Texto: Renata Rutes
O palco do Teatro Municipal Bruno Nitz foi ocupado por protagonistas diferentes na quinta-feira (1º). Alguns já tinham experiência diante do público. Para outros, aquela seria a primeira apresentação de suas vidas. Em comum, todos tinham mais de 60 anos e habilidades, histórias ou sonhos para compartilhar.
Realizado justamente no Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, o Show de Talentos 60+ reuniu idosos de Balneário Camboriú em uma tarde com apresentações de música, dança, teatro, poesia e outras manifestações artísticas.
O evento foi promovido pela Secretaria da Pessoa Idosa (SPI), em parceria com o Instituto de Psicologia Sentir, que já desenvolve atividades com esse público no município.
Parte dos participantes levou ao Teatro Municipal o resultado das oficinas realizadas ao longo do projeto, enquanto outros aproveitaram a oportunidade para mostrar talentos que, em alguns casos, passaram décadas esperando por espaço.
E esse talvez tenha sido um dos principais pontos em comum entre as histórias ouvidas pelo Página 3: chegar à terceira idade não significou parar. Para muitos dos participantes, significou justamente encontrar tempo para começar.
Aos 75 anos, Vilma fala sobre realizar os sonhos que ficaram para depois

Vilma Santiago Pereira, de 75 anos, resumiu essa sensação ao falar sobre tudo aquilo que uma pessoa deixa pelo caminho enquanto trabalha, cria os filhos, cuida da família e atende às necessidades dos outros. Para ela, a terceira idade trouxe a possibilidade de olhar novamente para os próprios desejos.
“Eu penso que o idoso sempre teve sonhos que foi deixando de lado para realizar os sonhos da família, do filho, do neto, da filha. Agora a gente tem essa oportunidade maravilhosa, que é colocar em prática as coisas que a gente sonhava”, contou ao Página 3.
No caso de Vilma, uma dessas possibilidades está no teatro, atividade da qual participa e que, segundo ela, permite viver outras histórias e experiências.
“Eu acredito que o teatro é uma das artes em que você pode se transportar, pode viver outros sonhos. É muito bom”, disse.
A apresentação desta quinta também teve um significado especial para ela porque permitiu que o trabalho desenvolvido nas oficinas deixasse o espaço habitual das atividades e chegasse ao principal teatro da cidade.

“É a minha primeira oportunidade de sair das quatro paredes lá da Secretaria e colocar, de uma forma muito prazerosa, a oportunidade de outras pessoas aderirem à cultura, à alegria e ao divertimento. Isso é muito importante. E no Dia do Idoso ainda, foi muito especial a data”, afirmou.
Vilma também aproveitou para fazer um convite para quem já passou dos 60, mas ainda não conhece as atividades oferecidas na cidade.
“Que todo idoso saia de casa, venha participar dos eventos, venha conviver com o pessoal da Secretaria da Pessoa Idosa, porque são incríveis as oportunidades”, destacou.
Segundo ela, há opções para diferentes interesses, passando por atividades culturais e até pelo aprendizado de outros idiomas.
“São mais de 50 oficinas. Tem teatro, línguas, temos espanhol, temos francês! Olha que oportunidade. Tudo isso grátis. É um presente que nós temos que usufruir, não podemos deixar passar”, acrescentou.
Uma luta antiga para ocupar os palcos

