- Publicidade -
14.6 C
Balneário Camboriú
Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
- Publicidade -
- Publicidade -

UMA HISTÓRIA MUITO CURTA

Seriam 14h quando entramos na pequena cidade. Dia cinzento, céu enfarruscado, horizontes estreitos, embora não chovesse. Fazia um friozinho leve, suportável. E foi num domingo.

Logo de chegada o silêncio reinante nos impressionou à medida que percorríamos uma das ruas retas e largas. Não se avistava um transeunte, uma criança brincando, e nem mesmo os costumeiros cachorros vadios que perambulam em todas as cidades do mundo. Fomos avançando devagar e observando. Percorremos ruas e avenidas do centro e não avistamos ninguém, nem uma só pessoa. O comércio fechado, as casas fechadas.

Tudo quieto, vazio, parado.

Onde se esconderia o povo? Onde estariam as pessoas?

Incrédulos, decidimos ir até a praça central. É costume nas cidades do interior fazer da praça o ponto de encontro. Lá os moradores se reencontram, conversam, trocam informações e até namoram. Não tardamos a localizar o enorme jardim retangular, percorrendo-o nos quatro lados. Muitas árvores folhudas, canteiros de flores, arbustos decorativos e bancos confortáveis espalhados. Mas nem uma pessoa, nem uma só para contar das outras! Olhamos com olhos de ver, esquadrinhamos, espraiamos a vista. Nada.

Inacreditável! 

Uma cidade vazia, oca, desabitada. 

Haveria talvez algum problema sério que espantava os moradores das ruas, alguma ameaça terrível ou uma epidemia que provocava medo? Foram algumas das muitas perguntas que nos fizemos. Tudo, no entanto, indicava que não existia nada disso. As coisas revelavam um aspecto de normalidade.

A matriz! – excogitei num repente. Hoje é domingo, algum crente – pelo menos um! – há de estar orando. Esperançosos, partimos em busca do templo e logo o encontramos. Enorme, pintado de um amarelo fosco, a torre única espetando o céu cor-de-cinza. Como tudo o mais, porém, tinha as portas cerradas e estava imerso no mais compacto silêncio.

Decidimos, então, ir ao cemitério para reverenciar parentes e amigos que passaram para o outro lado do mistério – como dizia mestre Machado de Assis; Com certeza haveria algumas pessoas que aproveitavam o domingo para visitar os seus mortos e assim falaríamos com elas. Dois coelhos numa só cajadada, como se diz.

O campo santo tinha o portão aberto, aliás, foi a única entrada aberta que encontramos. Contrariando expectativas, porém, não havia viva alma, exceto talvez alguns fantasmas benignos que não nos incomodaram. Entramos num mundo lúgubre e deserto. O céu cinzento parecia mais baixo e pesado, algo sufocante.

Pensamos em comprar velas e flores mas a ideia foi descartada. Comprar onde, com tudo fechado?

Depois da visita, retornamos ao carro e às ruas. Num estalo me lembrei do bar, do café. Ele costuma ser ponto de reunião, além de usina de fofocas em torno de mesinhas onde é servido cafezinho quase sempre requentado. Logo o localizamos numa esquina, entre um banco e um posto de combustível. “Bar e Café do Arno”, lemos numa placa desbotada. E foi aí que nossa derradeira esperança se desvaneceu: não só estava fechado como a porta era guarnecida por robusta grade de ferro.

Nada restava a fazer.  Subimos ao ponto mais alto da cidade e ficamos observando o centro urbano por um bom tempo. E tudo continuou quieto, fechado, silencioso.

Para os lados da saída, assim de repente, explodiu no ar um rojão. Comemorava-se alguma coisa em algum lugar. Tratava-se de um sinal animador, anunciando que para aquelas bandas havia gente.

Deixando os limites urbanos, concluímos que aquela viagem só poderia, quando muito,  inspirar uma história muito curta.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -