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Balneário Camboriú

O CONSELHEIRO XX

Como tantos escritores nacionais, Humberto de Campos (1886/1934) está esquecido. Suas obras estão esgotadas e não se vendem nas livrarias; não têm merecido teses acadêmicas ou manifestações da crítica, aliás, cada vez mais raras. No entanto, foi o cronista mais famoso de seu tempo, além de primoroso contista, crítico, ensaísta e poeta. Sua obra encantou gerações de leitores e sua crítica, às vezes impiedosa, mas sempre justa, consolidava reputações e desmontava imerecidos renomes. É conhecido o episódio envolvendo-o com João do Rio, no qual forçou este último a encerrar uma coluna de jornal, tal a situação de ridículo em que metia os personagens de seus escritos.

Nascido no interior do Maranhão, em lugarejo perdido no sertão nordestino (hoje denominado Humberto de Campos), amargou a mais negra pobreza, beirando a miséria, ainda mais após a prematura morte do pai. Foi empregado no comércio e aprendiz de tipógrafo. Residiu na cidade de Parnaíba, no Piauí, em São Luís e Belém e, por fim, no Rio de Janeiro, onde faleceu aos 48 anos de idade, vítima de moléstia incurável, em meio a grande sofrimento. Graças a um esforço permanente, às vezes desesperado, tornou-se um erudito e um escritor de grandes recursos, dominando com a mesma competência todos os gêneros a que se dedicava. Segundo Graça Aranha, “foi o mais aristocrático de nossos escritores”, conquistando uma vaga da Academia Brasileira de Letras aos 34 anos de idade, em 1920. Foi também Deputado Federal pelo seu Estado, mas alcançou maior renome como cronista jornalístico, sob o pseudônimo de Conselheiro XX, na maior parte de sua militância na crônica. Colocando nelas a erudição e as reflexões, envoltas em esmerada linguagem, esgrimia a ironia e o humor com perfeição, acentuando o que havia de ridículo, absurdo ou engraçado nas situações. Usou a anedota, a piada, o “non-sense” com grande versatilidade, tornando-se, ao mesmo tempo, extremamente popular e temido. Como o Conselheiro XX discutia questões, fazia sugestões e dava conselhos em casos enviados pelos leitores. Seus escritos, observou um crítico, “eram devorados pela turba, que via no estilo fácil, no tom suave, na queixa branda, derivativo para todas as agruras cotidianas.”

Suas memórias, no entanto, foram as obras que mais falaram à alma do povo. Escritas quando já estava doente, retratam de forma pungente os padecimentos do menino pobre e desvalido, sensível e sonhador, abandonado na aspereza da selva humana. Nesses volumes, escritos com tocante sinceridade, está a luta desigual para sair do triste anonimato a que estava destinado e alcançar o reconhecimento através do trabalho e do talento. São páginas “de melancolia, resignação e pessimismo, expondo o exemplo de um homem atingido pela desgraça depois de alcançar a glória por esforço próprio e honesto”, para repetir Afrânio Coutinho. 

Nessas memórias existem momentos que ficam para sempre. É impossível esquecer, por exemplo, a passagem para o novo Século. Enquanto a cidade, o país e o mundo festejavam nas ruas e nos salões, entre fogos, músicas e brindes, o garoto miserável permanecia no porão da mercearia onde era empregado, na repetitiva faina de lavar garrafas. Pela fresta existente ele mais adivinhava do que via as comemorações a que o mundo se entregava. No relato, no entanto, não há queixume ou revolta, apenas a constatação de que foi assim e não adianta chorar pelo leite derramado. Em outro local, talvez um de seus mais conhecidos escritos, narra a tragédia dos “vareiros”, aqueles seres embrutecidos pela repetição dos mesmos atos, impelindo as pesadas chatas pelo rio Parnaíba, caminhando com lentidão os mesmos passos, agarrados ao varão fincado no fundo da água, fazendo a embarcação vencer a corrente ao longo de quatrocentos quilômetros. “Assim vive, – conclui ele – preso à sua vara, empurrando a sua barca rio acima, ou defendendo-a, rio abaixo, o “vareiro” do Parnaíba. E assim morre. Assim vivo eu, preso à minha pena. E assim morrerei.”

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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