De alvo de bullying a campeã pan-americana: a trajetória da brasileira Valentina Didjurgeit Meliga nos EUA

Aos 14 anos, filha do faixa-preta Karl Meliga, venceu o Pan Kids da IBJJF, em Orlando, considerado o maior campeonato infanto juvenil de jiu-jitsu do mundo, e foi promovida de faixa no pódio

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A atleta brasileira Valentina Didjurgeit Meliga, 14 anos, natural de Balneário Camboriú, sagrou-se campeã pan-americana de jiu-jitsu na sexta-feira (24), em Orlando, na Flórida, após vencer três lutas na divisão Teen 2 do Pan Kids da IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation). A adversária da estreia não compareceu ao combate. Como a IBJJF não realiza campeonato mundial nas categorias infanto juvenis, o Pan-Americano é considerado o maior e mais importante torneio kids de jiu-jitsu do planeta.

Patrocinada pela Mormaii, marca catarinense como ela, e representando a equipe Marco Nascimento BJJ, da Califórnia, Valentina ainda recebeu no pódio a promoção da faixa cinza para a faixa amarela, assim como o pai, Karl, que em 2018 foi promovido à faixa-preta no pódio do Campeonato Sul-Americano.

Divulgação
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Desde 2025, Valentina vem se destacando no cenário internacional, quando foi vice-campeã do Campeonato Nacional Americano, vice-campeã pan-americana e fechou o ano como número 2 do ranking mundial da IBJJF em sua categoria. Este ano, repetiu o vice-campeonato nacional americano antes de conquistar o ouro no Pan.

A revanche da semifinal

Na semi final nacional em Las Vegas 2026 (Divulgação)
Na semi final nacional em Las Vegas 2026 (Divulgação)

O ouro em Orlando teve sabor especial. Na semifinal, Valentina reencontrou a adversária para quem havia perdido a final do Nacional Americano apenas três semanas antes, em Las Vegas, uma derrota dramática: a brasileira vencia a luta até os seis segundos finais, quando um erro lhe custou dois pontos e o título, decidido no detalhe.

O retrospecto entre as duas estava empatado, já que Valentina havia superado a mesma rival nas quartas de final do Pan de 2025. Desta vez, com a vaga na decisão em jogo, Valentina dominou o combate do início ao fim e venceu com autoridade, antes de confirmar o título na final.

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Do bullying ao tatame

A família Meliga deixou Balneário Camboriú no final de 2022 rumo ao Vale do Silício, na Califórnia, em busca de novas oportunidades. A adaptação, porém, foi dura.

Recém-chegada, sem falar inglês, Valentina passou a sofrer episódios de racismo e agressões verbais na escola por ser latina.

A situação levou a família a registrar três boletins de ocorrência, e por diversas vezes eles consideraram voltar ao Brasil.

No terceiro episódio, dois meninos tentaram agredi-la fisicamente. Foi ali que Valentina procurou o pai, faixa-preta com mais de 20 anos de jiu-jitsu, e disse que queria aprender a lutar.

"O jiu-jitsu não existe só para formar campeões. O objetivo do esporte é transformar a pessoa, fazer dela um grande cidadão dentro e fora do tatame. É confiança, segurança, persistência, resiliência. Foi isso que o esporte devolveu para a Valentina", afirma Karl, que nunca havia incentivado a filha a lutar. "Sempre deixei ela livre para escolher. A pior coisa que existe é forçar uma criança a fazer algo", disse.

A evolução foi imediata. Com apenas dois meses de treino, Valentina pediu para competir. Em sua estreia, num torneio local que misturava meninos e meninas, venceu um menino com larga vantagem de pontos e terminou o evento como campeã.

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Sobre a experiência que a família viveu, relacionada a bullying que Valentina sofreu, Karl fez uma recomendação.

“Entre judô e jiu jitsu tenho 40 anos de tatame e posso garantir que é muito importante uma menina, uma adolescente, uma mulher fazer jiu jitsu para poder se defender desse tipo de agressão, porque ela consegue se desvencilhar daquela situação e pedir ajuda. É extremamente importante uma mulher saber fazer defesa pessoal e o jiu jitsu traz isso com excelência”, orientou.

Wrestling em Stanford e convite do high school

Para complementar o jiu-jitsu, Valentina passou a treinar wrestling, modalidade fortíssima nos Estados Unidos, no programa de base da Universidade Stanford, em Palo Alto. Na Califórnia, estado com o wrestling feminino mais forte do país, ela já é considerada atleta de elite na categoria de base e foi a terceira colocada no campeonato estadual.

O desempenho rendeu frutos: Valentina recebeu convites de colégios privados americanos por conta dos resultados esportivos. No mês que vem, ela inicia o high school e foi convidada a integrar a equipe de wrestling da Menlo-Atherton High School, que defenderá na próxima temporada, com treinos diários de três horas na escola. Nos eventos fora do calendário escolar, segue representando as categorias de base de Stanford.

Rotina de atleta de alto rendimento

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De segunda a sexta, Valentina acorda às 5h, prepara o próprio café e desce para a preparação física, que termina por volta das 7h20. Depois segue para a escola, onde estuda das 8h20 às 15h10. Ao sair, faz as tarefas escolares e vai direto para o treino: jiu-jitsu das 17h às 20h ou wrestling em Stanford das 18h30 às 20h30. Aos sábados, treina jiu-jitsu das 9h ao meio-dia; aos domingos, wrestling das 10h30 às 12h30.

A alimentação é acompanhada por nutricionista: Valentina leva a própria marmita para a escola, com dieta calculada para mantê-la na categoria de peso em que compete.

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Sonhos: Mundial, Olimpíada e universidade

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No jiu-jitsu, o sonho de Valentina é ser campeã mundial. No wrestling, ela persegue o objetivo maior de todo atleta olímpico: disputar os Jogos e conquistar uma medalha. Nos Estados Unidos, o wrestling também abre portas concretas — bolsas de estudo universitárias por mérito esportivo, um caminho que o sistema americano oferece de forma estruturada.

"Ainda estou escrevendo a minha história. Quando parece que cheguei ao meu limite, eu encontro 20% mais coração, 20% mais coragem, e sigo em frente", escreveu Valentina em suas redes sociais.

"Tenho orgulho das medalhas, mas tenho ainda mais orgulho de quem estou me tornando", acrescentou a campeã.

Mesmo do outro lado do continente, ela mantém vivo o vínculo com o Brasil.

"Cresci vendo meu pai treinar e competir com vocês. Vocês me inspiraram desde o primeiro dia e mesmo de longe, sei que estão torcendo por mim", escreveu a atleta em mensagem aos companheiros de equipe brasileiros.

O próximo capítulo já tem data: no início de setembro, pai e filha competem juntos em Las Vegas, no maior evento de jiu-jitsu do mundo, que reúne o Campeonato Mundial Master da IBJJF, disputado por Karl, e os torneios da Jiu-Jitsu Con, onde Valentina entra no tatame.

Sobre Karl Meliga

Valentina com o pai, seu professor e mestre (Divulgação)
Valentina com o pai, seu professor e mestre (Divulgação)

Karl Meliga é faixa-preta de jiu-jitsu com mais de 20 anos de prática. Antes, foi atleta de judô da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil), em Canoas (RS). Ao se mudar de Porto Alegre para Balneário Camboriú, em 2004, conheceu o jiu-jitsu na academia Company, então filiada à Alliance, e se apaixonou pelo esporte. Atualmente representa a Art and Soul Academy, equipe do professor Diogo Nascimento, de Balneário Camboriú.

Entre seus principais resultados estão os títulos de campeão brasileiro e campeão sul-americano, incluindo ouro duplo (peso e absoluto) no Sul-Americano Master, o vice-campeonato mundial Master da IBJJF (2021). Karl já ocupou o 1º lugar do ranking nacional da CBJJ (2022) e figurou entre os primeiros colocados do ranking internacional da IBJJF em sua categoria. Hoje atua como treinador na região de Palo Alto, na Califórnia.

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