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Enéas Athanázio
Enéas Athanázio
Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 60 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.
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XARÁS INCÔMODOS

Não somos muitos os que portamos o nome do príncipe troiano que fundou a romanidade. Pelo que me lembre, existiram dois em Curitiba, há vários anos, o primeiro deles o Enéas Faria, político jovem, bom de voto e de discurso, que depois desapareceu na voragem da política. O segundo, de cujo sobrenome não recordo, andou freqüentando as páginas policiais por haver “afanado as esmolas de uma igreja e torrado o dinheirinho com garotas e drogas.” Um papelão! 

Passados anos, surgiu aquele barbaças dos dois minutos na televisão e que bradava em voz esganiçada, com toda a força dos pulmões:

“Meu nome é Enéas!”

Ainda que seus gritos não combinassem bem com a figura frágil que era, foi um xará deveras incômodo e que afetou a todos os demais homônimos. Onde eu entrasse, naqueles tempos, surgia sempre um espirituoso que gritava:

“Meu nome é Enéas!”

Com o tempo a coisa perdeu a graça, eu e os outros Enéas recuperamos a paz perdida. Vítima de doença galopante, ele faleceu e parece caminhar para um rápido esquecimento, como tudo hoje em dia. Foi uma pena ele haver esquecido que se comprometera, inclusive em documento público, a candidatar-se apenas à presidência da República e nunca a outros cargos. Como bom político, deixou o dito pelo não dito e acabou se candidatando a deputado federal, levando na legenda uma récua de inutilidades que em nada contribuem para melhorar o Congresso Nacional. Apesar de sua aparente fragilidade, pregava a necessidade da bomba atômica, da pena de morte e da prisão perpétua, além de outros tratamentos assim suaves. Foi, no fundo, um folclórico.

Quando nos julgávamos livres de xarás assim incômodos, eis que a Operação Navalha vai desencantar outro xará, este também autor de um papelão, na mesma linha daquele que afanou as esmolas da igreja. Enquanto aquele se revelou um ladrãozinho pouco ambicioso, contentando-se com pouco, este último parece um ladravaz de grande coturno, desses que buscam grossas propinas à custa do erário em benefício de empreiteiros sem escrúpulos. Ainda não consegui examinar bem a aparência desse xará de pouca vergonha, mas espero, com sinceridade, que ele vá parar quanto antes nos confins do xilindró, depois de levar umas boas cacetadas da polícia e que, por favor, não fique a bradar por aí:

“Meu nome é Enéas!”

A brincadeira cansou.

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