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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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A REPÚBLICA PIRATA DE NASSAU

Alguns acontecimentos da história são tão singulares e inacreditáveis, que custamos a crer que de fato aconteceram. Não fossem os documentos históricos a confirmá-los, diríamos se tratar de algum romance perdido em séculos passados. Esse é o caso da “Gangue Voadora” dos piratas de Nassau (Bahamas) e de sua “República Democrática” que durou apenas 12 anos.

Tudo começou com a Guerra da Sucessão Espanhola, que contrapôs dois blocos de países formados por Espanha e França de um lado; e por Inglaterra, Áustria, Portugal, Dinamarca e Holanda de outro. O motivo da briga era a sucessão ao trono espanhol, que caíra nas mãos da Dinastia francesa dos Bourbons. Com isso, as terras espanholas – incluindo a América – passavam ao controle dos franceses, o que não era do interesse do bloco oposto. Esse conflito durou de 1701 a 1714.

Durante esse período, não havia desemprego. Todos os homens e marinheiros disponíveis foram convocados e tornaram-se corsários. Por outro lado, os países envolvidos gastaram fortunas enormes para sustentar a guerra; e quando os tratados de paz começaram a surgir (Tratado de Utrecht), milhares e milhares de combatentes foram dispensados de suas funções. Da noite para o dia, uma horda de desempregados surgiu, sem saber que rumo tomar na vida. Mas um grupo de ingleses, que estavam em Port Royal (Jamaica), decidiu por uma cartada fora da lei, tão original e arriscada, que entraria para a história como uma das mais inusitadas “repúblicas” democráticas fundadas no mundo. Embora de breve duração, suas consequências plantaram o primeiro sopro de democracia nas Américas, que tempos depois iria germinar na independência dos EUA.

Tudo começou com a proposta de um experiente corsário chamado Benjamin Hornigold. Ele era um líder nato, respeitado por muitos marinheiros. Um homem reflexivo e impetuoso. Sua proposta era a de ignorar o fim da guerra e ocupar uma das ilhas do Caribe, onde fundariam uma vila e de lá passariam a atacar navios de outras nações, em especial os pertencentes a Frota de Ouro dos espanhóis, que carregavam as riquezas da América para Europa. O local escolhido foi Nassau, em uma enseada chamada New Providence. Esse porto possuía um pequeno forte inglês e uma minúscula vila que havia sido duramente atacada pelos espanhóis em 1703 e 1706. Ocupá-la não foi problema.

Entre os ex-corsários (agora piratas) que concordaram com a empreitada, estavam nomes como Samuel Bellamy, Stede Bonnet, Edward Teach (Barba Negra) e Paulgrave Williams, que mais tarde escreveriam um dos mais famosos capítulos da pirataria marítima na chamada “Era de Ouro da Pirataria” caribenha. E logo se uniram a eles outros piratas famosos como Anne Bony, Mary Read, Charles Vane, Calico Jack Rackham e Henry Jennings, outro corsário tão experiente quanto Hornigold, que viria também a tornar-se um líder natural entre os piratas. Juntos, compunham a Gangue Voadora, um grupo de foras da lei que atacavam os navios de comércio da região, desestruturando rotas estabelecidas e abalando o lucro de poderosos escravagistas ingleses na América.

A recém formada república dos piratas não possuía governo. Não existia cadeia, prefeitura nem qualquer prédio público. Benjamin Hornigold propôs uma carta de leis democráticas – aceitas por todos –, onde cada pirata tinha direito a 1 voto. Tudo seria decidido em assembleias formadas conforme a necessidade, inclusive depondo capitães de navios. O próprio Hornigold foi deposto desta forma como capitão, por recusar-se a atacar navios ingleses. 

A república pirata prosperou de 1706 a 1718, inclusive por um incrível golpe de sorte! Logo após seu estabelecimento, uma das mais ricas frotas de tesouros espanhóis – composto por 15 navios abarrotados de tesouros – naufragou ao largo da Flórida (EUA) por causa de uma violenta tempestade que a atingiu. Os navios foram espedaçados e o tesouro ficou espalhado por toda a região. Os piratas de Nassau imediatamente se mobilizaram e chegaram ao local antes dos espanhóis, recuperando uma grande quantidade de ouro. A notícia se espalhou e milhares de marinheiros desempregados rumaram para a “nova república” para se unirem ao (agora ricos) grupo de piratas. 

Mas após alguns anos de ataques espetaculares ao longo de todo Caribe, as autoridades inglesas finalmente arquitetaram um plano para pôr fim a New Providence. A ação incluía enviar Woodes Roger, um autoritário e experiente corsário inglês, como novo Governador de Bahamas. Perspicaz que era, Roger não atacou os piratas; mas com autoridade, ofereceu um Perdão Real a todos que abandonassem a pirataria. O Rei, inclusive, autorizava aos que aceitassem seu perdão, ficarem com todo o saque que haviam realizado até então. Quem não aceitasse, seria caçado e julgado (enforcado) como pirata.

Entre os que aceitaram o Perdão Real, estavam os líderes Benjamin Hornigold e Henry Jenning, que foram acompanhados por muitos outros piratas. Com sua força reduzida, alguns lançaram-se aos mares ignorando a imposição Real e tornaram-se alguns dos piratas mais temidos – embora de curta vida – como Charles Vane, Barba Negra e Samuel Bellamy. E desta forma, com a pressão da política inglesa, chegava ao fim a inusitada República dos Piratas do Caribe.

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui).
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