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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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O KRAKEN

Em 1752, Erik Pontoppidan – teólogo e ornitólogo dinamarquês – publicou uma de suas obras intitulada História Natural da Noruega. Nela, ele descreve com assombro e temor, sobre a prova física do que seria uma temível criatura marítima, motivo de terror dos marinheiros, conhecida como Kraken: uma lula (ou polvo) gigantesco e monstruoso, possuidor de 100 tentáculos, habitante das profundas águas geladas do Mar da Noruega. Ao observar um enorme tentáculo que jazia em uma praia deserta – provavelmente de uma lula gigante – Pontoppidan escreveu: ”…ao que parece estes são os braços da criatura; diga-se de passagem, se forem, prenderia o maior dos navios de guerra e o arrastaria até o fundo..”

Os marinheiros da Antiguidade e da Idade Média temiam nunca mais retornar quando saiam ao mar, distantes do litoral. Já neste período, difundiam-se histórias de monstros marinhos, cachoeiras do fim do mundo, redemoinhos gigantes e todo tipo de perigo que ameaçavam a vida dos marinheiros em seus frágeis navios rumo a terras desconhecidas. Mas nos séculos XVI ao XIX muitas dessas histórias começaram a ser registradas e ampliadas pela literatura de ficção. Contudo, esse registro pareceu ter um efeito contrário ao da ciência, ao ampliar o medo do desconhecido, o temor de que navios inteiros pudessem ser arrastados para as profundezas do mar.

Segundo a mitologia grega, Poseidon, o Senhor dos Mares, havia cometido um erro ao criar uma lula gigante de proporções incontroláveis. Arrependido, relegou-a às profundezas do mar, isolando-a dos seres da superfície. Mas os navios criados pelos homens, de grandes cascos, acabaram perturbando o isolamento do monstro, e por vezes ele subia das profundezas, magoado e irritado por haver sido rejeitado por seu criador, descontando toda sua raiva em quem estivesse ao seu alcance. Ao atacar as embarcações, o Kraken (ou Lula Gigante) usava seus múltiplos tentáculos e ventosas para estraçalhar navios, ou criava redemoinhos catastróficos que os engoliam.

As lulas gigantes (Architeuthis) e lulas colossais (Mesonychoteuthis Hamiltoni) – de fato existem, e podem alcançar respectivamente 13 e 22 metros de comprimento. São os maiores invertebrados do planeta e habitam as profundezas do Oceano Antártico, em especial, além de outras partes do mundo. Lutas épicas entre Cachalotes e Lulas Gigantes já foram presenciadas por marinheiros, e tanto pedaços de lulas foram encontrados no estômago das cachalotes, quanto profundas cicatrizes e ferimentos – causados pelos ganchos das lulas – nos corpos dessas baleias. Alguns desses animais gigantescos foram encontrados e registrados no litoral do Canadá (Terra Nova, 1872 e 1878), Nova Zelândia (1887 e 2007), Irlanda (1875) e Espanha (1964). Em 2007, na Nova Zelândia, uma lula colossal foi capturada por pescadores. Ela tinha 14 metros de comprimento e quase meia tonelada de peso, e foi amplamente divulgada na época pelos canais de comunicação. Desta forma, podemos sugerir que o medo dos antigos marinheiros tinha de fato, algum fundamento real, embora acrescido de uma boa dose de imaginação.

A mitologia em torno do Kraken, ultrapassou os limites dos mares nórdicos e pode ser visto ainda hoje em diversas produções literárias e cinematográficas, que exploram o imaginário que temos deste monstro marinho. Na literatura, ele é várias vezes citado pelo Capitão Nemo – personagem de Vinte Mil Léguas Submarinas (1871) – do escritor Júlio Verne. Também na saga de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo (1991-2011)  – adaptado para TV como Game of Thrones – do escritor George R. R. Martin, o Kraken é o símbolo do brasão da Casa Greyjoy. No cinema, ele aparece nas duas versões do filme Fúria de Titãs (1981 e 2010), na forma de um monstro (não de uma lula), quando é derrotado por Perseu, que o transforma em pedra ao expô-lo à cabeça da górgona Medusa; e também em Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006), onde a morte do monstro simboliza o fim de uma era onde a lenda e a mitologia perdem espaço para a razão e a ciência. 

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (clique aqui) 
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