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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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O Conto

O conto é o gênero literário em prosa mais praticado em todo o mundo, inclusive no Brasil. Aqui entre nós, tivemos e ainda temos contistas de primeira linha nas mais variadas tendências e escolas. Tenho a impressão, porém, de que nossa contística tem perdido em qualidade nestes últimos tempos. 

Estive mergulhado numa antologia de contos organizada pela antiga Editora Globo, de Porto Alegre, e encontrei peças excelentes. Trata-se de “Os Melhores Contos Brasileiros de 1973”, organizada com os rigorosos critérios da respeitada casa editora dos Bertaso. O volume engloba 14 autores de variadas regiões do país.

Destaco entre as obras o conto “O Colecionador de Lágrimas”, de autoria de Ildeu Brandão, mineiro de Ouro Fino e muito comentado na época. Em duas páginas e meia ele cria uma história enigmática que obriga o leitor a parar a leitura e pensar. Mas pensar em quê? Confesso que não sei. É uma história das mais intrigantes, Rubem Fonseca, em “Passeio Noturno”, contribui com uma história curta e chocante, bem ao seu estilo. Econômica de espaço e de palavras.

Clarice Lispector contribui com “A Partida do Trem”, longo texto em que ela mostra como a memória, em questão de minutos, pode rever os acontecimentos de toda uma vida. Compõe em instantes toda a biografia da personagem Maria Rita. Mas o conto, embora longo, parece que não mereceu o tratamento devido. Há repetições indesejáveis da mesma palavra numa só frase e abuso no uso dos advérbios em mente, defeitos que surpreendem numa autora de tanto renome. Além disso, o tratamento constante de velha à referida personagem seria hoje considerado politicamente incorreto.

Em conto longo e bem trabalhado, a escritora gaúcha Ieda Inda mostra como a construção e a mudança para nova casa mexe cm a psicologia dos moradores e seu modo de vida. Arguta na observação psicológica das pessoas, a contista vai registrando passo a passo essas alterações e prendendo o leitor ansioso pelo desfecho da história. “O Arquiteto ou o Encantamento da Sexta-Feira Santa” é excelente, embora não me agradem muito contos com nome duplo. Ieda Inda foi muito famosa, estava sempre na mídia, e hoje se encontra em total ostracismo. Não leio ou ouço falar dela há muito tempo, o que me leva a pensar porque alguns autores permanecem e outros desaparecem, fenômeno que nem sempre se deve à qualidade da obra. Bons autores ficam na memória, outros se apagam. A “Enciclopédia Brasileira Globo”, riquíssima em assuntos nacionais e que teve a parte literária a cargo de Érico Veríssimo nem sequer a menciona. O “Dicionário Literário Brasileiro”, de Raimundo de Menezes, também a ignora e a “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa dedica a ela umas poucas linhas, enfatizando a importância do conto aqui comentado em sua obra e que deu título a um livro. Segundo a editora, ela preparava novo livro ambientado na região fronteiriça do Rio Grande do Sul. Ieda foi arquiteta, cineasta amadora e ambientalista engajada.

Hermilo Borba Filho foi outra figura de destaque. Estava sempre em evidência, agindo, falando, criando. Nesta antologia ele comparece com um conto anedótico em que o fazendeiro rico espera um almirante verdadeiro e prepara uma recepção principesca, regada a champanha e caprichada nos comes e bebes. Mas quem aparece e rouba as homenagens é o Almirante Siri do Fandango Verdes Mares Bravios que visitava o potentado rural para obter “algum.” Conto com cenas cinematográficas e hilariantes e tem por título “O Almirante.”

A acadêmica Lygia Fagundes Telles, há pouco falecida, contribui com “A Estrutura da Bolha de Sabão”, história sutil em torno de algo que não é sólido e também não é líquido, e Murilo Rubião publica “Epidólia”. Ambos os contos são muito conhecidos e publicados. “Circuito Fechado”, de Ricardo Ramos, também é de alto nível.

Os demais participantes são Luiz Vilela, Mafra Carbonieri, Nélida Pinõn, Rubem Fonseca, Sérgio Sant”Anna, e Victor Giudice.  Cada um deles mereceria, a rigor, um comentário específico, mas isso estenderia por demais estas notas.

Segundo a editora, as antologias por ela lançadas obtiveram grande sucesso e outras seriam lançadas. A dificuldade para escolher com justiça os participantes foi grande e exigiu intermináveis buscas em livros e periódicos. O conjunto foi positivo e o livro é um manancial inesgotável de boas histórias para os admiradores do conto.

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