O espetáculo ‘Vida Marinha: Coleção em Cena’, do Centro Educacional de Atendimento no Contraturno (CEAC) Projeto Oficinas, realizado nesta quarta-feira (13), no Teatro Municipal Bruno Nitz em duas sessões, movimentou mais de uma centena de estudantes de 12 oficinas. O projeto Oficinas funciona no contraturno escolar e o teatro está entre as mais procuradas.
O diretor e roteirista da peça, Guilherme Trautmann, que ministra a oficina de teatro do CEAC, disse que ainda não conseguiu dimensionar tudo o que foi apresentado.
“Unir diferentes linguagens num roteiro cênico foi um desafio gratificante de fazer. O espetáculo ‘Vida Marinha: Coleção em Cena’ se transformou em um manifesto à grandiosidade das potencialidades da Educação Artística em uma perspectiva educativa, pedagógica e emancipatória”, declarou.
Guilherme enfatizou que o espetáculo revela o trabalho de qualidade que uma instituição como o CEAC é capaz de promover.
“Temos talento? Sim, com certeza! Mas aquilo é resultado de aulas teórico-práticas, ensaios, planejamentos e muito trabalho. Evidencia a qualidade e o esforço das professoras e professores e do comprometimento, criatividade, coletividade e protagonismo das/dos estudantes do CEAC”, afirmou.
Guilherme destacou a felicidade e a euforia das crianças e dos adolescentes nos términos das apresentações.

“É emocionante perceber como essas experiências são transformadoras para quem assiste, mas principalmente para quem faz. Estou muito feliz em fazer parte deste trabalho com toda equipe do CEAC, promovendo acesso à cultura para comunidade e apresentando ao grande público o diferencial da cidade no que diz respeito à uma educação pública, de qualidade e integral, formando cidadãos críticos, nutridos de uma educação estética, multidisciplinar e munidos de experiências que promovam sua autonomia e consciência sobre si, sobre o coletivo e sobre nosso meio ambiente”, declarou.
Além dos alunos da oficina de Teatro, participaram do espetáculo professores e estudantes das oficinas de hip hop, ginástica rítmica, patinação, capoeira, balé, literatura, contação de histórias, informática, inglês, violão, desenho e Ambiarte.
Os figurinos – um espetáculo à parte

Os figurinos chamam atenção em qualquer apresentação, mas no Vida Marinha, arrancaram aplausos do público, até porque a história do espetáculo nasceu com a arte da criação do figurinista do Oficinas, Cézar Silveira.
Nesta semana ele contou detalhes desta criação, que foi se aperfeiçoando até chegar ao espetáculo que o consagrou como criador dos figurinos que impressionaram o público.
Acompanhe um pouco desta trajetória:
Como tudo começou

“Com 3 anos de idade vesti uma saia, que era uma fantasia de Carnaval da minha mãe, ela não gostou da ideia, eu me ressenti com aquilo, deixei essa atração que eu tinha e tenho por roupa, moda, tecidos…guardada dentro de mim até meus 30, 40 anos, quando fiz minha graduação em dança na Bahia e logo já comecei a trabalhar com figurinos para um espetáculo de dança. Depois um coreógrafo me chamou para fazer os figurinos do balé Carmen para a Cia.de Dança da Escola de Balé do Teatro Castro Alves e em seguida um artista plástico, J.Cunha, me chamou para fazer um figurino para o corpo de baile do teatro Castro Alves.
Aí comecei a trabalhar com J.Cunha, escolas de dança, grupos de teatro me chamavam para fazer figurinos, anos 80, 90 trabalhei bastante com figurinos, quando voltei para Santa Catarina (…)”.
Ano 2000 – Projeto Oficinas
“Em 2000 fui trabalhar no Projeto Oficinas, a convite da Evandra Ventura e como tinha licenciatura em dança, entrei como ACT. Depois fiz concurso público e fui bem classificado como professor de Artes, mas antes de completar um ano, a Roseli Pauletti, da Secretaria de Educação me convidou para trabalhar na Escola de Arte e Artesanato, que foi criada pela Lígia Spernau e pela Lilian Martins, na gestão do Rubens Spernau e eu fui trabalhar como professor de tingimento, luminárias, jóias artesanais, mandala, customização e ali fiquei ali até 2016, quando a escola foi fechada e voltei para o ensino regular. Trabalhei na praça com os artesãos(…)”.
Figurinos em busca de personagens
“Em 2016 voltei ao projeto Oficinas e em dezembro aposento porque faço 75 anos e me aposento fazendo o que mais amo, figurinos. Tudo começou quando a coordenadora orientadora educacional Lívia Radke me estimulou para fazer fazer alguma coisa relacionada ao calendário da Unesco, eu escolhi o tema Vida Marinha e aí foram surgindo personagens da vida marinha, a lagosta, o polvo, o mangue, que é a peça origem da vida do oceano, berçário marinho, aquela zona de um limite meio indefinido, onde a terra encontra com água, é lodo, lama, e pensando em tudo isso foi surgindo a roupa.
Quando voltei ao Oficinas em 2016, na gestão da Noemi Löser, incentivadora, ela disse que eu iria trabalhar com figurinos, mas eu não tinha algo definido no momento. Aí surgiu a ideia de fazer figurinos invertendo o processo, em vez de criar figurinos para determinados personagens, vamos fazer o contrário, figurinos em busca de personagens e foi o que aconteceu e a partir desses figurinos que fui fazendo em colaboração com o diretor Guilherme Trautmann, professor de teatro que dirigiu a peça, com a Isadora, eles trabalham em conjunto, fomos usando as roupas e construindo um roteiro”.
A construção dos figurinos
“Fizemos textos, só fiz um desenho, da tartaruga, mas eu pesquisei o polvo, os corais, as esponjas, e a partir disso, eu pego tecido, coloco no manequim e vou fazendo pela sistema de moulage, a modelagem no corpo, gosto muito de trabalhar o tecido no viés (…),fui criando figurinos, materializando em forma de roupa essas expressões de vida marinha…95% dos trabalhos foram feitos à mão, sou um costureiro artesão, costuro à mão, respeitando os princípios da alta costura, que é o acabamento manual…”.
Figurinos traduzem triste realidade

