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20.7 C
Balneário Camboriú
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Entrevista: Waldir Coral. “A dança é um dom, uma vocação que me abraçou e virou profissão”

Há mais de três décadas quando chegou a Balneário Camboriú, Waldir Coral era um principiante no mundo da dança, mas não imaginava que se tornaria um profissional desta arte que conheceu ainda criança. 

No último dia 11, ele estava entre os formandos do curso de Licenciatura em Dança pela Universidade Regional de Blumenau (FURB). Agora tem formação nas técnicas da Dança Moderna, Jazz, Balé Clássico e Dança de Salão, a qual se dedica atualmente.

Nesta reportagem José Waldir Coral dos Santos, de nome artístico Waldir Coral, 54 anos, natural de Porto Velho (RO), casado com Bianca Sara Rosa há 30 anos, pai de José Moacir dos Santos e Modesta Pereira Coral dos Santos, conta um pouco desta trajetória que era um sonho e hoje se concretizou.

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Ele veio a Balneário Camboriú em 1991 com um grupo de dança, que procurou a redação do jornal Página 3 para fazer uma reportagem sobre os bailarinos que queriam dançar na praia, mas precisavam trabalhar. Além da reportagem, eles trabalharam em uma pesquisa eleitoral que o jornal estava fazendo para eleições municipais. 

Meses depois, alguns retornaram à sua cidade e outros ficaram na praia, entre eles, Waldir Coral. Em 1996 ele desistiu da praia e foi morar em São Paulo por 12 anos, até 2007, quando retornou a Balneário Camboriú e aqui se firmou como artista da dança (aquele que acumula funções como coreógrafo, bailarino, professor de dança, performer, iluminador, figurinista, produtor cultural).

Acompanhe um pouco desta história:

JP3 – Quando vi nas redes a tua colação de grau passou um filme de uns 30 anos atrás quando um grupo de bailarinos lá do Norte chegou na redação do jornal Página 3 procurando trabalho…você era o líder do grupo…essa formatura é a realização de um ‘sonho sonhado por muitos anos…

Colação de grau teatro Carlos Gomes em Blumenau, no último dia 11 (Arquivo Pessoal)

Waldir Coral – É isso, há exatos 32 anos e dois meses nós chegávamos em Balneário Camboriú com o grupo Roda Mundo, do qual eu fazia parte. Viemos em dez bailarinos mais o coreógrafo do grupo Kidd Souza, falecido em 2021, vítima de Covid. Eu era um dos mais inexperientes na época, fazia apenas um ano e meio que tinha iniciado meus estudos em dança e a maioria dos integrantes já tinha de três a quatro anos de experiência. Quanto à formatura é, sem dúvida, a realização de um sonho sim, quando vim para o sul em busca do sonho de viver de dança, ela acabou me afastando um pouco dos estudos acadêmicos e que depois de todo esse tempo tive a sorte de retornar, já na primeira turma do curso de licenciatura em dança, que é também o primeiro em regime presencial do estado de Santa Catarina.

JP3 – A dança é um dom, uma vocação ou uma profissão como qualquer outra?

Coreografia Eclipse (de Waldir Coral) no teatro municipal Bruno Nitz (Foto Celso Peixoto)

WC – No meu caso ela é tudo isso… é dom herdado dos meus pais que adoravam dançar, apesar de só fazer isso informalmente, é vocação que descobri somente quando comecei a estudar dança, na época eu não tinha ideia de que poderia ser uma profissão, imagina no final dos anos 80 um homem dançando era muito difícil ainda mais no meu estado distante de tudo. Se a arte hoje ainda é tão desvalorizada imagina naquela época. E acabou que a dança me abraçou, no primeiro momento já era algo sério, não me afastei mais. Se tornou minha profissão desde então.

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JP3- Quando foi que você percebeu a dança em sua vida?

