O grupo de 25 Pelznickel, de Guabiruba, que ‘invadiu’ a Praia Central de Balneário Camboriú, no domingo (30), causando surpresa e espanto, tem agenda cheia neste final de semana (6 e 7), em sua cidade, onde acontecem dois Desfiles de São Nicolau, a Festa de 20 anos da Sociedade do Pelznickel e a inauguração do Caminho da Tradição.
Além disso, nos dois próximos finais de semana (12 a 14 e 19 a 21) eles participam da Pelznickelplatz, um evento que vem recebendo turistas de todo o país e até do exterior.
Foi para divulgar essa programação tradicional em Guabiruba, que só termina na véspera de Natal, que a Sociedade do Pelznickel, incluiu o passeio a Balneário Camboriú, ‘onde tudo que acontece tem grande visibilidade’, como disse o vice-presidente da Sociedade, Jocimar Fischer ao Página3.

Em Balneário Camboriú, eles correram na Praia Central e subiram a Estrada da Rainha, para fazer fotos e vídeos,com os personagens principais desta tradição: o Pelznickel, São Nicolau, Christkindl, Sackmann, Oma e Opa.
Destes personagens, o mais conhecido é o Pelznickel ou Papai Noel do Mato, com cara de bravo, que repreende crianças desobedientes, enquanto o Christkind (Menino Jesus), interpretado por uma mulher vestida de branco dos pés a cabeça, é uma figura central e ‘amiga’ do Natal. No conjunto, tem ainda os simpáticos Oma e Opa e o Sackmann ou homem do saco, outra figura temida pelas crianças.

Desde domingo, o Página 3 vem recebendo perguntas sobre essas estranhas criaturas, que divertiram as pessoas na praia, nos prédios, e que viralizaram nas redes sociais.
Para saber mais sobre o ‘ocorrido’, a reportagem entrevistou o vice-presidente da Sociedade do Pelznickel, Jocimar Fischer, que falou sobre esta tradição, que foi recuperada fortemente em Guabiruba.
Acompanhe:

JP3 – Qual o significado e qual a origem da palavra Pelznickel?
Jocimar Fischer – O nome vem do alemão: “Pelz” significa “pelagem” ou “pelo”, e “Nickel” é um diminutivo de Nicolau, outra variação seria “Pelzen”, que significa bater, que seria Nicolau que bate. Em algumas interpretações populares, o Pelznickel é visto como uma espécie de ‘irmão’ mais severo do Papai Noel moderno. Ambos compartilham raízes comuns, mas tomaram rumos muito diferentes ao longo do tempo.
JP3 – Antigamente as famílias de origem alemã falavam muito em Pelznickel, que representava uma ameaça para as crianças, que sentiam medo dessa figura. Mas ele era uma figura no singular, hoje ele anda em grupos, é plural? Esse conceito mudou?
JF – Na verdade, o Pelznickel nunca foi uma figura única ou solitária na tradição. Ele sempre existiu de forma coletiva, acompanhado de São Nicolau e da Christkindl. O que ocorreu é que, alguns anos antes da criação da Sociedade do Pelznickel, a tradição estava tão enfraquecida que era difícil encontrar mais do que um, não por característica da tradição, mas por falta de interesse e continuidade na comunidade. Com o resgate cultural promovido pela Sociedade, retomamos com força a presença em grupo, fortalecendo a vivência, ampliando o impacto cultural e preservando a forma autêntica do Pelznickel.

JP3 – Ele ainda causa efeito sobre as crianças de hoje, que são bem informadas, nem acreditam mais em Papai Noel…as crianças sentem medo quando vêem essas figuras nas ruas?
JF – Depende. As crianças de hoje são mais informadas e têm outros referenciais culturais, mas o Pelznickel ainda provoca surpresa e às vezes um certo receio natural. É importante lembrar que, antigamente, esse medo tinha um motivo concreto: as crianças realmente apanhavam do Pelznickel com a varinha de marmelo, e muitas vezes eram os próprios pais que incentivavam essa prática como forma de correção. Hoje isso não existe mais. Atualmente nosso trabalho é totalmente educativo, através de gestos e fala. Curiosamente, o medo nas crianças muitas vezes é provocado mais pelos próprios pais, que reforçam histórias antigas para ‘assustar’, do que pela figura do Pelznickel em si. E não são apenas as crianças: há também adultos que sentem medo pela estética rústica e misteriosa.

