Da pichação ao breaking: publicação de Luciano Hang reacende debate sobre a Cultura Hip Hop e mobiliza escolas e professores de danças urbanas em SC

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Por Sam Carvalho

Quando vi a publicação de Luciano Hang sobre a Escola Nacional de Hip Hop, minha primeira reação não foi política. Foi cultural.

Atuo há mais de duas décadas nas danças urbanas, como dançarino, professor, coreógrafo, produtor cultural e arte-educador. 

Ao longo desses anos, acompanhei crianças descobrindo sua autoestima por meio da dança, jovens encontrando um propósito de vida dentro de projetos sociais e profissionais construindo carreiras que levaram o nome de Santa Catarina para o Brasil e para o mundo.

Foi por isso que a publicação chamou minha atenção.

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Antes de falar sobre a Escola Nacional de Hip Hop, Luciano Hang já vinha utilizando suas redes sociais para defender o combate à pichação. Esse debate é legítimo. 

A legislação brasileira diferencia claramente a pichação do grafite autorizado, e combater atos de vandalismo é uma atribuição prevista em lei.

O problema, na minha visão, surgiu quando essa discussão deixou de tratar exclusivamente da pichação e passou a utilizar a imagem de um praticante de breaking para representar uma crítica ao Hip Hop.

Foi nesse momento que muitos profissionais da cultura se sentiram atingidos.

Não porque defendam a pichação.

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Mas porque entenderam que uma manifestação cultural inteira estava sendo resumida a um estereótipo.

E é justamente aí que acredito que precisamos conversar.

O que é, afinal, a Cultura Hip Hop?

Willian Rocha, o Breakinho (Divulgação)

Percebi, ao acompanhar a repercussão, que muitas pessoas estavam debatendo o Hip Hop sem, necessariamente, conhecer sua história.

O Hip Hop nasceu na década de 1970, no Bronx, em Nova York, nos Estados Unidos. Surgiu em um contexto de desigualdade social, violência e falta de oportunidades, onde jovens encontraram na arte uma forma de expressão, pertencimento e transformação.

Tradicionalmente, a Cultura Hip Hop é formada por quatro elementos: o breaking, que representa a dança; o MC, por meio da rima e do rap; o DJ, responsável pela pesquisa e criação musical; e o grafite, como expressão artística visual.

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É importante fazer um esclarecimento: a pichação não é um dos elementos da Cultura Hip Hop.

Essa diferença pode parecer pequena para quem está de fora, mas faz toda a diferença para quem dedica a vida a essa cultura.

A legislação brasileira também faz essa distinção. 

A pichação sem autorização possui tratamento jurídico específico. Já o grafite autorizado é reconhecido como manifestação artística quando realizado com autorização do proprietário ou do poder público.

Por isso, acredito que misturar esses conceitos acaba criando uma imagem distorcida de um movimento cultural que, há mais de cinquenta anos, promove educação, arte, empreendedorismo e transformação social.

Foi justamente essa mistura que despertou a preocupação de tantos profissionais das danças urbanas em Santa Catarina.

Muito além da dança

Divulgação

Quando muitas pessoas ouvem falar em Hip Hop, imaginam apenas música ou dança.

Mas o Hip Hop é muito maior do que isso.

Ele está presente em escolas públicas e particulares, projetos sociais, universidades, centros culturais, festivais internacionais e políticas públicas voltadas à juventude.

O próprio breaking, um dos elementos da Cultura Hip Hop, alcançou um reconhecimento histórico ao integrar o programa dos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Isso demonstra que estamos falando de uma manifestação cultural que conquistou reconhecimento mundial sem perder sua essência de inclusão e transformação.

Talvez por isso eu tenha estranhado tanto ver justamente um praticante de breaking sendo utilizado para ilustrar uma crítica ao Hip Hop.

Não porque a imagem, por si só, seja ofensiva.

Mas porque ela acaba representando milhares de professores, coreógrafos, bailarinos e educadores que dedicam suas vidas a ensinar crianças, adolescentes e adultos por meio da dança.

Foi essa leitura que ouvi de diversos profissionais após a publicação.

E acredito que ela merece ser considerada.

SC construiu uma potência nas danças urbanas

Kaiorra no Hip Hop International em Phenix (Divulgação)

Quem acompanha apenas grandes competições talvez não imagine a dimensão que as danças urbanas alcançaram em Santa Catarina.

