
O cenário do mercado de trabalho para idosos no Brasil merece atenção e políticas específicas – conforme dados do Observatório dos Direitos Humanos (ObservaDH), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), em 2022, o país registrou um recorde de 4 milhões de pessoas idosas trabalhando na informalidade. Segundo o Governo Federal, a informalidade atinge pessoas idosas que perderam empregos formais, nunca tiveram carteira assinada, ou se aposentaram e retornaram ao mercado de trabalho para complementar a renda.
Em Santa Catarina, a população com mais de 60 anos é de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas, o que representa cerca de 16,1% da população total do estado.
Balneário Camboriú, a cidade com o metro quadrado mais caro do Brasil, tem grande parte de sua população formada por idosos – são mais de 30 mil, segundo a Secretaria da Pessoa Idosa. Diante do custo de vida alto, muitos idosos, mesmo aposentados, seguem trabalhando, mas muitos também enfrentam preconceito (etarismo) na hora de procurar um emprego.

Para melhorar o cenário, o deputado Júnior Cardoso entregou na quinta-feira (25) para o secretário da Pessoa Idosa de Balneário Camboriú, Claudir Maciel, o projeto de Lei estadual que institui o Programa Estadual de Incentivo à Contratação de Pessoas Idosas e à Criação de Centros de Convivências Profissionalizantes para Idosos no Estado de Santa Catarina. A ideia partiu de Claudir e foi transformada em Projeto de Lei Estadual.
Claudir Maciel, secretário da Pessoa Idosa, disse que quando o assunto é mercado de trabalho, é inegável, há preconceito.
“O idoso é visto como velhinho, que tem que ficar na cadeira de balanço, e isso não é verdade! Os idosos estão vivendo mais, com mais vigor, estão mais lúcidos, atualizados, podem preencher uma boa fatia de mão de obra para o mercado, basta que tenha diminuição do preconceito e crie-se incentivos. Essa lei estadual do deputado Júnior Cardoso tende a ser muito importante, vem para consolidar a ideia que o idoso está vivendo mais, tendo mais vigor e precisa entrar no mercado de trabalho de maneira mais formal”, afirmou.
O secretário disse que propôs também a criação do Selo Empresa Amiga do Idoso.
“Pretendemos investir nesse projeto. Já há lei municipal que trata de incentivos e valorização. Aos idosos que pedem, aproximamos imediatamente de soluções de saúde, de emprego. Ainda não é uma política intensiva, mas pretendemos criar. Queremos criar estímulo para incentivar que empresas criem vagas, precisamos incentivar essa relação de trabalho. Com o emprego cria-se valorização para o idoso e complemento na renda deles. Queremos criar também um fundo para financiar idosos que são pequenos empresários, como tem o programa juro zero no governo do estado, com concessão de microcrédito para os idosos”, disse.
Há idosos que não param de trabalhar porque gostam

A paixão pela profissão que exercem, incentiva que muitos idosos não parem de trabalhar, como é o caso de Marco Antônio Campesatto, de 68 anos, Gerente de Comunicação da AEGEA SC.
Ele conta que existem diferentes ciclos de vida de um profissional e cada idade tem uma posição estratégica dentro da empresa.
“Pessoas experientes trazem vantagens pela bagagem e vivência no mundo corporativo, assim como os jovens trazem agilidade em muitas atividades, lidam muito mais fácil com tecnologia. Uma pessoa de meia idade, entre 40 e 50 anos, é o profissional que está no ápice da produtividade. A diversidade competitiva de uma empresa se dá através do encaixe de cada perfil de acordo com a idade, colocando-os em posições estratégica na companhia”, analisa.
Campesatto conta que nunca pensou em parar de trabalhar. Apesar de estar aposentado há 15 anos, sempre teve vontade de seguir a carreira e o que mantém essa vontade é, segundo ele, os desafios, os projetos, o raciocínio para se chegar lá, de manter a mente ativa e produzindo.
“Isso mantém a cabeça bem. Quando estive parado logo após a aposentadoria, tive até momentos de depressão. Desta forma, os novos desafios e a convivência com as pessoas no dia a dia acaba me trazendo uma saúde mental melhor do que se eu estivesse parado”, conta.
Ele vê que se a pessoa se sente feliz parada e somente aproveitando a aposentadoria, ela pode eventualmente buscar alguma atividade na área de responsabilidade social, fazer alguma prática de esporte de duas a três vezes por semana, com menos intensidade.
“Assim mesmo ela vai conseguir se manter, vamos dizer assim, com uma atividade mental e física importante para a terceira idade. O conselho que eu daria é a pessoa seguir o seu coração. Se a pessoa acha que ficar parado é melhor, tudo bem. Mas se acha que deve trabalhar em alguma atividade menos intensa, também pode e sempre vai conseguir alguma colocação, né? Há várias instituições que precisam de voluntários e que poderão ser muito beneficiadas com pessoas dispostas a se manterem ativas”, completa.
RH defende importância de empresas contratarem idosos

