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Balneário Camboriú

Taquara Verde

“Taquara verde não queima” (Dito campeiro)

A Vila da Taquara Verde se estendia na beirada de um comprido coxilhão coberto de mato. Ficava apartada da estrada por um barranco de terra vermelha. Ali as casas se enfileiravam, na maioria modestas moradas de madeira bruta, encardida pelo tempo, e umas quantas de tijolos, mal-acabadas, em que viviam os maiorais da terra, uns tantos fazendeirotes, o intendente, o inspetor de quarteirão, o professor e uns colonos remediados.

Na parte de baixo da estrada ficavam a intendência, a delegacia, a escola e a igreja. Para os fundos, um campinho de capim surrado onde a gurizada jogava bola, alguns piquetes com os animais do custeio e um banhadal que se estendia até a barranca do rio. Matagal cerrado crescia na beira da água que nem uma cerca viva de proteção. Canoas e botes ficavam amarrados no “porto” servindo para cruzar o rio, algumas pescarias de pouco resultado e os brinquedos da piazada nos dias quentes. No outro lado, a perder de vista, estendiam-se os roçados daquele povo.

 A produção da Vila dava para o gasto e o que sobejava era vendido aos fazendeiros vizinhos, entre eles os coronéis endinheirados Lucidoro e Albuquerque. Milho, feijão, frutas e hortaliças, tudo era levado pelos peões daqueles e outros compradores.

A Vila vivia em paz. Raras brigas aconteciam, o inspetor logo acalmava e a paz retornava. Peleias sérias, de sangue, estavam tão longe no tempo que ninguém se alembrava. Os dias corriam serenos, fosse com calor, ventania gelada, geadão de branquear o mundo e até neve. Taquara Verde não incomodava e nem era incomodada.

Num repente, porém, um fato pegou a preocupar os moradores. Chegavam converseios sobre a Revolta dos Jagunços que se espalhava por toda parte, cada vez mais perto. Diz-que-diz-que chegava a toda hora contando as barbaridades dos dois lados, os caboclos e a polícia.

Pelo mês de setembro, durante uma chuvarada, apareceu na Vila um andarilho muito conhecido naqueles ermos por nome Vidá. Moreno claro, cabelos crespos, tinha uma cara simpática e um sorriso fácil. Cobria-se com um chapéu de palha esfiapado e uma capa lageana retamada de remendos. Pisava descalço no chão úmido e frio. Com uma corda feita de trapos de tecido atados uns nos outros, tangia um guapeca inseparável. Enquanto o dono, muito magro, tinha as costelas saltadas, o cachorro pelichava de gordo e exibia uma pelagem lustrosa.Vidá deixava de comer para dar ao bicho da estima.

Escorrendo água, o caminhante chegou numa casa conhecida e logo recebeu um prato que era um cerro de comida e uma caneca esmaltada grande de café preto. Enquanto devorava a comida com visível satisfação, ia informando dos acontecidos.

– Pois não hai de vê que uns trezentos jagunços, chefiados pelo Chiquinho Alonso, piazão de uns dezesseis anos, invadiram a Vila de Calmon? Queimaram a casa verde, escritório da Companhia Americana, a serraria e o estoque de madeira, o armazém, a estação da estrada de ferro, onde mataram o telegrafista, e outras moradias. Mataram todos os homens na força do serviço e só pouparam os velhos, as mulheres e as crianças porque o Alonso pediu. Foi uma mortandade! Quem pode fugiu pros matos ou pras cidades.

 – No outro dia, – continuou o caboclo, – chefiado pelo Venuto Baiano, invadiram a Vila de São João dos Pobres e a desgraceira ainda foi maior. Mataram todos os homens, sem perdoar ninguém, queimaram muitas casas e propriedades. Não levaram nada; não queriam roubar. Estavam revoltados contra o governo e os estrangeiros que tomavam as terras deles.

Vidá contou e contou, depois aproveitou uma estiagem da chuva e saiu pela estrada tangendo seu guapeca. Ninguém imaginava qual seria sua próxima parada.

As notícias correram e o medo tomou conta da Vila, espalhou-se com o vento. São João dos Pobres e Calmon estavam a dois passos dali e num repente os jagunços podiam aparecer matando e queimando. O intendente montou no seu cavalo e foi para a cidade dizendo que ia buscar informação. Na verdade, estava fugindo.

Naquela mesma noite outras pessoas foram embora.

Então foi a debandada. Os moradores pegavam suas trouxas e partiam, uns a pé, outros nos seus cavalo e carroças. Rumavam sempre para o oeste que a campanha estava em guerra.

Em pouco tempo Taquara Verde se esvaziou. Parecia uma Vila-fantasma, as casas fechadas, fumaça não saía das chaminés, não se viam pessoas nas poucas ruas. O silêncio só era quebrado pelo canto de algum pássaro ou pelo grito de animal na mataria próxima. Um que outro guapeca sem dono farejava à toa em busca de comida.

O tempo passou. Capim viçoso pegou a tomar conta da estradinha, as poucas calçadas na frente das casas racharam e caíram, o mato foi avançando. Um ar de cemitério cobriu tudo.

Na campanha, a guerra acabou. Os caboclos foram massacrados e a paz do mais forte voltou ao campo ensanguentado. Ventanias varreram o lugar, geadas e neve branquearam o mundo, fogaréus medonhos assustaram o povo, mas Taquara Verde não queima. A Vila  nunca foi invadida, mas jamais voltou ao que era.

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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