Dia da Mulher: Stéphane Domeneghini, a mente por trás dos maiores desafios da engenharia de prédios super altos no Brasil

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Em um país onde a ‘engenharia de super altos’ ainda é território de poucos especialistas, Stéphane Domeneghini, moradora de Itajaí, construiu um caminho improvável e técnico, até se tornar uma das principais referências no país – e no mundo – em projetos de grande complexidade.

Quando nasceu, não havia energia elétrica na casa. Um gerador funcionava apenas duas horas por dia, tempo suficiente para os banhos da família e algumas tarefas básicas. Décadas depois, Stéphane Domeneghini calcula estruturas que ultrapassam 500 metros de altura e participa da viabilização de alguns dos projetos mais complexos do planeta.

Stéphane, infância no interior do Rio Grande (Arquivo Pessoal)

Natural de Cerejeiras, no interior de Rondônia, ela cresceu entre a escassez material e a abundância de princípios. Filha de um mecânico e neta de migrantes do Sul que buscaram terra no Norte do país, aprendeu cedo sobre trabalho duro, responsabilidade e dignidade. A mãe era rígida com os estudos. O pai ensinou honestidade como patrimônio inegociável. O avô paterno, Hermes Domeneghini, plantou a semente mais profunda. Desde os sete anos, ele repetia: “Não se limite. Você é inteligente. Vá além.”

A infância, em Marau, no interior do Rio Grande do Sul, foi marcada por viagens pela região, ouvindo histórias sobre civilizações, imigração e resistência. A paixão pela história nasceu ali. O sonho era ser arqueóloga. Queria entender como os povos antigos atravessavam o tempo.

A engenharia não estava no plano inicial

Stéphane começou cursando Psicologia, movida pela curiosidade sobre o comportamento humano. Mas a inquietude intelectual pedia outro tipo de desafio. A afinidade com as ciências exatas sempre esteve presente. Um episódio na quinta série virou marco pessoal: após ficar doente por uma semana, tirou 5,7 em uma prova de matemática. A frustração se transformou em compromisso silencioso. Até o fim do Ensino Médio, tiraria apenas 10 na disciplina. E cumpriu.

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A disciplina virou método. O método virou identidade.

Migrou para Engenharia Elétrica. Ainda assim, sentia que faltava algo. Foi na Engenharia Civil que encontrou o ponto de convergência entre lógica, permanência e impacto histórico. Dentro dela, descobriu o que buscava na arqueologia: construir marcas que atravessam gerações.

Bolsista do ProUni na Univali, decidiu percorrer os mais de 530 quilômetros que separam o interior do Rio Grande do Sul do litoral catarinense. Não foi uma decisão solitária. Ao lado do então namorado e hoje marido, Gustavo, encontrou o incentivo e a segurança necessários para deixar para trás o que era conhecido e apostar no desconhecido.

Foi ele quem a impulsionou a sair do interior e enxergar que o mundo podia ser maior do que os limites geográficos da infância. Juntos, começaram ali a construção de um projeto de vida que também seria um projeto de futuro.

Chegou a Balneário Camboriú sem conhecer a cidade. Caminhava pela Avenida Atlântica observando os arranha-céus que redesenhavam o horizonte. Pareciam inalcançáveis para alguém que havia estudado em escola pública e crescido em uma casa sem luz elétrica. Mas, naquele deslocamento de mais de 500 quilômetros, ela não estava apenas mudando de endereço. Estava traçando uma história que, anos depois, entraria para a própria história da engenharia brasileira.

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Hoje, é uma das profissionais responsáveis por esse mesmo skyline.

Começou a carreira na Embraed no momento em que a cidade iniciava a corrida pelos edifícios acima de 150 metros. Destacou-se pela profundidade técnica e pela capacidade de integrar projetistas. Após três anos, migrou para a FG Empreendimentos, onde assumiu desafios que redefiniriam a verticalização brasileira.

Em frente ao One Tower, maior prédio residencial da América Latina, já entregue, desenvolvido por ela (Divulgação)

Participou diretamente da viabilização de projetos como Infinity Coast, Epic Tower e One Tower, este último, entregue como o prédio residencial mais alto da América Latina. São projetos em que reduzir andares era a solução mais simples. Sustentar altura exigia conhecimento técnico, coragem e precisão.

