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Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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O TESOURO DO SAN JOSÉ

A profundeza dos oceanos é um repositório interminável de tesouros perdidos. Desde o início da navegação comercial na antiguidade, milhares de barcos pereceram por causa de tempestades, ataques piratas, erros de navegação ou falhas técnicas. São milhares e milhares de navios que transportavam riquezas incalculáveis, formadas por especiarias, cerâmicas, ouro, prata, joias preciosas, moedas, marfim e todo tipo de artefato que hoje extrapola seu valor monetário, como guardiões de um passado distante.

Entre todos esses navios, o San José é, certamente, um dos mais cobiçados. Em junho de 1708, o San José encontrava-se em missão nas Américas, com a incumbência de levar as riquezas de nosso continente para financiar a Guerra de Sucessão Espanhola (1702-1714) e os interesses do rei Carlos II (1665-1700) que, por não possuir herdeiros, nomeou ainda em vida seu sobrinho neto o francês Filipe de Bourbon (Duque de Anjou) como seu sucessor. Desta forma, Espanha e França aproximavam-se definitivamente para o controle de um império gigantesco que incluía a exploração e saque dos tesouros americanos. Naturalmente que tanto poder incomodou as demais linhagens europeias, levando-as a criar a chamada Grande Aliança entre Inglaterra, Áustria, Holanda, Dinamarca, Suécia e os principados da Alemanha. 

Durante este conflito, o galeão San José encontrava-se saindo do porto de Cartagena (Colômbia) com seu porão entupido de riquezas americanas, porcelanas, moedas, pedras preciosas, ouro e prata, além de um carga não registrada de contrabando que pertencia a diversos nobres europeus que, assim, mantinham sua fortuna e status. As informações são confusas, mas sabemos que na saída para o mar, nas proximidades das Ilhas Rosário, o San José foi emboscado por naus de guerra inglesas, que o atacaram, levando-o ao fundo do mar em poucos minutos.

Desde então, os destroços do navio tornaram-se objeto de desejo de piratas e caçadores de tesouro, mas devido a sua profundidade e dificuldade quanto a uma localização precisa, os destroços permaneceram por mais de 300 anos intocados. Seu valor monetário hoje é praticamente incalculável. Estimado em bilhões de dólares, ele representa sozinho, o PIB de muitos países mundo afora.

Contudo, em 2015 uma equipe de pesquisadores americanos em parceria com a Força Naval Colombiana anunciou que haviam descoberto as coordenadas do naufrágio, dando início a uma disputa internacional. Para evitar saques inoportunos, a localização exata do naufrágio foi mantida em segredo; e o é até os dias atuais. A Espanha imediatamente reivindicou a posse do galeão, alegando que ele é um navio estatal. Por sua vez, o governo colombiano entende que o naufrágio lhe pertence, por estar localizado em suas águas territoriais. A empresa norte-americana Sea Search Armada também alega que metade do naufrágio lhe pertence, por afirmar que o descobriu antes do governo colombiano. Eles exigem legalmente uma indenização de U$ 10 milhões pela descoberta. Por sua vez, o povo Qhara Qhara da Bolívia alega que parte das riquezas lhes pertencem, em especial a prata, que lhes foi roubada pelos espanhóis das minas de Potosí mediante métodos opressivos.

Agora, o governo colombiano anuncia uma nova expedição – não intrusiva – para os próximos meses com o objetivo de prospectar os destroços. O objetivo não será resgatar o tesouro neste momento, mas sim retirar algumas peças variadas – moedas, talheres, cerâmica chinesa, instrumentos, canhões, fragmentos de madeira – para verificação de como eles se comportam fora das profundezes. Muitos desses objetos, que estão à mostra ao lado do naufrágio ao simples alcance dos mergulhadores, podem simplesmente se desmanchar ao chegar à superfície. Os artefatos encontram-se a 600 metros de profundidade e a pressão que sofreram por 300 anos pode alterar sua composição. Desta forma, os pesquisadores pretendem estudar estas amostras recuperadas visando a construção de um futuro museu que abrigaria as peças resgatadas do San José. Para a operação, será utilizado um robô submarino operado remotamente.

O governo colombiano parece determinado a afastar as iniciativas privadas dos destroços do San José, uma vez que esta operação de reconhecimento terá o envolvimento apenas de instituições públicas, como o Instituto Colombiano de Antropologia e História (ICAH), a Marinha Nacional, o Ministério da Cultura e a Direção Marítima Internacional.

Contudo, Alhena Caicedo – diretora do ICAH – entende que, embora pertença à Colômbia, a exploração do San José deve ser vista sob a perspectiva de uma dimensão simbólica, pois sua história “deve ser partilhada especificamente com a Espanha, a Bolívia e as pessoas que representaram o antigo Novo Reino de Granada. Todos estão convidados a participar”. 

Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero) 

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