WC – Como eu disse meus pais adoravam dançar, em toda festinha de família lá estavam eles dançando, e isso me contagiou desde sempre, alguns irmãos meus também dançavam muito bem. Então a dança está na minha vida desde criança, no entanto teve um período que eu me afastei um pouco, fui para o lado do esporte, queria jogar futebol. Foi então que com o surgimento do Michael Jackson, meu amor pela dança voltou com tudo e deu no que deu… 

JP3 – Onde aconteceram os primeiros passos?

WC – Os primeiros passos sem dúvida foram nas festinhas de família, depois nas danceterias da época. Mas quando eu me dei conta de que a dança poderia ser algo mais, foi com a chegada do Kidd Souza em Rondônia, meu primeiro professor, que me mostrou que dançar era algo sério e poderia ser uma profissão. Foi após assistir uma apresentação do grupo Roda Mundo criado por ele, foi ali que eu tive a certeza de que queria fazer aquilo, embora não tivesse a noção exata do que viria a ser.

JP3  – Como e por que Balneário Camboriú entrou na rota?

WC – Isso é uma longa história, mas vou tentar resumir aqui, Jú Lauriano, uma empresária de Rondônia que veio morar em Balneário Camboriú, percebendo o potencial turístico da cidade e conhecendo todo o trabalho artístico que o Grupo Roda Mundo realizara em nosso estado, e querendo muito nos ajudar, resolveu fazer o convite para parte do grupo vir para Balneário e montar uma companhia de dança aqui com algumas bailarinas da cidade. Como o grupo passava por um momento difícil, o coreógrafo aceitou o convite e juntamente com dez bailarinos, todos do gênero masculino, viemos para Balneário Camboriú e nos juntamos com o grupo de bailarinas daqui, mas as coisas não deram muito certo e a maioria voltou para Porto Velho e os que aqui ficaram também tomaram rumos diferentes naquele momento.

JP3 – Como foram os primeiros anos por aqui?

WC – Os primeiros meses foram muito difíceis, havia uma churrascaria que nos ajudaria com empregos e local para ficar, mas poucos dias antes de embarcarmos a churrascaria pegou fogo e não podíamos mais contar com essa ajuda, passamos muitas dificuldades, fome e frio. Não tínhamos ideia do que era o frio no Sul, acostumados a um calor de 30 graus o ano inteiro, não tínhamos nem roupas adequadas para estar aqui, sem conseguir trabalho e tendo que pagar aluguel, o pessoal foi desanimando e um a um, foram desistindo e voltando. Quando começou a temporada, estávamos em quatro apenas, mas aí conseguimos vaga em duas casas de shows para turistas que existiam na época e estavam abrindo as portas o “Kaoma Teatro Show” e o “Maculelê Samba Show” e a partir daí fomos conseguindo nos manter e nossa sorte começou a mudar.

JP3 – Alguma vez pensou em desistir?

WC – Ah sim, com certeza, passou algumas vezes pela minha cabeça voltar, afinal eu tinha emprego estável no serviço público estadual que deixei para trás, tinha minha família inteira e amigos, a saudade era enorme. Nunca tinha me afastado de casa antes e tão pouco passado necessidade, tudo era muito novo para mim, foi um período muito difícil, mas graças a Deus meu sonho e a vontade de vencer foram maiores.

JP3 – A carreira se tornou realidade aqui na praia ou passou por outros lugares?

WC – Comecei a trabalhar profissionalmente aqui mesmo, fizemos algumas apresentações em hotéis e eventos, e a partir do verão fomos contratados para trabalhar no Kaoma Teatro Show eu e José Guimarães que adotara o nome artístico de Zé Mário na época. O Mário Jorge e o Rick Silva foram contratados pela casa Maculelê Samba Show. Estávamos apenas os quatro e foi nosso início profissional. Fiquei trabalhando nesse teatro durante o verão por cinco temporadas. 

