer e são investigados por outros detetives.

Em “O Quarto Azul”, publicado entre nós, pela Companhia das Letras (S. Paulo – 2015) o autor tece uma história muito curiosa. Depois de longos anos, o personagem Tony, italiano de nascimento, se encontra com uma mulher que fora sua colega de escola e que já naquela época se interessava por ele. O rapaz, no entanto, não nutria qualquer simpatia por ela. Julgava-a alta demais, espigada e ossuda, sem atrativos aos seus olhos. Ambos estavam casados. Andrèe, a mulher, era filha da merceeira local e ele se dedicava à venda de máquinas agrícolas. Nesse encontro ela o cativa e ambos têm um caso. Encontram-se no hotel que pertence ao irmão de Tony e ocupam o quarto azul, assim chamado. Em um dos encontros, depois de elogiar a beleza do rapaz, ela pergunta:

– Você me ama, Tony?

– Acho que sim – responde ele.     

 – Não tem certeza? = indaga ela, contrariada.

Mais adiante: 

– Você se casaria comigo se eu fosse livre?

– Claro – respondeu por responder, uma vez que aquelas palavras nada significavam.

Tony jamais imaginou o quanto elas influiriam no seu futuro.

Depois de algum tempo o rapaz decide terminar o relacionamento com ela e tratou de se afastar. Então a notícia correu na pequena cidade: o marido de Andrèe havia morrido. Ela estava livre para ficar com ele mas o rapaz deveria se livrar também. E uma carta anônima chega pelo corre; “Agora é com você!” – estava escrito.

Tony não deu maior importância e continuou cuidando da vida. Até que um dia, retornando do interior, soube que sua esposa estava morta, envenenada. Só então percebeu que a morte fora maquinada por Andrèe ao vender a ele um pote de geléia envenenada.

Ambos são presos e submetidos a processo. Respondem a longos e minuciosos interrogatórios nos quais Simenon ministra verdadeiras aulas de Psicologia Criminal.

Por fim, tanto o inocente como a culpada, são condenados à pena de morte, comutada pelo júri em trabalhos forçados perpétuos.

Ocorre, então, o final patético. Ela se volta para ele, ainda no tribunal, e diz:

– Está vendo, Tony? – Não conseguiram nos separar.

“O Quarto Azul” é dos mais aplaudidos romances de Simenon, elogiado pela melhor crítica e inspirou um filme de grande sucesso.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -