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19.6 C
Balneário Camboriú
Dalton Delfini Maziero
Dalton Delfini Maziero
Historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador das culturas pré-colombianas e história da pirataria marítima.
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OS BARCOS DE LUXÚRIA DE CALÍGULA

O lago Nemi (Itália) está localizado há apenas 30 km ao sul de Roma. É um pequeno lago de origem vulcânica, com uma superfície de pouco mais de 1,6 km², com profundidade máxima de 33 metros. No século XV, surgem relatos de pescadores que haviam encontrado curiosos artefatos em suas redes de pesca. Alguns conseguiram, com a ajuda de cordas e ganchos, recuperar estranhos pedaços de madeira, que vendiam aos viajantes estrangeiros. Já naquela época estava claro que no fundo do lago existia alguma construção antiga em madeira. Especulava-se se os artefatos pertenciam a um templo submerso ou um naufrágio. Um naufrágio em um pequeno lago vulcânico

Em 1446, o arquiteto e poeta Leon Battista Alberti, investigou o caso. Havia na época um profundo interesse em colecionar objetos clássicos que, acreditavam, existiam no fundo do lago. Para o resgate, Alberti contratou mergulhadores genoveses, que amarraram cordas com ganchos na estrutura de madeira, tentando erguê-la para a superfície com a ajuda de guindastes construídos em plataformas flutuantes. Contudo, o peso da estrutura foi mal avaliado, e tudo o que conseguiram foi arrancar alguns pedaços do barco. Essa seria a primeira de uma série de depredações impingidas ao misterioso naufrágio.

Em 1535, Francesco De Marchi e Guglielmo de Lorena realizam o que pode ser considerada a primeira investigação arqueológica subaquática da história. Guglielmo havia inventado um Sino de Mergulho com um sistema de respiração. A parceria entre De Marchi e Lorena, incluiu uma cláusula de sigilo no que se refere a descrição pública desse sistema de respiro subaquático, que foi uma grande inovação técnica. Assim, conseguiram trazer à superfície uma grande quantidade de artefatos. Mais que isso, fizeram um minucioso relato do que observaram, inclusive das dimensões do casco (70 x 20 m) e sua profundidade. Na matéria da revista Architettura Militare, Francesco descreve as condições de mergulho e detalhes do sino criado por Guglielmo. Entre os artefatos recuperados, estavam peças de bronze, cobre, chumbo, mármore e vigas de madeira. Tudo foi vendido aos estrangeiros como curiosidade local; e os pedaços de madeira, transformados em caixas, bengalas e outros itens, sendo tudo igualmente vendido.

O interesse pelo lago Nemi voltou apenas em 1895. O mergulhador Eliseo Borghi resgatou peças que confirmavam a existência, não de um templo, mas de dois enormes navios. O primeiro deles com a popa a 7 metros e a proa a 14 metros de profundidade. O segundo navio encontrava-se a 19 metros. Ele trouxe à tona dois lemes de diferentes aspectos e algumas cabeças em bronze com a representação de animais. Borghi organizou, assim, um museu particular, tentando em seguida vender a coleção ao governo italiano. A ação provocou exigências legais pela devolução das peças e a imposição de relatórios – que não existiam – documentando a descoberta. Borghi foi acusado por depredar os navios e as peças recuperadas desapareceram nos anos que se seguiram.

Em 1928, o ditador Benito Mussolini buscava criar símbolos nacionais, e achou que os barcos serviriam para esse propósito. Assim, mandou drenar o lago até os naufrágios aparecerem. Passados cinco meses, o nível da água havia baixado 5 metros, revelando partes de um dos navios. Em 1931, o primeiro deles foi recuperado e o segundo já era visível em quase sua totalidade. Contudo, com o nível do lago 20 metros abaixo de seu leito original, um estrato de lama irrompeu da margem, prejudicando o resgate da segunda nave, que já se encontrava parcialmente seca pelo sol. Com a interrupção dos trabalhos, o nível do lago voltou a subir, submergindo pela segunda vez os destroços do navio. O processo causou danos irreparáveis à madeira já seca. Com a retomada do projeto em 1932, o lago foi finalmente drenado e o segundo barco recuperado, fazendo parte permanente de um museu local inaugurado em janeiro de 1936. 

A essa altura dos acontecimentos, a história dos barcos já era conhecida. Eles foram construídos pelo Imperador romano Calígula, para saciar seus luxos e luxúrias, pois funcionavam não exatamente para navegar, mas como palcos flutuantes de festas e orgias extravagantes. Eram repletos de mosaicos, estátuas, banhos termais, galerias de arte e adornos dignos de uma residência imperial. Ambos eram movidos a remos. As naus foram submersas de forma proposital, em 41 d.C., após o assassinato do imperador, como parte das ações do Senado Romano em apagar os feitos desmedidos de Calígula.

Infelizmente, os navios não chegaram aos tempos atuais. Foram destruídos em 1944, durante a II Guerra Mundial. Desde então surgiram acusações entre EUA e Alemanha, sobre a responsabilidade do desastre. As tropas alemãs estavam acampadas próximas ao museu naval. Segundo relatos, os americanos bombardearam parcialmente a região. Algumas horas após o bombardeio, um incêndio tomou conta dos caibros e vigas recuperados dos naufrágios. Posteriormente, surgiu uma versão na qual o fogo havia sido ateado pelos próprios soldados alemães. As poucas peças que sobraram, juntamente com novas réplicas dos navios em escala, foram organizadas para uma reinauguração do museu em 1953, onde se encontram até hoje. 
Dalton Delfini Maziero é historiador, escritor, especialista em arqueologia e explorador. Pesquisador dos povos pré-colombianos e história da pirataria marítima. Visite a Página do Escritor (https://clubedeautores.com.br/livros/autores/dalton-delfini-maziero)

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