JP3 – Depois trocou a praia por São Paulo e lá a carreira estourou…

WC – Em 1996 fui para São Paulo, lá depois de um período difícil de adaptação comecei a me estabelecer, com um mercado artístico incomparavelmente maior, as oportunidades foram surgindo, comecei a trabalhar com grandes artistas conhecidos nacionalmente como Gian e Giovane, Rick e Renner, Daniel, Netinho de Paulo, Grupo Katinguelê entre outros, com esses artistas viajei o País inteiro de norte a Sul. Fui contratado de programas de televisão como o Programa Sula Miranda Show, na extinta Rede Manchete de Televisão que veio a se tornar Rede TV. Fiz a abertura do programa “Alô Cristina” no SBT. 

JP3 – Teve uma época que trabalhou em navios de turismo…

WC – Sim, quando teve início as temporadas de cruzeiros no Brasil, passei a trabalhar com esse tipo de evento realizando quatro temporadas no Brasil e duas na Europa. Depois fiquei dois anos na Europa trabalhando em navios de cruzeiro por todo o mediterrâneo, tive a oportunidade de conhecer países como Grécia, Turquia, Croácia, Inglaterra, França, Itália, Portugal entre outros lugares onde a dança me levou. 

JP3 – Depois decidiu voltar para Balneário…

Com as colegas de curso, Micheli Chaves e Roberta Prado Guimarães, uma das sócias na Escola PraDança (Arquivo Pessoal)

WC – No final do ano de 2007 retornei para Balneário para tirar férias e aqui estou desde então. Sou sócio proprietário da Escola PraDança juntamente com Roberta Prado Guimarães que colou grau junto comigo e de Leticia Passos, formada em Fotografia.

JP3- O que precisa para ser um bom profissional desta arte?

Coreografia Como eu era antes de você de Waldir Coral, auditório do colégio Recriarte (Arquivo Pessoal)

WC – Eu acho que em qualquer área, para ser um bom profissional você tem que amar muito o que faz, tem que se dedicar, se aprimorar, estudar sempre e querer aprender e nunca achar que já sabe o suficiente, ainda mais em se tratando de arte, pois a dança é flutuante, não para, está sempre em transformação.

JP3 –  Quais e onde foram as principais apresentações de sua carreira?

Coreografia Um ano de Amor de Waldir Coral no teatro Bruno Nitz (Foto Alceu Bett)

WC – Olha, isso é uma pergunta difícil de responder, porque são mais de 30 anos de carreira, eu já fiz todo tipo de apresentação e performances e é muito difícil escolher, eu já dancei em grandes teatros no Brasil, como o Municipal de São Paulo, por exemplo, já apresentei nas maiores casas de espetáculos do país, como Olympia e Canecão em São Paulo, o Metropolitan, no Rio de Janeiro, apresentei no Barretão, a maior arena de rodeios do País na cidade de Barretos. Dancei espetáculos inteiros nos teatros de navios transatlânticos na Europa, então tem bastante coisa e acho que cada uma foi importante no seu momento, assim como as dificuldades que me fortaleceram e me fizeram crescer. Tudo o que eu passei e o que fiz me constituíram o artista que sou.

JP3 – Houve uma época em que você dava aula particular…

WC – Hoje, apesar de estar mais concentrado nas necessidades da escola, eu ainda ministro aulas particulares e também em grupos, continuo sendo professor, mas sem esquecer o lado artista e pesquisador.

JP3 – Em alguns shows você interpreta famosos, como Freddie Mercury e outros… é difícil fazer isso?

Performance Freddie Mercury no SUB em Blumenau (Arquivo Pessoal)

WC – Já fiz algumas, performances de artistas como Charles Chaplin, Caetano Veloso, Michael Jackson. Agora tenho me dedicado ao Freddie Mercury. Quanto a dificuldade eu diria que não é muito simples, precisa de um tempo de dedicação, estudo dos gestos mais característicos, escolha do repertório e aprendizado das letras das músicas. Tem que dedicar um tempo de estudo, depois fica fácil.

JP3 – Atualmente você tem uma academia de dança, com quantos bailarinos e onde se apresentam?

