No final da década de 1960, por volta de 1968, Nilson Manoel de Borba, nascido em 8 de outubro de 1945, no município de Camboriú, mudou-se para São Paulo a convite de seu irmão Milton Manoel de Borba, que já residia na capital paulista.
Como muitos jovens da época, buscava melhores oportunidades de trabalho e crescimento profissional nos grandes centros urbanos.
Ao chegar em São Paulo, Nilson começou a trabalhar como atendente em uma lanchonete no centro da cidade, onde diariamente conhecia e conversava com inúmeras pessoas.
Em 1972, seu irmão Milton ouviu falar de um imigrante japonês que havia conquistado a primeira medalha olímpica do judô brasileiro: Chiaki Ishii, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, em 1972. Natural do Japão, Ishii naturalizado brasileiro, conquistou o bronze na categoria meio-pesado (até 93k) e inaugurou a vitoriosa trajetória do país no esporte.
Motivado pela conquista histórica, Milton incentivou Nilson a procurar o local onde o atleta olímpico treinava para iniciar na prática do judô.

Nilson encontrou a academia, realizou sua matrícula e começou os treinamentos acreditando estar aprendendo judô. Trabalhando diariamente na lanchonete, alimentando-se bem e treinando intensamente, logo ganhou força física e resistência.
Certo dia, seu irmão perguntou quando ele mudaria de faixa. Para surpresa de Milton, Nilson respondeu que ninguém na academia utilizava faixas.
Desconfiado, Milton decidiu visitar o local de treinamento. Ao chegar, percebeu que a academia não era de judô, mas sim de luta livre profissional, o famoso “Telecatch”, onde treinavam grandes nomes da televisão da época, como Ted Boy Marino e Aquiles.
Ao descobrir o engano, Milton explicou a Nilson que aquela modalidade não era judô.
Determinado a aprender a verdadeira arte marcial japonesa, Nilson procurou então uma academia de judô e matriculou-se na academia do medalhista olímpico Chiaki Ishii, localizada no bairro da Lapa, em São Paulo.
Foi ali que Nilson aprendeu os fundamentos do judô, participou de grandes competições e, em 1975, conquistou a graduação de faixa preta Sho-Dan (1º Dan).
Primeira academia em Balneário Camboriú

No início de 1976, já graduado faixa preta, Nilson retornou para Balneário Camboriú e, em maio do mesmo ano, fundou a primeira academia de judô da cidade e de toda a região.
O nome da academia surgiu em conversa com o saudoso Ademar José da Silva, que já possuía os tradicionais times de futebol “Tubarões”.
Assim nasceu a Tubarões Esporte Clube, primeira academia de judô de Balneário Camboriú. Sua sede inicial funcionava no antigo Clube 33, localizado na Rua 3100, esquina com a Rua 3198, Iate Clube Camboriú (ICC).
A partir desse momento, iniciou-se um importante trabalho de ensino e difusão do judô na região.

Sensei Borba formou mais de 50 faixas pretas, muitos dos quais passaram a desenvolver a modalidade em diversas cidades catarinenses.
Mestre mais graduado de SC

Em dezembro de 2015, aos 70 anos, Sensei Borba faleceu em Balneário Camboriú, sendo reconhecido como o mestre mais graduado de Santa Catarina e um dos mais graduados do Brasil, detentor da faixa vermelha e branca 8º Dan.
Legado mantido

O legado da Associação de Artes Marciais Borba segue vivo até hoje através de seu filho mais velho, Sérgio Ricardo Borba, faixa preta 5º Dan e árbitro internacional de judô, que continua ensinando e formando inúmeras crianças, adolescentes e adultos no município.
Desde 2016, o projeto social gratuito mantém suas atividades na Rua Bombinhas, nº 1251, no Bairro dos Municípios, atendendo atualmente aproximadamente 120 praticantes, entre crianças, jovens e adultos.