JP3 – Como e quando surgiu a Sociedade do Pelznickel em Guabiruba?
JF – A Sociedade do Pelznickel foi fundada em 2005 com o objetivo de preservar e manter viva a tradição centenária trazida pelos imigrantes germânicos. Surgiu do desejo de garantir que essa manifestação cultural, símbolo de identidade, memória e pertencimento, continuasse presente nas futuras gerações.
JP3 – O que motivou a criação da Sociedade?
JF – O principal motivador foi a necessidade de resgatar, fortalecer e apresentar a tradição de forma segura, organizada e culturalmente valorizada. Era importante evitar distorções que poderiam surgir com o tempo, além de formar novas gerações que entendam e respeitem essa herança cultural.

JP3 – Quem participa da Sociedade, são moradores, adultos, jovens?
JF – Temos participantes de todas as faixas etárias, desde crianças até idosos. Ao todo, são mais de 150 integrantes que, de forma voluntária, dedicam seu tempo para manter viva e preservar a tradição. Embora a maioria resida em Guabiruba, também contamos com membros do município vizinho, Brusque.
JP3 – Quais os objetivos?
JF – Preservar a tradição, promover ações culturais e valorizar a herança germânica. Também buscamos fortalecer a cultura regional e transmitir às novas gerações o verdadeiro significado dessa tradição. Além disso, incentivamos a produção de registros como materiais audiovisuais, livros e documentações diversas, para que, daqui a 100 anos, ainda seja possível encontrar informações e compreender como vivenciamos essa cultura nos dias atuais.

JP3 – Desde que foi criada até os dias de hoje houveram mudanças nas propostas?
JF – Não houve mudanças diretas nos objetivos, mas a nossa forma de pensar evoluiu. Nos primeiros anos, participávamos com frequência de desfiles natalinos e eventos em outros municípios. Com o tempo, percebemos que o ideal era fazer com que as pessoas conhecessem a tradição aqui, em Guabiruba, afinal, é onde ela se mantém viva. Dessa reflexão surgiu a PelznickelPlatz, um evento que cresce a cada ano e hoje recebe visitantes de todo o Brasil e até mesmo do exterior.
JP3 – A Sociedade criou outros eventos na cidade para atrair curiosos, sejam eles moradores ou turistas?
JF – Sim. Além do tradicional desfile realizado na véspera de Natal em 2005, ampliamos nossas atividades ao longo dos anos. Passamos a realizar também o Desfile de São Nicolau, no dia 6 de dezembro, e participamos anualmente do Desfile do Presépio Vivo. Criamos ainda a PelznickelPlatz, que se tornou uma festa consolidada, atraindo um número significativo de visitantes e movimentando o comércio local, hospedagens e serviços. Com o sucesso dos nossos desfiles, a própria prefeitura passou a promover um desfile de Natal anual, reunindo diversos grupos e, como sempre, o Pelznickel acaba sendo a grande atração do evento.
JP3 – A vinda do grupo para a praia central de Balneário Camboriú foi uma maneira de divulgar essa tradição?
JF – Sim. O principal objetivo da ação foi realizar uma sessão de fotos e gravações de vídeo para divulgar a tradição em um ponto turístico de Santa Catarina amplamente conhecido em todo o país. Iniciativas semelhantes já haviam ocorrido, como a ação realizada na Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, anteriormente. Naturalmente, sabíamos que a própria presença da Sociedade do Pelznickel também geraria visibilidade espontânea, pois tudo o que acontece em Balneário Camboriú tende a repercutir na mídia e nas redes sociais.

JP3 – Como vocês sentiram a repercussão desse ‘passeio’? JF – A repercussão foi imediata. Assim que começamos a descer a Estrada da Rainha, os carros reduziram a velocidade para filmar e fotografar, e muitas pessoas apareceram nas sacadas dos prédios curiosas para entender o que estava acontecendo. Ao chegarmos na ponte do rio Marambaia, já havia um grupo de pessoas nos aguardando com celulares e câmeras apontados. Nas redes sociais, a dimensão só ficou clara quando estávamos no ônibus voltando para Guabiruba: começaram a surgir, de forma totalmente orgânica, postagens em diversos perfis, páginas de notícias e de entretenimento. O número de visualizações cresceu de maneira exponencial, e em menos de 30 minutos já aparecíamos em mais de 15 páginas diferentes no Instagram.
JP3 – O jornal recebeu muitas ligações para saber ‘quem eram aquelas criaturas misteriosas’, de onde surgiram, o que queriam e por que se vestiam daquele jeito e não foi só no domingo, durante toda semana, as pessoas seguiam perguntando sobre essa ‘invasão’ na praia?
JF – Os Pelznickels surgiram da tradição germânica trazida pelos imigrantes e preservada ao longo das gerações no município de Guabiruba. Eles percorrem as ruas para manter viva a cultura e relembrar antigos costumes de Natal, quando tinham o papel de advertir e divertir as crianças. Vestem-se com folhas, trapos escuros, máscaras e chifres para manter a aparência rústica e misteriosa que marca essa tradição.
JP3 – Diz a lenda que eles viviam no mato e só apareciam perto do Natal para assustar quem não se comportou etc, o contrário da figura do Noel moderno, que se diz amigo das crianças hoje em dia, porque antigamente eles também metiam medo…
JF – O Pelznickel sai de sua casa para lembrar as crianças da importância de se comportarem bem: estudar, ouvir os pais e manter as orações em dia. Ele costuma dizer que, até a véspera de Natal, ainda dá tempo de melhorar. Enquanto São Nicolau é a figura boazinha da tradição, o Pelznickel, com seu jeito misterioso e rústico, aparece justamente para reforçar o respeito e os bons hábitos de forma bem-humorada e simbólica.

JP3 – Como são feitas as vestimentas e por que escondem o rosto, usam correntes, chicotes, instrumentos para castigar crianças, que desapareceram do cenário da educação moderna. A intenção ainda é para causar medo?
JF – Cada integrante confecciona a própria vestimenta, sempre seguindo a orientação do grupo para garantir que nada fuja da tradição. O rosto é escondido e os trajes rústicos feitos de folhas, trapos escuros e máscaras, fazem parte da essência da tradição. Antigamente, os chicotes, varas e correntes eram realmente usados para assustar e até punir as crianças. As correntes, por exemplo, eram arrastadas no chão e batidas nas paredes de madeira para provocar barulho. Hoje, isso mudou completamente. Esses objetos continuam presentes apenas como símbolos, lembrando o caráter disciplinador do Pelznickel, mas sem qualquer intenção real de castigar. A tradição evoluiu, e o foco agora é manter vivo de forma cultural e respeitosa.
JP3 – Espaço aberto para o que mais considerar importante divulgar.
JF – Gostaríamos de convidar todos os leitores para visitar a Pelznickelplatz, um evento criado para celebrar e preservar as tradições do Pelznickel, São Nicolau, Christkindl e Sackmann. Nesta edição, em nova casa, esperamos receber cerca de 30 mil visitantes. A programação acontece nos dias 12, 13, 19 e 20, das 19h às 23h, e nos dias 14 e 21, das 17h às 21h, com a praça de alimentação aberta duas horas antes. Não somos o maior evento de Natal do Brasil, mas certamente somos o Natal mais tradicional do país. Os ingressos estão disponíveis no site e no aplicativo “Pedidos10” pelo valor de R$ 13,00. Também poderão ser adquiridos na hora da visita por R$ 15,00. Mais informações sobre o evento e sobre a tradição podem ser encontradas em nosso Instagram, @pelznickel, e em nosso site oficial, www.pelznickel.com.br