Coreografia Cálise de Waldir Coral no auditório do colégio Recriarte em Camboriú (Foto Letícia Passos)

WC – Sim, a escola PraDança fica na rua 1542 de esquina com a Quarta Avenida no centro da cidade, foi inaugurada há apenas um ano e meio e tem pouco mais de uma centena de alunos. Temos um grupo que representa a escola em vários festivais competitivos dentro do estado e fora dele e sempre obtendo premiação, recentemente estivemos participando do festival de Dança de Joinville. Além da Waldir Koral Cia. de Dança o grupo do qual sou diretor artístico, conta com um elenco mais maduro e tem uma pegada mais profissional, no seu repertório buscamos a montagem de espetáculos e produção de projetos para busca de recursos por meio de leis de incentivo. A companhia vai fazer 15 anos de existência no próximo ano e já estamos em produção para comemoração da data.

JP3 – Quais foram os maiores benefícios que a dança trouxe para sua vida?

Coreografia Cocomanimbo de Waldir Coral, Teatro Bruno Nitz (Arquivo Pessoal)

WC – Eu costumo dizer que a dança me salvou, em todos os sentidos, me tornou alguém mais seguro de si, eu que sou uma pessoa totalmente tímida… a dança mudou o modo de me expressar, o modo de me comunicar com o outro, me tirou do meu estado e me levou para o mundo, hoje posso dizer que estive em todos os estados brasileiros, conheci boa parte da Europa, interagi com várias culturas, a riqueza de conhecimento adquirido por meio dessas experiências é incalculável, algo que provavelmente eu não teria acesso se não fosse a dança. Isso sem falar no que se refere a saúde estou em plena atividade e com um condicionamento físico excelente, tenho uma alimentação balanceada e pratico outras atividades físicas, tudo por causa do modo de vida que levo por causa da minha profissão. Por fim, a dança me trouxe benefícios em todos os aspectos físicos, sociais e psicológicos.

JP3 – Novos planos para carreira…

WC – Meus planos no momento é dedicar mais tempo a escola, a escrita e produção de projetos, quero montar um espetáculo novo para as comemorações dos 15 anos da Waldir Koral Cia. de Dança e continuar estudando sempre.

JP3 – Espaço aberto….

Com a esposa Bianca Sara Rosa (Arquivo Pessoal)

WC – Concluir a licenciatura em dança nesse momento da minha vida é uma grande vitória pessoal, foram muitas as dificuldades pelo caminho que se estendeu por seis anos, deveriam ter sido quatro, mas os compromissos e obrigações da vida adulta não permitiram. Trabalhar todos os dias até as 23 horas e dormir apenas 5 horas de sono para viajar até Blumenau três, às vezes quatro dias por semana, e nos finais de semana? 

Ao invés de descanso, leituras, escritas, projetos, resenhas. Não havia tempo ocioso, nem para a família, muita coisa foi deixada de lado por esse objetivo. Em um dos momentos mais difíceis, durante a escrita de meu TCC, perdi minha adorada mãe, dois irmãos, meu bebê (de quatro patas) e meu primeiro professor de dança com o qual dei início a minha trajetória artística, tudo em questão de dias. Amigas de curso separaram, outras casaram e tiveram filhos, muitos desistiram e ficaram pelo caminho, caminho trilhado por mim mas construído por muitos, professores, colegas de curso, amigos, família, minha esposa, todos fizeram parte dessa caminhada a ajudaram a constituir o artista que sou. 

É sim, sem dúvida uma vitória, e com isso eu espero ajudar a disseminar a importância do estudo, da formação, principalmente na dança, muitos bailarinos se limitam ao aprendizado da técnica sem dar valor a parte teórica e aos modos de fazer, desumanizando o ensino e limitando a dança a um lugar de reprodução muitas vezes mecânica de movimentos. O ideal é poder unir teoria e prática, buscar novos modos de fazer, levando a dança para um lugar de sensibilidade e criatividade afastando-se da estagnação.

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