Segundo dados oficiais da plataforma da Confederação Brasileira de Judô – Zempo, a Associação de Artes Marciais Borba obteve os seguintes resultados entre 2010 e 2026:
• 527 judocas participantes em competições; • 9 técnicos registrados; • 281 competições disputadas; • 359 medalhas de ouro; • 352 medalhas de prata; • 434 medalhas de bronze.
Em 2025, a associação conquistou também o histórico título de campeã do PARAJASC na categoria de deficientes visuais, levando o nome de Balneário Camboriú ao topo do esporte paradesportivo catarinense.
Apesar da relevância social e esportiva do projeto, desde setembro de 2025 a associação não recebe apoio da Fundação Municipal de Esportes de Balneário Camboriú, seja em transporte, taxas de competição, alimentação ou hospedagem. Atualmente, todos os custos para participação em eventos são assumidos pelos próprios atletas e suas famílias.
“Mais do que formar competidores, o principal objetivo da associação é promover inclusão social, disciplina, cidadania e desenvolvimento humano”, comentou Sérgio Borba.
O projeto atende diversas crianças e adolescentes com diferentes laudos e necessidades específicas, incluindo atletas com deficiência visual que treinam regularmente.
“Assim, a história da Associação de Artes Marciais Borba se consolida como um marco do esporte catarinense: são 50 anos dedicados à formação de atletas, cidadãos e à transformação social através do judô em Balneário Camboriú”, disse o professor Sérgio Borba, que concedeu entrevista ao Página3
Acompanhe:

JP3 – Na condição de herdeiro do Borba, qual é hoje a melhor lembrança desta herança esportiva?
Sérgio Borba – Minha maior lembrança foi o aprendizado que meu pai me deixou, de vida e esportiva pelo próximo, o respeito, ter consideração pelas pessoas que te ajudaram ou ainda ajudam, e principalmente valores como honestidade e caráter, valores estes muito raros no meio esportivo hoje em dia.
JP3 – A prática do judô veio naturalmente, por ver o pai praticando ou não?
SB – Minha vida no tatame começou aos 4 anos, em 1978, praticamente nasci dentro da academia, meu pai brincava comigo, dizia que eu não usei fraldas e sim já coloquei o kimono. Sempre ficando nos treinos com meu pai, fazendo a iniciação esportiva, aprendendo fundamentos e as valências físicas, velocidade, força, controle, etc, importantes para a idade. Desde então venho treinando, competindo me especializando e repassando as informações que aprendi ao longo destes 47 anos dedicados aos judô, fiquei 6 anos e meio na Europa, em Portugal, estudando e aprendendo mais sobre o esporte e a vida. Com todo este aprendizado deixado pelo meu pai, mais o que busquei de conhecimento pessoal e acadêmico, construí minha forma de ser e trabalhar, mas nunca esquecendo o principal, valores, respeito, disciplina caráter e consideração.
JP3 – Do aprendizado do pai, o que mais aproveita nos dias atuais?
SB – Meu pai, desde o início, sempre procurou ajudar as crianças e adultos que queriam aprender esta nova arte que chegou na cidade, era tudo muito novo, então quem tinha kimono, tudo bem, quem não tinha praticava sem kimono, se a academia tinha alguns recebidos de doações eram emprestados, mas que ninguém saísse de dentro da academia sem praticar por falta de dinheiro ou qualquer outra situação, meu pai sempre me dizia que a oportunidade deveria ser dado a todos que queriam aprender o judô. Desde o início, na década de 70, meu pai já fazia um trabalho aproximado com as escolas, estreitando mais o ensino-pedagógico, sempre pedia o boletim escolar dos alunos para ver e analisar o desempenho escolar de todos, inclusive e principalmente o meu, para que todos que passassem de ano escolar, iriam trocar de faixa, meu pai sempre queria que fossemos excelentes estudantes, não adiantava ser campeão de judô e reprovar na escola, a medalha e o título passam e ficam esquecidos, o conhecimento seguirá em nossas memórias para a vida. Desde então levo todos estes pontos para nossa associação e sempre muito elogiado pelos pais e responsáveis.
JP3 – Quantos praticantes tem a associação?
SB – Hoje temos aproximadamente 120 alunos entre crianças, jovens e adultos.
JP3 – Outra conquista que alcançou através da herança que o pai deixou?
SB – Minha carreira como árbitro inicia também por influência do meu pai, pois aos 23 anos com uma grave lesão de joelho precisei parar com as competições de alto rendimento e passei a me especializar e estudar mais sobre as regras e a arbitragem de judô. Hoje, sou árbitro internacional de judô, o mais alto nível de árbitro no mundo, sendo habilitado a participar de olimpíadas, paraolimpíadas e campeonatos mundiais.

