Ao refletir sobre “os abandonados”, não me refiro à série de faroeste de Kurt Sutter. Os abandonados que me habitam povoam a mente, as ruas, as casas, as escolas e até as festas, são tantos que, dependendo da perspectiva, eu ou você poderíamos nos incluir na lista. Tudo depende de como decidimos encarar o entorno. Afinal, ver é diferente de apenas olhar: ver exige o exercício da percepção. Uma ação que parece simples, mas que se tornou rara em um mundo apressado, onde estamos excessivamente ocupados ou distraídos — às vezes, tentando desesperadamente nos distrair para sobreviver ao próprio sistema gerador abandonos.
Nesta busca por “ver-perceber”, quero dar visibilidade às crianças pequenas, historicamente invisíveis. Recentemente, durante as férias — período propício para notar as ausências —, confrontei-me com duas imagens de abandono que se recusam a sair da memória.
A primeira cena ocorreu por volta das oito horas da noite, no centro da cidade. Um menino negro, de cinco ou seis anos, carregava uma pilha de panos de prato. Ele circulava pelos decks dos restaurantes, oferecendo sua mercadoria com uma desenvoltura comunicativa que logo sensibilizava os passantes.
Olhei ao redor, buscando o adulto responsável. Não demorou para que eu visse uma jovem caminhando à distância, de mochila, vestido xadrez e cabelos presos.
Aproximei-me e, discretamente, perguntei se era a mãe do menino. Tentei alertá-la de que ele não deveria estar trabalhando, que era apenas uma criança, e que eu estava disposta a ajudar. Minha intervenção não teve efeito. Fui ignorada como se fosse invisível, e a vi, minutos depois, conversando com o menino como se o trabalho infantil fosse apenas o cenário natural de suas vidas.
Segui meu destino e entrei em um restaurante mais calmo. Logo depois, chegaram três casais em dois carros de luxo, acompanhados por um menino e uma menina. As crianças tinham idades semelhantes ao garoto dos panos de prato, mas o figurino era outro: roupas de marca, tablets nas mãos e grandes fones de ouvido. Enquanto os adultos se acomodavam em uma mesa externa para tomar vinho e rir, as crianças foram instaladas sozinhas em um sofá interno.
A primeira interação delas foi pedir a senha do Wi-Fi; a segunda, devorar batatas fritas e refrigerantes. O silêncio das telas substituiu qualquer conversa. Ali, a presença e a vigilância dos pais foram terceirizadas para o brilho dos monitores.
Essas duas cenas, embora banais na nossa cotidianidade, provocam feridas: quem são, de fato, os abandonados? É possível comparar os abandonos dessas duas realidades?
Uma criança é abandonada à própria sorte na calçada para garantir o sustento; as outras são abandonadas em ilhas digitais para garantir o lazer dos adultos.
Ambas sofrem o peso da invisibilidade.
Como militante da causa da infância, entendo que qualquer abandono — físico, psicológico ou intelectual — é um prejuízo incalculável. Mas o diagnóstico vai além das paredes de cada casa: ele aponta para uma falha na nossa responsabilidade coletiva.
Cuidar de uma criança não deveria ser uma tarefa isolada de cada família, mas um compromisso de toda a sociedade. Precisamos nutrir uma postura mais solidária, humana e acolhedora, onde o bem-estar de qualquer criança seja uma preocupação de todos nós — seja a que vende panos ou a que se cala diante de um celular ou de um tablet.
Que infâncias estamos gestando quando nos tornamos cúmplices desses silêncios?
É urgente que estranhemos o que parece comum. Resgatar a rede de proteção infantil é, em essência, validar a imagem de uma criança rica em recursos e curiosidade. Afastar-se das ‘liberdades sem limites’ e das ‘responsabilidades inconcebíveis’ é devolver à infância o direito ao tempo e ao espaço de ser criança.
Na perspectiva de Malaguzzi, a criança precisa de uma comunidade de aprendizagem que nutra sua vitalidade através da interatividade, da estética e, sobretudo, de uma presença que valide sua existência como um organismo vivo e vibrante.
Se não formos capazes de oferecer presença, proteção e uma rede de cuidado real, continuaremos a gestar infâncias solitárias sob o pretexto da liberdade ou da necessidade. E, ao final do dia, quando as luzes da cidade se apagarem, perceberemos que não estamos apenas observando os outros; seremos nós, coletivamente, os verdadeiros abandonados de nossa própria humanidade.