“Produzimos as anêmonas, o branqueamento de corais, que é um fenômeno, pelo aquecimento dos oceanos, os corais vão morrendo porque as algas e microrganismos que habitam esse coral e dão a cor para ele, está morrendo e ele vai ficando branco…então surgiu essa pegada do tema, abordar isso, não pelo lado da destruição que nós humanos estamos fazendo…a humanidade desumana que vai degradando o meio ambiente para ter seu conforto, sua sobrevivência…mas tudo dentro de uma reflexão do quanto a gente agride o mar…surgiu daí a historia do derramamento de óleo, fiz um figurino todo preto, que é uma capa grande, manuseada pelos atores, que retrata, descreve, representa o derramamento de óleo…(…)
O fundo do mar é de uma beleza ímpar…então é uma fatalidade, uma tristeza o que acontece e uma cena que apresenta isso são as anêmonas, as quatro meninas e o texto delas é gargalhada…na interpretação da coordenadora do projeto, Deise, ela descreveu as anêmonas como ‘embriagadas, enlouquecidas, porque riem assim pela poluição que domina o ambiente, elas riem do que a gente destrói (…)”.
Tudo começou com um desfile
“A pegada desse trabalho começou com um desfile na Passarela da Barra, foi lindo e em 2024 levamos Vida Marinha em Cena ao Teatro e agora em 2025 considero que o figurino está pronto, entre aspas…eu coloco entre aspas porque pra mim nunca está pronto, sempre quero melhorar, consertar…(…)”.
Peças de repertório
“O Projeto Oficinas precisa ter peças de repertório, acredito que o Vida Marinha é uma dessas peças porque une aulas de teatro, textos de inglês, espanhol, representa oficinas de capoeira, professores de violão, teclado, saxofone participam com alunos, patinação… é lindo o espetáculo porque abrange todas as oficinas…é preciso que o Oficinas tenha esses projetos, essas peças de repertório…o professor Guilherme levou um espetáculo para um festival na Argentina…também é uma peça de repertório, porque acho que ficou muito claro para todos que assistiram o espetáculo esta semana no Teatro Municipal a importância do Oficinas. O ex-prefeito Leonel Pavan foi convidado porque foi no governo dele que surgiu o projeto Oficinas. É uma cria daquele tempo que cresceu muito”.
Agradecimentos

“Gostaria de agradecer a secretária da Educação, Maria Ester Menegasso, o vice-prefeito Nilson Probst, que esteve no espetáculo, a coordenadora do projeto Deise Izonete de Souza, a Noemi Löser, que incentivou o desfile na Passarela da Barra, que foi o pontapé inicial do Vida Marinha, a Lídia Radtke, que foi a orientadora que me sugeriu o calendário da Unesco, todos os coordenadores que sempre respeitaram meu trabalho e em especial aos nossos professores e alunos atores deste espetáculo”.

