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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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O Golpismo

O desejo de um Golpe de Estado é um sentimento arraigado na alma de muitos brasileiros. Desde que me lembro – e já vivi bastante – estamos sempre sob a ameaça de um golpe contra a Constituição e a implantação de um regime autoritário. Enquanto os povos lutam pela liberdade, esses brasileiros desavisados lutam contra a deles próprios e de todos nós. É inacreditável, mas não querem ser livres, preferem ser escravos. Não sei de onde veio essa tendência, mas creio que é herança do “coronelismo” que dominou o país, em que o “coronel” (latifundiário, senhor de engenho e de escravos, grande negociante, empresário, industrial etc.) mandava e desmandava, agindo a seu talante e punindo seus adversários. Ou está comigo ou é meu inimigo.

Não consigo entender que alguém, no seu juízo perfeito, queira viver em uma ditadura e não na democracia. Como dizia Montesquieu, a democracia pode ter mil defeitos mas o gênio humano não conseguiu inventar nada melhor. Só em regime democrático o ser humano pode viver com dignidade.

As pessoas que pensam dessa forma deveriam se informar a respeito das ditaduras que exsitiram na América Latina e no Brasil. Stroessner no Paraguai, Perón na Argentina, Pinochet no Chile, Trujillo na República Dominicana, Duvalier no Haiti, Fulgêncio Batista em Cuba, Noriega no Panamá, os diversos ditadores da Bolívia e outros tantos tiranetes que praticaram as maiores atrocidades contra seus povos. Sem falar nas tenebrosas ditaduras de outras partes do mundo, como as de Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, Stálin na URSS, Pol Pot no Camboja, Idi Amim Dada em Uganda e outras que tanto ensanguentaram seus países. Seria proveitoso que observassem o que ocorre no Afeganistão e no Irã, regimes de extrema direita. Deveriam estudar, acima de tudo, o que aconteceu no Brasil nas ditaduras de Vargas e de 1964. Na primeira eu ainda era criança, mas recordo dos comentários que ouvia sobre perseguições, invasões de moradas na calada da noite, espancamentos na delegacia de polícia, torturas e prisões arbitrárias. Além da exigência absurda de salvo-conduto, documento expedido pela autoridade policial, para realizar qualquer viagem, por curta que fosse. O nome de Filinto Muller, chefe de polícia, provocava calafrios até nos mais valentes.  Quanto à de 1964, acompanhei do início ao fim e testemunhei as barbaridades que foram cometidas. Diante disso tudo, não entra na minha cabeça que alguém prefira viver sob ditadura.

Santa Catarina, o nosso Estado, saiu mal de eleição. Revelou-se o mais reacionário Estado brasileiro e, não satisfeito, o mais golpista. Sucederam-se os mais escabrosos casos de intolerância, como um manifesto nazista na UFSC, jovens fazendo saudação nazista, alunos de uma escola segregados porque usavam fantasias do presidente eleito, casais que se separaram por causa de votos discordantes, boicote a comerciantes adversários, listas secretas de adversários (imagino para que) e hostilidade a ministro do STF em restaurante. Para completar, uma célula neonazista foi desbaratada nos arredores da capital. É difícil acreditar que a intolerância e o obscurantismo tenham chegado a tal ponto. Nossa imagem, no país, não poderia ser pior e cada catarinense que sai de nossas fronteiras corre o risco de ser considerado nazifascista.

Onde foram a cordialidade e a hospitalidade catarinenses?

Nosso Estado não merece isso. Li muito a respeito das guerras civis que aconteceram na Espanha, em Angola e na Bósnia. Vejo com espanto que, no tranco em que estamos, iremos por esse caminho. As guerras entre irmãos costumam ser as mais sangrentas porque as pessoas se aproveitam da situação para tirar as mínimas diferenças. É isso que desejamos para o nosso Brasil?

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