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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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OBRA RESSUSCITADORA

Escreveu alguém que o biógrafo é um ressuscitador, trazendo a público alguma pessoa que se encontrava esquecida e cuja existência contribuiu de alguma forma para a vida social. A biografia, gênero menosprezado por longo tempo em nossas letras, é um trabalho penoso, exigindo incontáveis leituras e pesquisas de toda ordem, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e exerceu atividades variadas. Ao decidir biografar Godofredo Rangel, o mais assíduo correspondente de Monteiro Lobato, senti na pele as dificuldades, ainda mais num país cujos arquivos são em geral precários e mal organizados.

Jornalista e escritor mineiro, Regis Gonçalves prestou inestimável contribuição às letras nacionais e praticou um ato de justiça ao abordar a vida e a obra de Lúcia Machado de Almeida, em “Uma vida quase perfeita”, em livro publicado pela Editora Conceito, na série Beagá Perfis (Belo Horizonte – 2020). Trabalho minucioso, rico em elementos informativos e iconográficos, reconstitui com precisão a existência de uma escritora célebre em seu tempo e que alcançou a tiragem ímpar de um milhão de livros em circulação, feito só atingido por raros escritores brasileiros.

Filha do coronel Virgílio Machado, catarinense de São Francisco do Sul que se transferiu na juventude para o Vale do Rio das Velhas, em Minas Gerais, por razões pouco esclarecidas, Lúcia Machado de Almeida (1910/2005) nasceu e se criou na Fazenda Nova Granja, onde desfrutou de uma juventude livre e em contato direto com a natureza. Estudou em colégio de freiras francesas, na capital mineira e desde cedo revelou inclinação para a escrita, identificando-se com a literatura infanto-juvenil, gênero em que obteve inigualável sucesso. Dominou a linguagem adequada para atrair o seu público e seus livros atingiram vendagens surpreendentes em termos brasileiros.  Produziu com abundância, derivando para outros gêneros, como crônicas de viagens, memorialismo, aventuras e temas históricos, sempre com êxito. Personagens por ela criados obtiveram grande notoriedade, como a borboleta Atíria, Xisto e Spharion que povoam suas obras. Os roteiros de viagens a Sabará, Diamantina, Ouro Preto, ao Alto Minho, em Portugal, e das cidades históricas de Minas se tornaram amplamente conhecidos, ainda mais que ela se aprofundou no estudo da arte barroca e ministrava lições a respeito. Sempre que se dedicava a certo assunto, mesmo na ficção, ela se aprofundava em pesquisas e estudos, chegando mesmo a importar obras específicas do Exterior. Assim foi com o fundo do mar, os mistérios do polo, as viagens de Marco Polo, as lendas, o espaço aéreo, a história de Morro Velho, os asteroides etc. Sem pretensões didáticas, ministrava excelentes aulas aos leitores.

Transferindo-se para Belo Horizonte, foi como se o peixe Lúcia caísse no oceano. Além de produzir sem cessar, livros e mais livros, ensaios e artigos, entrevistas e manifestações, palestras e aulas, cultivou imenso rol de amigos das áreas das letras, das artes plásticas e das atividades culturais em geral. Casou-se com Antonio Joaquim de Andrade e Almeida. Durante anos viveram no prédio conhecido como Castelinho, em plena Praça da Liberdade, mais tarde substituído pelo famoso Edifício Niemeyer, projetado pelo célebre arquiteto e erigido por iniciativa de Lúcia. Tempos depois o casal se transferiu para São Paulo onde ela, mineira até a alma, padecia de constante “l’étrange amour d’absense” (estranho amor da ausência). Mas o reconhecimento chegava e sua obra era louvada pela melhor crítica, os prêmios e distinções chegavam, inclusive do Exterior. Como diz o biógrafo, ela estava no topo e colhendo os frutos.

Lúcia se revelou desde cedo exímia conhecedora da psicologia infantil, fato que contribuiu de maneira efetiva para o sucesso de seus livros. Tinha plena consciência de que sua obra influiu na evolução da literatura para crianças com a criação de cursos universitários e outras iniciativas que a divulgaram. Não obstante, reconhecia que Monteiro Lobato fora o verdadeiro criador da literatura para crianças em nosso país.

A escritora era irmã de Anibal Machado e do político Cristiano Machado, além de tia da dramaturga Ana Clara Machado. Anibal é considerado um dos maiores contistas nacionais, autor de obra pequena mas de elevado nível, na qual se destacam os contos “A morte da porta-estandarte” e “Viagem aos seios de Duília.” Ambos obtiveram intensa repercussão, foram comentados, transcritos e filmados. As reuniões literárias em sua casa, em Ipanema, se tornaram conhecidas em todo o país e frequentadas por escritores e artistas de todos os gêneros. Faleceu aos 60 anos de idade. Já Cristiano Machado não teve a mesma sorte. Lançado candidato à presidência da República teve o azar de disputar e ser derrotado por Getúlio Vargas. Segundo se dizia, e o biógrafo confirma, ele foi traído por seu próprio partido, o velho e conhecido PSD, mandando votar no caudilho gaúcho enquanto o mineiro recebia pífia votação. Ele foi “cristianizado”, termo que se criou para designar vítimas de traição. Comenta-se em Minas que ele ficou tão abalado que adoeceu e logo faleceu. 

Regis Gonçalves não traiu Lúcia Machado de Almeida. Pelo contrário, colocou-a no lugar merecido.

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