Jennifer Rosânia da Silva, analista de gestão, apoia os RHs da Regional do Grupo Pereira em Balneário Camboriú – “Hoje, 16% do total de colaboradores do Grupo Pereira no Brasil é 50+ (média muito acima do mercado, que costuma ser de 3 a no máximo 5%). Eu acho que é um projeto muito bacana do Fort [investir na contratação de idosos] porque cada vez mais os incluímos no nosso ambiente de trabalho. Eles têm experiência, nós aprendemos com eles… é uma troca de conhecimento e nos ajudamos. Eles vêm com bastante depoimento de não querer ficar sozinho em casa, além de ser uma renda a mais e ocupar a mente. Eles se sentem valorizados por estar no ambiente de trabalho. Eu penso que as empresas precisam ter esse olhar para eles, não só para os aprendizes ou para os adolescentes, ou até mesmo para homens e mulheres da idade de 30 a 40 anos. Eu acho que é preciso contratar cada vez mais, os 50+, acima dos 60, porque eles ajudam, colaboram com o andamento das funções. Os idosos se sentem muito gratos, ficam felizes, trazem até presente para nós, pois realmente muitos nos falam que estavam procurando emprego e tinham dificuldade. Quando abrimos vagas e os idosos procuram, geralmente damos preferência para eles”.
Idosos destacam a importância da oportunidade de trabalho

José Luiz do Santos, 73 anos, trabalha juntando os carrinhos no estacionamento do Fort Atacadista – “Eu sou gaúcho, lá no Rio Grande do Sul eu trabalhava com plantação de arroz. Quando vim para Balneário, há seis anos, comecei a trabalhar aqui no Fort. Foi o único que me aceitou. Eu estive em outro mercado, mas disseram que não pegavam idosos, aí eu vim pra cá. Infelizmente tem muitos idosos que falam que não conseguem vaga, mas eu consegui e sou feliz da vida. Eu gosto de trabalhar, só trabalho juntando carrinhos, é o meu serviço aqui e é bom. É bom para a saúde também, eu caminho bastante, converso com as pessoas. Balneário é uma cidade boa de se viver, mas está muito caro os aluguéis, né? Eu tenho que trabalhar mais por causa do aluguel. Eu sou aposentado, e busco essa renda extra para poder cobrir o aluguel, mas eu gosto de trabalhar também. Não é só por necessidade, é porque gosto de trabalhar mesmo, sempre trabalhei, desde os meus 17 anos. Vejo que é muito positivo trabalhar, porque a gente fica em casa e fica com a cabeça vazia. E você vai ficando doido de ficar em casa fechado… O trabalho ocupa a cabeça. O idoso que é sadio e gosta de trabalhar, não precisa ficar parado. Eu sou bom de trabalhar e graças a Deus sou bem sadio, nunca tive nada, só me operei da vesícula, mas estou ótimo e vou continuar trabalhando até quando o senhor Pereira (dono do Fort) me aguentar aqui (risos)”.

José Antônio Mozart, 69 anos, operador de caixa no Fort – “Trabalho no Fort há quase cinco anos. Eu sou aposentado pela Celesc, trabalhei quase 30 anos na Celesc, e agora em mercado fazem 11 anos que trabalho. Eu não tenho problema em mudar de serviço. Eu sempre me adapto bem ao que eu faço e consigo gostar daquilo que eu faço. É um complemento na renda, mas eu gosto bastante. Várias vezes, lá atrás, tentei em algumas empresas e não consegui emprego, aí no Fort me acolheram. Foi um acolhimento bom e necessário. É uma empresa boa para trabalhar. Trabalho também com os mais jovens e é bom, não tem problema. A gente aprende e ensina. Acho que os idosos vivem bem em Balneário, apesar de ser uma cidade cara. Sei que existe a Secretaria do Idoso, mas eu não conheço ainda. Moro em Balneário há 20 anos, nasci em Taió, trabalhei em Rio do Sul mais 20 anos e estou aqui há 20. Me mudei para Balneário para não trabalhar mais, mas depois necessitei e voltei para o mercado de trabalho”.

