Empresa em nome de servente de pedreiro recebeu R$ 7,6 milhões de fintech investigada

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma empresa registrada em nome de um servente de pedreiro recebeu ao menos R$ 7,6 milhões num período de seis anos em meio a um esquema que, de acordo com promotores do Ministério Público de São Paulo, serviu para lavar dinheiro do crime.

O valor foi rastreado com base em Relatórios de Informação Financeira computados pela Operação Hydra, deflagrada nesta terça-feira (25) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e pela Polícia Federal.

A empresa em questão chamava-se Crédito Urbano, e foi encerrada em janeiro de 2023. Ela chamou a atenção dos investigadores não só pela incompatibilidade entre a movimentação financeira milionária e a profissão de seu proprietário, mas principalmente pela suas conexões com a fintech Invbank.

Fundada há 12 anos, a Invbank foi citada na delação premiada de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, homem jurado de morte pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). O delator disse que a fintech servia de instrumento para lavagem de dinheiro de integrantes da facção criminosa.

A empresa não respondeu o contato da Folha com pedido de posicionamento. A reportagem não localizou a defesa dos suspeitos.

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Formalmente, a Crédito Urbano tinha como sócio-administrador o servente de pedreiro Josenilton Urbano dos Santos. O endereço registrado como residência do dono da empresa com movimentações milionárias é uma construção precária -com tijolos expostos, sem reboco nas paredes–, segundo o documento apresentado pelos promotores à Justiça.

A investigação também apontou que Carlos Alexandre Ballotin, proprietário e fundador da Invbank, é advogado de Josenilton. O servente de pedreiro responde a uma acusação de estelionato, num processo em que Ballotin aparece como seu defensor.

Esse é um dos indícios de que a empresa Crédito Urbano na verdade é controlada pelos donos da fintech -e Josenilton, laranja-, argumenta o Gaeco. A Crédito Urbano recebeu mais de R$ 600 mil diretamente dos sócios da Invbank.

A todo, a firma em nome do servente de pedreiro movimentou mais de R$ 16 milhões num período de seis anos. Desse montante, recebeu R$ 7,6 milhões. A maior parte das movimentações ocorreu em 2020 e 2021.

A Invbank foi usada por Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, para lavar dinheiro, segundo a investigação. Cara Preta enviou um total de R$ 11 milhões à Invbank.

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Cara Preta é apontado como liderança do PCC em várias investigações, e as transações financeiras, segundo promotores, tinham como objetivo ocultar a origem ilegal do dinheiro proveniente do tráfico de drogas.

Ele foi morto a tiros em 2021, e Gritzbach era suspeito de ser o mandante do crime, o que ele negava.

Na delação, Gritzbach afirmou que a Invbank foi constituída “com o propósito específico de realizar contratos com construtoras e esquentar dinheiro [ilegal]”. Ele dizia que Cara Preta era sócio oculto da fintech.

O delator apresentou contratos da Invbank com promessas de compras de imóveis e também um documento que mostra a conexão do chefe do PCC com a empresa. O documento é um “Instrumento Particular de Constituição de Sociedade”, em que a Invbank aparece como Sócia Ostensiva e uma empresa de propriedade de Cara Preta, a Becheli Administração de Bens Próprios Ltda., é a sócia participante.

As duas empresas tornaram-se sócias de uma Sociedade de Propósito Específico -a Invbank aportou R$ 10 milhões e a empresa de Cara Preta, R$ 3,5 milhões- para a compra de imóveis em um condomínio na rua Apeninos, no Paraíso, região central de São Paulo. O instrumento serviu como forma de ocultar o nome -e a origem do dinheiro- do traficante no investimento.

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