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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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A CIDADE SUBMERSA DE RUNGHOLT

Algumas lendas medievais afirmam que é possível escutar o som de sinos nas profundezas do Mar do Norte, no litoral da atual Alemanha. Segundo um conto de 1362, existiu uma rica e próspera cidade chamada Rungholt, que se destacou pelo comércio, elevando o padrão de todos seus moradores. Mas com a riqueza veio os pecados, e Rungholt padeceu em ostentação, mentira, falta de piedade, embriaguez, prostituição e luxúria. A imoralidade social atingiu seu ápice no dia de Natal, quando um grupo de adolescentes bêbados obrigou um padre a ministrar o sacramento a um porco.

Cansado e sem esperanças, o padre orou com todas suas forças a Deus, pedindo uma punição exemplar a todos daquela cidade, pois acreditava que somente assim teriam suas almas salvas. Em seguida, ao amanhecer, pegou suas coisas e foi embora da cidade. Na noite do mesmo dia, uma tempestade de proporções bíblicas atingiu Rungholt, afundando suas ruas e edifícios, apagando-a definitivamente do mapa.

Agora, um grupo de arqueólogos das Universidades alemãs de Christian-Albrecht (Kiel) e Johannes Gutenberg (Mainz), descobriu nas proximidades da ilha de Sudfall (Mar de Wadden, Frísia do Norte, Alemanha), com a ajuda de um levantamento geofísico que a detectou abaixo dos bancos de areia e lama, vestígios de uma antiga cidade medieval que se estende por cerca de 2 quilômetros. Já foram identificados a existência de um eficiente sistema de drenagem, uma igreja, e a estrutura de um porto e de seus galpões, demonstrando a aplicação de uma engenharia avançada para a época. Acredita-se que os vestígios possam desvendar muitos mistérios sobre a sociedade medieval e suas relações comerciais com outros povos. Rungholt é chamada popularmente entre os alemães de “Atlântida alemã”. Das escavações já foram recuperados diversos objetos em cerâmica, ornamentos em metal e algumas armas.

Contudo, a região impõe um desafio aos arqueólogos, uma vez que a zona alagadiça desgasta aceleradamente os objetos e estruturas da antiga cidade. Muitos assentamentos já erodidos, só puderam ser descobertos graças à impressão negativa deixada no solo e sedimentos. Segundo Bente Sven Majchczack (Universidade de Christian-Albrecht, Kiel), pelas dimensões da igreja, ela devia funcionar como uma paróquia superior; e sua importância foi firmada pela descoberta em seu entorno, de um sistema de barragem com a função de impedir o avanço do mar. As escavações são realizadas por prospecção magnética que detecta o formato da estrutura abaixo dos bancos de areia. Em seguida, os arqueólogos abrem “janelas” quadradas no solo, como um poço, cavando naqueles pontos que julgam ser mais promissores. Conforme avançam, objetos e estruturas vão surgindo.

Historiadores confirmam os relatos medievais de uma tempestade de enormes proporções em meados do século XIV, que atingiu o litoral das atuais Holanda, Dinamarca, Reino Unido e Alemanha, no Mar do Norte, que foi registrada na época como “o grande afogamento dos homens”. A mítica cidade de Rungholt teria sido uma das mais atingidas pela tormenta. O estudo das poucas peças recuperadas mostra que havia ali uma sociedade altamente sofisticada, com vida luxuosa e com frequência de itens importados, uma vez que os objetos eram provenientes da Bélgica e Espanha. 

Já não existem mais dúvidas que Rungholt saiu da esfera da lenda e renasceu como cidade real e palpável. Agora somente as escavações nos dirão de fato, o quão grandiosa foi, no passado, a Atlântida Alemã descrita nas lendas medievais.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui)
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