Um dos mais importantes artistas atuais, o pintor e escultor, Anselm Kiefer, nasceu na Alemanha sob os escombros da guerra, em 1945, o que moldou sua visão artística. Sua arte tem profundidade e significado. No início, anos 70, buscou a memória e passado nazista para confrontar e chocar a sociedade alemã que tentava negar e esquecer.
A fama aconteceu nos anos 80, pioneiro do neoexpressionismo. Anselm trabalha com grandes obras, usando muitos materiais, principalmente chumbo e palha, aos quais dá uma conotação espiritual – o chumbo simboliza o homem no seu estágio imperfeito, mas que traz em si potencial para transmutar em algo luminoso, “o espírito está escondido dentro da própria matéria”.
Kiefer tem seu estúdio como um laboratório sagrado. Estudioso de Cabala e alquimia. Enquanto trabalha recita poesia como prece. Conecta o microcosmo ao macro. Acredita que é do caos e das cinzas que a verdadeira luz espiritual renasce.
Criou os “Sete Palácios Celestiais”, de origem nos livros sagrados hebraicos, que narra o caminho simbólico da iniciação espiritual. Foram criados para a inauguração do espaço de arte, Pirelli Hangar Bicicca, em Milão, em 2004. São 7 torres de concreto e chumbo, de 13 a 19 m de altura, e 90 ton, em exposição permanente e gratuita.
Kiefer é uma personalidade complexa altamente espiritualizada, mas, não está ligado a nenhuma religião, embora tenha interesse no misticismo judeu – a Cabala. Entende sua arte como um processo alquímico de transformação espiritual e material, e na conexão cósmica com os elementos da terra: chumbo (pilar central de sua filosofia), cinzas e palha.
Neste ano, 2026, Kiefer está com uma exposição grandiosa – As Alquimistas, no Palazzo Reale, em Milão. São 42 telas enormes criadas para dialogarem com o espaço do palácio, bombardeado na guerra. A intenção é homenagear as mulheres, antigas sábias e esquecidas que viveram da idade Média ao século XVIII, e foram apagadas do conhecimento moderno. Celebra figuras históricas e mitológicas: 1. Curandeiras e parteiras – as “Bruxas”; 2. Cientistas antes do tempo; 3. Figuras históricas resgatadas do esquecimento, em um ato de justiça à inteligência feminina. (Caterina Sforza, Isabella Cortese, Maria, a Judia e outras).
Emocionante saber do trabalho de Kiefer, de seu amor e valorização das mulheres, da sua sensibilidade para trazer, desde o século I, (a profetisa Maria); depois as mulheres que foram para a fogueira simplesmente porque detinham conhecimento que não estava disponível para os homens de má vontade; e as modernas deixadas ao ostracismo pela misoginia reinante desde sempre.