Ao longo das últimas décadas, nosso estado se consolidou como um dos principais polos da modalidade no Brasil. Não por acaso, bailarinos, professores, coreógrafos e grupos catarinenses passaram a ocupar espaços de destaque em festivais nacionais, competições internacionais, programas de televisão e projetos de formação artística.

Parte dessa história passa pelo Festival Internacional de Hip Hop (FIH2), realizado em Curitiba, um dos mais importantes eventos de danças urbanas da América Latina. 

Outra parte passa pelo Festival de Dança de Joinville, reconhecido mundialmente e responsável por abrir espaço para que diferentes estilos das danças urbanas conquistassem visibilidade diante do grande público.

No cenário internacional, diversos grupos catarinenses representaram o Brasil no Hip Hop International (HHI), considerado o principal campeonato mundial da modalidade, realizado anualmente em Phoenix, nos Estados Unidos.

Entre eles estão a Millennium Cia. de Dança, de Joinville; a Kulture e Kaos, também de Joinville; o Grupo de Dança Andreia Mendes, de Timbó; a Kaiorra, de Camboriú; e a Jordan School, de Itajaí.

A Soul Move, de Chapecó, embora ainda não tenha participado do HHI, tornou-se bicampeã do FIH2 e alcançou reconhecimento internacional ao levar 39 bailarinos para uma apresentação durante o intervalo de um jogo da NBA, no Kia Center, em Orlando, nos Estados Unidos.

Esses exemplos mostram que não estamos falando de uma manifestação isolada. Estamos falando de uma cena artística organizada, profissionalizada e reconhecida nacional e internacionalmente.

SC também tem uma história importante no breaking

B-Boy Neguin (Divulgação)

Durante um período, Fabiano Carvalho Lopes, o B-Boy Neguin, campeão mundial do Red Bull BC One em 2010, morou em Balneário Camboriú. Sua presença fortaleceu ainda mais uma comunidade que já existia e contribuiu para aproximar bailarinos da região de referências internacionais.

Breakinho é professor em Balneário (Divulgação)

Outro nome que representa essa trajetória é Willian Rocha, o Breakinho.

Integrante da Start Crew, primeira crew catarinense a participar da Master Crews, um dos principais eventos de breaking do país, Breakinho também representou Santa Catarina em eventos internacionais na Argentina e na Bolívia. Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura e para o breaking, recebeu Moção Honrosa da Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú.

Hoje, atua como professor de breaking em projetos da Secretaria de Assistência Social, Mulher e Família de Balneário Camboriú, mostrando que a dança também pode ser uma ferramenta de educação, inclusão e cidadania.

Quando olho para essa trajetória, fica difícil aceitar que uma cultura com tantos resultados concretos seja reduzida a estereótipos. Porque, para quem vive essa realidade diariamente, o Hip Hop nunca foi apenas uma dança.

Sempre foi uma oportunidade.

Quem vive o Hip Hop sabe do que ele é capaz

Se minha percepção fosse isolada, talvez ela pudesse ser vista apenas como uma opinião.

Mas ela encontra eco em profissionais que dedicaram suas vidas às danças urbanas e que também se manifestaram após a publicação.

Dany Freitas (Divulgação)

Uma dessas vozes foi a de Dany Brown Freitas, professora de Danças Urbanas do Estúdio de Dança Adriana Alcântara e bailarina que recentemente integrou a equipe de Pedro Sampaio durante o Rock in Rio Lisboa, em Portugal.

Em seu posicionamento, Dany lembrou que defender investimentos em tecnologia, ciência, inteligência artificial ou educação financeira não significa diminuir a importância da educação cultural.

Ao contrário.

Segundo ela, foi justamente a Cultura Hip Hop que lhe ensinou disciplina, respeito, persistência, empatia e visão profissional. Valores que permitiram construir uma carreira como bailarina, professora e coreógrafa, trabalhando em grandes produções nacionais e internacionais.

Stacy ensina hip hop no Grupo Latarte (Arquivo Pessoal)

Outra fala que considero muito importante é a da professora Stacy, de apenas 20 anos.

Além de estudante de Pedagogia, ela atua como professora de Hip Hop Infantil no Grupo Latarte, projeto social localizado no bairro Monte Alegre, em Camboriú.

Ali, crianças em situação de vulnerabilidade social encontram na arte um espaço de acolhimento, aprendizado e desenvolvimento.