Para Lenita Novaes, que possui uma longa trajetória ligada à cultura e aos palcos de Balneário Camboriú, acompanhar idosos ocupando o Teatro Municipal também trouxe lembranças de uma época em que os espaços e oportunidades eram muito diferentes.
Ela recordou ao Página 3 que chegou a manter um teatro em um galpão próximo ao Bairro das Nações e que a dificuldade financeira foi tamanha que precisou vender o próprio carro para pagar o aluguel.
Por isso, encontrar o Teatro Bruno Nitz cheio de pessoas idosas prontas para cantar, dançar, interpretar e declamar teve um sabor diferente.
“Eu estou muito feliz de ver todo mundo, umas meninas lindas. Umas vão dançar, outras vão cantar, outras vão declamar poesia”, contou.
Lenita também entrou na programação. Sua escolha foi a poesia, que precisaria declamar sentada por não conseguir permanecer muito tempo em pé. Mas, para ela, a apresentação individual era apenas uma parte do que estava acontecendo naquela tarde. O principal estava na maneira como cada participante se preparava para chegar ao palco.
“Olha só como aumenta a autoestima. A pessoa se valoriza, se arruma, vem, se apresenta. Ela é uma pessoa que existe, é respeitada e aplaudida. É importante demais”, afirmou.
Na avaliação de Lenita, oferecer atenção e oportunidades para a população idosa é tão necessário quanto desenvolver políticas para outras fases da vida.
“Eu saio de lá nas nuvens”

A dança também teve espaço no Show de Talentos, e a história de Odete Pereira mostra novamente como a terceira idade pode abrir portas para atividades que precisaram ser adiadas durante décadas. Odete contou ao Página 3 que dançar está entre as coisas que mais gosta de fazer.
“Para mim, a dança é maravilhosa. É uma coisa que me traz alegria, felicidade. Eu saio de lá nas nuvens. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na minha vida”, disse.
O curioso é que a oportunidade para se dedicar a essa paixão só apareceu mais tarde.
“Antes eu não podia. Eu tive que chegar na terceira idade para começar a ter tempo de poder fazer as coisas que a gente gosta”, contou.
Muitos benefícios com prazer, diz professor

O bailarino e professor Waldir Koral, que também participou da programação, destacou que os benefícios das atividades artísticas não ficam restritos à apresentação no palco.
“É um evento muito importante para estimular as pessoas idosas a fazerem uma atividade, a estarem envolvidas com algo que é muito prazeroso. Além disso, não só a dança, mas as artes ajudam em vários aspectos, tanto físicos como emocionais e sociais”, explicou.
Para ele, realizar o encontro justamente no Dia do Idoso tornou a proposta ainda mais significativa.
Para alguns, foi a primeira vez diante de uma plateia

A ideia de promover um festival para revelar e valorizar talentos da população 60+ não surgiu agora. Segundo Luciano Estevão, do Instituto Sentir, o projeto já era pensado havia algum tempo, mas encontrou neste ano as condições necessárias para sair do papel.
A concretização foi possível a partir de um projeto aprovado pelo Estado voltado à valorização e ao cuidado com os idosos. Ao longo da iniciativa, foram realizadas diversas oficinas culturais e surgiu a ideia de reunir o resultado desse trabalho em um festival.
A intenção é que a experiência desta quinta-feira não seja única. Segundo Luciano, já existe a perspectiva de transformar o Show de Talentos 60+ em uma programação anual, incorporando o festival ao calendário de atividades voltadas à população idosa.
A primeira edição, porém, teve uma particularidade difícil de repetir: para diversos participantes, foi a estreia absoluta em um palco.
“Muitos desses idosos que estão aqui hoje estão subindo em um palco pela primeira vez. É a primeira vez que vão se apresentar. E eu, como artista, sei como é difícil e honrado a gente pisar em um palco, fazer uma declamação, cantar uma música, enfim”, afirmou.
Os participantes das apresentações frequentam oficinas realizadas tanto na Secretaria da Pessoa Idosa quanto no Instituto Sentir. Para Luciano, levar esse trabalho para um equipamento cultural como o Teatro Municipal é também uma forma de mostrar à cidade aquilo que os idosos estão produzindo.
Teatro vai além de decorar um texto

