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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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XARÁ  (AINDA MAIS)  INCÔMODO

Não são muitos os meus xarás de que tenho notícia. Sem dúvida, o mais destacado foi o príncipe troiano incumbido de criar nova pátria após a destruição de Tróia e que, depois de mil peripécias narradas por Virgílio em “A Eneida”, foi o primeiro fundador de Roma. Em tempos mais recentes, aqui no país, celebrizou-se outro com um discurso oco e repetitivo que se resumia a quatro palavras: “Meu nome é Enéas!” Com recado tão vazio, gritado a plenos pulmões, conseguiu iludir muitos incautos. Mais tarde, nas minhas leituras cangaceiras, topei com outro Enéas, este envolvido no banditismo organizado que medrou durante mais de um século nas paragens nordestinas.

Enéas nem de longe chegou a se tornar um cangaceiro de destaque. Na verdade, foi um misto de coiteiro e cangaceiro. Segundo as poucas referências existentes, era filho de Venâncio Teixeira Lima e nasceu nas cercanias do Raso da Catarina, na Bahia. O pai e os irmãos e, com certeza, também ele, davam apoio ao bando de Lampião e consta que fabricavam coronhas para as armas dos cangaceiros danificadas nos combates. Chegou a ser preso pelo incansável sargento Manuel Neto, comandante de volante policial, mas depois foi solto e permaneceu escondido na cidade por longo tempo, até baixar a poeira. Não obstante, é certo que participou do assassinato a sangue frio de Tonho Rosa, mediante pagamento, em companhia de Livino, irmão de Lampião, em 9 de julho de 1924, portanto nos primórdios da carreira do Rei do Cangaço.

Os parcos registros sobre ele acentuam dois aspectos de sua personalidade: a extrema crueldade e a perícia no uso de armas de fogo, curtas ou longas, só rivalizando com Livino, irmão de Lampião, por isso mesmo cognominado Ponto Fino. Tratava todo mundo por “meu amiguinho”, pronunciando essas palavras num tom meloso e pernóstico, ainda que antecipando as maiores barbaridades de que era capaz.  Contava o cordelista Manoel Monteiro, numa visita que lhe fiz, que, perambulando com o bando de Lampião por uma vereda da caatinga, o rastejador desconfiou de certas pegadas algo confusas que avistou no solo. Tratava-se de pegadas de uma volante policial, mas as indicações eram imprecisas e eles poderiam cair numa cilada a qualquer momento. Parados no caminho, discutiam a situação, quando surgiu na curva um sitiante de aparência pobre, caminhando a pé e levando nas costas um saco com algumas compras. Cercado pela cabroeira, foi interpelado por Enéas sobre a localização da volante, tendo respondido que não sabia. O cangaceiro apeou do cavalo, olhou fixo para o pobre tabaréu, e expeliu:

– Meu amiguinho, é melhor você informar logo onde está a volante. Não minta pra mim  porque não gosto de mentiroso.

Tremendo de medo, o sitiante voltou a negar. Talvez porque não soubesse ou por medo da própria volante. Se indicasse a localização dela poderia ser acusado de coiteiro. 

O cangaceiro tornou a insistir e o sitiante a negar.

Irritado, Enéas ordenou:

– Meu amiguinho, tire suas precatas que preciso examinar suas pegadas.

Assustado, desconfiado, o outro tratou de tirar o calçado e pisou o pó fofo e quente que se acumulava no chão.

Com incrível agilidade, o cangaceiro sacou então do revólver, um Colt calibre 45, apontou para baixo e desferiu um tiro no dedinho do pé do sertanejo desprevenido. O balaço atingiu a unha e destroçou na hora o dedo do homem. Ele deu um tremendo urro de dor e um salto descomunal enquanto o sangue principiava a jorrar e se misturava à poeira espessa.

A cabroeira caiu numa gargalhada estrondosa que reboou no vazio da caatinga. Obedientes a um gesto de Lampião, todos seguiram viagem, deixando o miserável, ferido e solitário, esvaindo-se em sangue, longe de qualquer recurso, em plena caatinga brava.

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