Quando Stacy afirma que sente orgulho dos cidadãos que estão sendo formados por meio da dança, ela não está fazendo um discurso abstrato.

Ela está falando da realidade que vive todos os dias dentro da sala de aula.

Também merece destaque o posicionamento de Thurbo Braga, mentor e diretor da Millennium Cia. de Dança.

Ao longo de sua trajetória, a Millennium conquistou títulos importantes, participou de programas de televisão e formou bailarinos reconhecidos nacional e internacionalmente.

Sua manifestação reforça algo que considero essencial: a educação cultural não disputa espaço com a educação científica ou tecnológica. Ela complementa a formação humana.

Arte e conhecimento caminham juntos

Uma sociedade que investe em ciência também pode investir em cultura. 

Uma escola que ensina matemática também pode ensinar dança.

Uma criança que aprende programação também pode aprender breaking.

Essas áreas não competem entre si.

Elas se fortalecem.

Foi isso que senti faltar no debate.

Porque a impressão transmitida foi a de que investir em cultura seria incompatível com investir em outras áreas do conhecimento.

Na prática, quem trabalha com educação sabe que não é assim.

A cultura amplia repertórios, desenvolve criatividade, fortalece vínculos comunitários e ajuda crianças e jovens a descobrirem talentos que muitas vezes permaneceriam invisíveis.

É por isso que considero tão importante que esse debate vá além das redes sociais.

Não para convencer quem pensa diferente

Mas para que mais pessoas conheçam uma realidade que, muitas vezes, permanece invisível para quem nunca entrou em uma sala de aula de Hip Hop, nunca acompanhou um projeto social ou nunca viu uma criança descobrir sua autoestima através da dança.

Perfeito. Eu fecharia o artigo trazendo o foco de volta para o Hip Hop, e não para Luciano Hang.

O que espero que fique depois da polêmica

Sam Carvalho: ‘Defendo que a Cultura Hip Hop seja conhecida antes de ser julgada’ (Arquivo Pessoal)

Escrevi este artigo porque acredito que toda polêmica também pode ser uma oportunidade de aprendizado.

Não espero que todas as pessoas concordem comigo. A democracia pressupõe divergências, e elas são saudáveis quando nos ajudam a refletir.

Também não escrevo este texto para defender o vandalismo. O combate dele encontra respaldo na legislação brasileira e faz parte da preservação do patrimônio público e privado.

O que defendo é outra coisa.

Defendo que a Cultura Hip Hop seja conhecida antes de ser julgada.

Que professores, coreógrafos, bailarinos, arte-educadores e projetos sociais não sejam reduzidos a estereótipos.

Que uma criança que encontra no breaking sua primeira oportunidade de disciplina e autoestima não carregue o peso de preconceitos construídos por quem talvez nunca tenha conhecido essa realidade de perto.

SC construiu uma das cenas de danças urbanas mais importantes do Brasil

São centenas de professores, escolas, companhias, grupos independentes, coletivos, produtores culturais e projetos sociais espalhados por todas as regiões do estado.

São profissionais que representam o Brasil em festivais internacionais, desenvolvem projetos em escolas, atuam nas políticas públicas culturais e de assistência social e levam a arte catarinense para o mundo.

É essa história que merece ser conhecida.

Talvez a maior contribuição dessa discussão seja justamente essa: fazer com que mais pessoas descubram que o Hip Hop vai muito além do que muitos imaginam.

Ele é cultura.

É educação.

É empreendedorismo.

É economia criativa.

É pertencimento.

É transformação social.

Ao longo de mais de 50 anos, o Hip Hop provou sua capacidade de mudar vidas em diferentes países, idiomas e realidades.

No Brasil, ajudou a construir oportunidades onde muitas vezes só existiam barreiras.

Em Santa Catarina, formou artistas, educadores, coreógrafos, bailarinos e cidadãos que continuam escrevendo essa história todos os dias.

Se a publicação de Luciano Hang servir para despertar esse debate e levar mais pessoas a conhecerem a verdadeira dimensão da Cultura Hip Hop, talvez possamos transformar uma polêmica em uma oportunidade de informação.

Porque opiniões podem ser diferentes.

Mas a história construída por milhares de profissionais da Cultura Hip Hop merece ser conhecida, respeitada e preservada.

Sam Carvalho é Produtor cultural, arte-educador, dançarino e representante da Associação dos Profissionais da Dança de Santa Catarina (APRODANÇA).

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