Entre os trabalhos apresentados nesta quinta-feira esteve o desenvolvido nas oficinas de teatro. A responsável pelas atividades, Rita Duarte, explicou ao Página 3 que também ministra oficinas de contação de histórias e trabalha com públicos bastante diferentes.
As atividades acontecem na Secretaria da Pessoa Idosa e no Instituto Sentir, mas também chegam a associações e instituições de longa permanência.
E não existe uma fórmula única. Segundo Rita, o trabalho precisa ser adaptado às condições e aos interesses de cada grupo. Em instituições de longa permanência, por exemplo, montar uma peça e exigir que os participantes decorem textos nem sempre é a melhor alternativa. Nesses casos, entram a contação de histórias e os exercícios de memória.
“Eu conto histórias e puxo para eles. Pergunto do que eles lembram, quais eram as brincadeiras de infância, como era a casa onde moravam na infância, para trazer essas lembranças. Eu faço exercício de memória”, explicou.
Já os dois grupos que mantêm atividades de teatro na Secretaria da Pessoa Idosa e no Instituto Sentir puderam desenvolver trabalhos voltados à apresentação. A oficineira também utiliza jogos teatrais como estímulo cognitivo e explica aos participantes que a atividade exige atenção, memória, expressão e interação.
“Eu faço um trabalho de plasticidade neural com jogos teatrais. Elas são atraídas por isso, pela ginástica cerebral. O teatro trabalha muito essa plasticidade e ajuda, no mínimo, a retardar o envelhecimento do cérebro”, disse.
Para além dos aspectos cognitivos, ela percebe mudanças na forma como os participantes se enxergam.
“Isso é muito importante para a autoestima do idoso, para o ego. Eles ficam muito contentes e a gente também”, contou.
E existe uma regra dentro das oficinas: idade não é desculpa para fazer pela metade. Rita lembra de uma orientação que recebeu quando começou no teatro e que hoje leva aos alunos. “Quando eu comecei a fazer teatro, comecei no Sentir, com a Lenita, e ela sempre falava: ‘Você não faz teatro para velhinho’. A gente faz bem feito. A gente faz teatro como qualquer outro teatro. Então a gente sempre prima por isso”, afirmou.
Mais de 30 mil idosos vivem em Balneário Camboriú

O secretário da Pessoa Idosa de Balneário Camboriú, Claudir Maciel, destacou ao Página 3 que o Show de Talentos integra uma programação mais ampla realizada em torno do Dia do Idoso. Foram diferentes atividades ao longo da semana, com o festival desta quinta-feira sendo realizado em parceria com o Instituto Sentir, que já mantém trabalhos e oficinas junto à Secretaria.
Segundo Claudir, Balneário Camboriú possui mais de 30 mil idosos, uma parcela expressiva da população e que reúne pessoas com necessidades bastante distintas. Entre os desafios enfrentados pelo poder público está justamente alcançar quem permanece dentro de casa e afastado do convívio comunitário. “Balneário Camboriú tem mais de 30 mil idosos, com diversas necessidades. Precisamos acolhê-los, fazer com que saiam do isolamento social e temos a disposição de atender o máximo de idosos possível”, afirmou.
Nesse sentido, o secretário avalia que atividades como o Show de Talentos cumprem uma função que ultrapassa o entretenimento.
“O Show de Talentos traz para o convívio social, desperta habilidades e torna eles ainda mais felizes. É um privilégio morar em Balneário Camboriú e melhor ainda podendo aproveitar tudo o que a Secretaria da Pessoa Idosa oferece”, disse.
A realização do evento coincidiu ainda com outra ação voltada à terceira idade nesta quinta-feira: o avanço do projeto do Centro Dia, com a licitação para implantação do equipamento destinado ao atendimento da população idosa.
Programação continua com Baile 60+
E as atividades não terminam com o Show de Talentos. Na próxima quarta-feira (7), a Secretaria da Pessoa Idosa realiza o Baile 60+, no Ocean Place.
A programação contará ainda com a escolha do rei e da rainha 60+ de Balneário Camboriú, que terão a missão de representar a população idosa do município ao longo do próximo ano.

