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Uma regionalista esquecida

Nas minhas leituras sobre o regionalismo literário, corrente a que a crítica me filiou, encontrei referências a uma escritora paraibana que hoje está esquecida: Ignez Mariz (1905/1952). Examinando um belo álbum sobre a literatura paraibana que me foi oferecido pelos amigos Yó e Cláudio Limeira deparei com um ensaio de autoria de Analice Pereira focalizando a vida e a obra da referida escritora e tirando-a do ostracismo em que se encontrava (*).

Nascida em Sousa, numa família tradicional, Ignez Mariz foi uma pessoa independente e corajosa. Num período em que isso constituía grande escândalo, desquitou-se do marido afrontando as normas de conduta vigentes e ignorando os comentários malignos. Foi o primeiro desquite realizado no sertão paraibano causando enorme escândalo. Mas ela enfrentou a situação de maneira sobranceira, ignorando as críticas da vizinhança e da própria família ultraconservadora. Livre do marido, direcionou sua vida ao magistério e aos cuidados do único filho. Formada em Pedagogia, desde muito cedo, aos dezoito anos, já escrevia para jornais e revistas. Como educadora, dedicou-se às classes mais pobres, à alfabetização e aos problemas da sexualidade dos jovens, temas que também surgiriam na sua obra literária. Tinha um pensamento social aguçado.

Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu aos 47 anos de idade. Pretendendo escrever sobre a forma como os menos favorecidos são tratados quando necessitam de atendimento médico no país, lançou-se numa aventura perigosa que lhe custou a vida. Passando-se por indigente, obteve internação em hospital público da antiga capital da República. Afirmava sofrer das amígdalas que requeriam cirurgia, embora tudo não passasse de puro teatro. Houve total negligência, faltou oxigênio (já naquela época…) e faleceu na mesa operatória.

Em 1937, editado pela José Olympio Editora, Ignez Mariz lançou seu livro “A Barragem.” Trata-se de um romance de fundo histórico e social “que precisa ser lido por seu povo conterrâneo, que encontrará questões do sertão paraibano numa época em que a seca assolava sua população, o patriarcado reprimia a voz feminina de sua gente, a pobreza justificava certos atos de violência e demarcava, veementemente, uma sociedade de classes” – escreveu a ensaísta. O romance se insere na corrente de obras do regionalismo de 1930 com a ficção documental explorada por José Lins do Rego, José Américo de Almeida e Graciliano Ramos entre outros. A obra mereceu uma recepção morna e foi classificada por um crítico como “sincera”, o que provocou veemente reação da analista por considerá-la injusta. Só em 1994 o livro mereceu uma segunda edição pela Editora A União, de João Pessoa.

O regionalismo literário, em que pesem os preconceitos contra ele, tem encontrado seguidores em todos os tempos e regiões do país. Bem fez Analice Pereira em recordar uma autora de talento e mulher corajosa que andava esquecida. Pena, porém, que não tenha se detido em sobre a linguagem regional, os ditos típicos e a fala do povo.

Aqui em Santa Catarina, apesar dos hiatos, o regionalismo tem sido persistente. Foi a única corrente que chegou a se constituir numa escola. Fundada por Tito Carvalho, ampliou-se com Guido Wilmar Sassi, Márcio Camargo Costa e Edson Ubaldo, todos falecidos. Restamos Fernando Tokarski, Mario Tessari e eu. Como sou o mais “entrado em anos”, creio que caberá aos outros dois a tarefa de carregar a bandeira. 

(*) “Paraíba na Literatura”, Editora A União,

João Pessoa/PB, 2020.

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Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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