Foi nesse contexto que surgiu o maior desafio de sua trajetória. Mais do que um empreendimento, o Senna Tower passou a representar um ponto de inflexão pessoal e profissional. Não era apenas sobre construir mais alto. Era sobre construir diferente, sobre elevar o padrão da engenharia brasileira a um nível que até então parecia distante da nossa realidade.

“Existem projetos que mudam a trajetória de uma empresa. Mas o Senna Tower mudou a minha vida. Ele é maior do que concreto, maior do que cálculo, maior do que qualquer recorde. É um chamado para superar tudo o que já conhecemos sobre engenharia no Brasil. Cada etapa exige coragem para fazer diferente, para questionar limites, para acreditar que somos capazes de entregar algo que até então parecia impossível. É disruptivo porque nos tira da zona de conforto. É transformador porque nos coloca diante da responsabilidade de representar o país em um novo patamar técnico. E é profundamente desafiador porque, todos os dias, ele nos lembra que estamos construindo algo que precisa atravessar gerações. Não se trata apenas de altura. Trata-se de legado”, afirma.

Em um ambiente majoritariamente masculino, enfrentou resistência e preconceito. A resposta não foi confronto. Foi profundidade. 

“Se alguém questionasse um número, eu precisava saber a norma, a base, o cálculo e o porquê”, diz.

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Transformou domínio técnico em ferramenta de liderança. Hoje soma mais de 50 projetos acima de 150 metros assinados e estima ter participado de cerca de 200 empreendimentos ao longo da carreira.

Curiosamente, Stéphane tem medo de altura. Dois metros em uma escada são suficientes para provocar insegurança. Mas, ao colocar o capacete de obra, algo muda. O medo cede espaço à responsabilidade. Já subiu a mais de 200 metros para acompanhar soluções estruturais. No alto, o vento é forte, o ruído é constante, e cada decisão técnica carrega décadas de impacto futuro.

É nesse ponto que a engenheira encontra sua maior motivação.

Mãe de Heidi, de seis anos, Stéphane aprendeu que construir também é um verbo afetivo. Entre reuniões técnicas, visitas a obras e longas jornadas, existe uma razão silenciosa que organiza suas prioridades. 

“Tudo o que faço, cada hora dedicada e cada esforço silencioso, ganha sentido quando penso no dia em que minha filha Heidi verá tudo isso pronto. Nesse momento, desejo que ela entenda o porquê das minhas ausências, das longas jornadas e da entrega”, comenta.

Para ela, legado não é conceito abstrato. É responsabilidade concreta. 

“O que construo nasce devagar, como quem cultiva um jardim: cada gesto guarda a esperança de que, um dia, minha filha caminhe por entre essas raízes e descubra nelas a força tranquila de um legado feito para durar”, diz.

Seus projetos são calculados para resistir ao tempo. Mas sua motivação está no futuro. 

“Construir esse legado é o que me move, o que me inspira e o que faz meu coração vibrar,  porque sei que, no fim, será também a história dela. Almejo que ela cresça em um Brasil melhor, em uma sociedade mais inspiradora, onde possa ser parte desse futuro que juntos ajudamos a sonhar e construir”, acrescenta.

Atualmente, como diretora executiva da Talls Solutions, consultoria especializada em projetos complexos, prédios altos e super altos – que integra o Grupo FG -, lidera uma equipe direta de 21 profissionais e coordena mais de 60 projetistas. Em seu primeiro ano, a empresa expandiu atuação para quase todas as regiões do Brasil e América Latina, replicando um modelo baseado em engenharia de alta complexidade, integração multidisciplinar e visão estratégica.

O Brasil ainda é jovem no segmento de super altos. Cada projeto acima de 200 metros exige soluções customizadas, leitura minuciosa de normas, simulações estruturais avançadas e coordenação técnica rigorosa. Nesse cenário, o conhecimento acumulado se torna ativo estratégico. 

A história de Stéphane Domeneghini não é apenas sobre concreto e aço. É sobre mobilidade social, disciplina intelectual e visão de longo prazo. Sobre alguém que saiu de uma casa iluminada por gerador para participar da construção de estruturas que redefinem horizontes urbanos. E sobre uma mãe que constrói pensando não apenas na altura dos edifícios, mas na altura dos sonhos da filha.

“Porque, no fim, a engenharia pode erguer cidades. Mas é o legado que sustenta gerações”, completa.

Texto: Adriana Laffin

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