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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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O IMPÁVIDO MAIGRET

O comissário Jules Maigret, investigador da Polícia Judiciária francesa, é o mais marcante personagem da obra do escritor belga Georges Simenon.  Ele rivaliza com os maiores detetives da ficção universal, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot, embora usando método diferente, aquilo a que chamo de método de não ter método. Maigret é a figura central de muitos romances e contos de Simenon, seus casos têm sido filmados para o cinema e a televisão, embora em alguns filmes não se mostre fiel ao personagem literário. Às vezes aparece muito velho ou muito magro e com uma voz que não condiz com ele.

Maigret é um homem grande, um tanto pachorrento, embora não seja gordo, mas é ágil nos momentos necessários. Enverga quase sempre um pesado sobretudo preto com gola de veludo e se cobre com um chapéu. Fuma cachimbo e com uma frequência que chega a ser preocupante. Tem um olhar arguto que tudo vê e observa, como quem fotografa os ambientes. Na maioria dos casos não usa arma, embora às vezes se encontrem alusões ao “bolso do revólver.”  Não é violento, salvo quando a situação o exige. Conhece Paris, seu campo de ação, como poucos e também é conhecido entre os parisienses. Uma figura que impressiona.

Em uma das situações, Simenon assim o descreve: “O comissário Maigret não se dignava a encostar na parece de tijolos escuros. As mãos nos bolsos do sobretudo, estava bem plantado em suas pernas fortes, tão rigorosamente imóvel que dava a impressão de uma massa inanimada. Mas ouvia-se a intervalos regulares o crepitar de seu cachimbo. Adivinhavasse o seu olhar, do qual não conseguia apagar a ansiedade.” Em outra passagem: “Maigret estava tão calmo, tão frio, exibia uma fisionomia tão hermética que não parecia de carne e osso. Seus olhos não olhavam para lugar nenhum. Continuava envergando o pesado sobretudo preto, mãos nos bolsos. Parecia alguém que, depois de uma longa viagem, revê com novos olhos lugares que lhe eram familiares.” Assim é Jules Maigret, parece ausente, mas está presente como poucos.

Em “A Cabeça de um Homem” (Cia. Das Letras – S. Paulo- 2014), um dos mais célebres de seus romances, Simenon coloca Maigret numa das mais difíceis e complexas investigações de sua carreira. Numa jogada de alto risco, o comissário se lança no rastro do verdadeiro autor de um duplo homicídio que levou à condenação à morte um pobre coitado algo retardado cuja inocência o comissário se propõe a provar. Depara-se, então, com o tcheco Radek, indivíduo astuto e de extraordinária inteligência que procura mostrar ao comissário que ele não está entendendo nada. Mas, ao contrário do que imagina, Maigret está entendendo tudo e em breve desvendará o caso com todas suas minúcias e levará o arrogante tcheco à cadeia e, talvez, ao cadafalso. Radek é um criminoso psicopata que mata por ter ódio à humanidade. Age de maneira fria e calculada.

Joseph Heurtin, homem simples e do meio rural foi o escolhido como cobaia por Radek. Graças a um bem urdido e maligno plano, aproveitando-se da sua pouca inteligência, o tcheco consegue envolvê-lo num duplo homicídio, deixando tantas pistas que acabam por leva-lo à condenação à morte. Mifret, porém, não se conforma. “Ou ele é inocente ou é louco” – repete. Para provar sua teoria, organiza a fuga de Heurtin da Santé, a mais segura das penitenciárias francesas, o que provoca um enorme escândalo. Heurtin não entende bem o que acontece, tanto que não foge e não se esconde. Perambula pela cidade, sem rumo, dorme por horas a fio e tenta voltar para a casa dos pais onde é rejeitado como assassino. Desesperado, tenta o suicídio em um galpão. Então Maigret entra em cena e tudo esclarece: Radek é preso, confessa os crimes, e o infeliz Heurtin é inocentado. Com sua calma habitual, o comissário relata o caso em pormenores ao juiz de instrução. 

Saindo do encontro com o magistrado, Maigret respira fundo. Jogou alto e ganhou. Recobra o ânimo e se dirige ao seu gabinete no Qua des Orfèvres, ativa a estufa e relaxa. Sabia que em casa sua mulher o esperava com um café quentinho.

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