Papa exalta democracia, sustentabilidade e saúde pública no Uruguai, primeira parada de visita à América do Sul

O giro inclui também Argentina e Peru, país no qual o pontífice viveu por quase 20 anos.

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Carta sem assinatura traz acusações contra o diretor-geral da Secretaria de Turismo que nega

Laurindo negou as acusações, questionou a autoria da carta e criticou a divulgação de alegações sem identificação dos responsáveis, descrição de episódios ou apresentação de provas.

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MONTEVIDÉU, URUGUAI (FOLHAPRESS) – O papa Leão 14 exaltou a democracia e as políticas de sustentabilidade do Uruguai em seu primeiro discurso da viagem de 12 dias à América do Sul, onde chegou na tarde desta sexta-feira (6). O giro inclui também Argentina e Peru, país no qual o pontífice viveu por quase 20 anos.

“Em 2025, completam-se 40 anos ininterruptos de democracia no Uruguai, durante os quais, por decisão dos cidadãos, se sucederam diferentes governos”, afirmou Leão na Praça da Independência, primeira parada do líder religioso após ser recebido por Yamandú Orsi, presidente uruguaio, no Aeroporto Internacional Carrasco, na região de Montevidéu.

Citando o antecessor Francisco, que colocou a questão ambiental no centro de seu papado, o pontífice elogiou também os esforços de preservação ambiental do país. “Nas últimas décadas, o Uruguai transformou profundamente a sua matriz de produção de energia elétrica, que hoje se baseia quase inteiramente em fontes renováveis”, disse ele.

O pontífice de 71 anos saiu pouco depois das 7h de Roma e desembarcou por volta das 16h20 na capital desse país de 3,5 milhões de habitantes -o mais secularizado da América Latina, região que é lar da maior população de católicos do mundo.

Antes do pouso, a bordo do avião que carrega sua comitiva e jornalistas, Leão 14 disse que se sente “bastante bem” após a cirurgia pulmonar realizada no mês passado para a remoção de câncer. O papa afirmou também que a sua experiência como paciente reforçou sua crença na saúde como um direito humano.

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“Sei que algumas pessoas duvidavam da realização desta viagem”, disse Leão sobre a turnê por três países, com cerca de 50 eventos em dez cidades.

“Confesso que, desde o primeiro dia, não tive dúvidas e estava convencido de que esta viagem deveria acontecer”, disse ele. “Estou muito feliz em dizer, graças a Deus e à maravilhosa assistência médica, que estou aqui hoje, e acredito que bastante bem.”

O assunto foi retomado no discurso na Praça da Independência. “Esta experiência levou-me a pensar em tantos homens e mulheres que carecem dos meios necessários para obter um diagnóstico adequado ou receber os tratamentos de que precisam. Garantir que os cuidados de saúde estejam ao alcance de todas as pessoas, independentemente dos seus recursos, é uma responsabilidade que interpela toda a sociedade”, afirmou.

Conforme esperado, ele criticou o aborto, que, no Uruguai, pode ser realizado por decisão da mulher até a 12ª semana de gestação desde 2012. “Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo. A sua dependência absoluta da mãe não diminui a dignidade que lhe é própria nem a proteção que merece”, afirmou.

As mensagens políticas de Leão são sutis, seguindo a cartilha da Igreja Católica. Ainda dentro do voo, por exemplo, o pontífice foi convidado por jornalistas a comentar o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA, nas quais ele votou por correio. Questionado sobre o caso do Texas, onde os democratas conquistaram o governo e uma vaga no Senado dos EUA, o papa afirmou que não tinha comentários a fazer.

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“Tenho orgulho de ser americano e de exercer esse direito”, limitou-se a dizer. Não há registro de que outros papas tenham votado em eleições.

Antes que Leão falasse na praça, o presidente Orsi desejou boas-vindas ao papa. “Estamos cientes da tarefa social da Igreja e devemos ser gratos. O que os cristãos fizeram e fazem nos bairros, nas prisões, na educação e por meio dela -bem como o refúgio e o acompanhamento que a Igreja ofereceu a tantos compatriotas em tempos de ditadura- são um exemplo claro dessa vocação”, afirmou.

Milhares de uruguaios já estavam ali no momento em que o avião do papa pousou, e a Catedral Metropolitana, a três quarteirões, badalou seu sino para anunciar a chegada do pontífice. A multidão, no entanto, não preenchia a principal praça do país, e os mais de dez banheiros químicos instalados para o evento não tinham filas.

Os fiéis dividiam espaço com grandes estruturas para imprensa, representada por veículos de todo o mundo, e vendedores ambulantes, que aproveitaram o evento para comercializar lanches, terços, camisetas com o rosto de Leão e bandeiras do Vaticano.

Leão vai encontrar um Uruguai bastante diferente daquele que recebeu João Paulo 2º em 1988, na última visita papal ao Uruguai antes da que se iniciou nesta sexta.

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Em 1990, cerca de 66% se identificavam como católicos, 2%, como protestantes e outros 2%, como judeus, de acordo com um estudo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Os 30% restantes professavam outra ou nenhuma religião -o que já era um índice alto para a época, quando mais de 83% da população do Brasil, por exemplo, era formada por católicos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Atualmente, o Uruguai é o único país da região sem maioria cristã, de acordo com o Pew Research Center. Uma pesquisa divulgada em agosto deste ano pela consultora Cifra mostra que a porção de católicos foi para 32,5%, sendo 23,7% que se consideram não praticantes. Agnósticos ou ateus, por sua vez, representam 28,2% da população.

Carlos Eduardo La Paz, 82, era um dos fiéis que tentava ver o líder religioso, assim como fez em 1988.

“Foi algo extraordinário para o nosso país. É o representante de Deus na Terra”, diz ele, que conseguiu chegar perto de João Paulo 2º apenas em Florida, quando ele visitou a Virgem dos Trinta e Três e consagrou a santa como padroeira do Uruguai. A cidade também está no roteiro de Leão.

“Eu acho que a Igreja Católica perdeu um pouco a presença com o povo. Está um pouco voltada somente para ela mesma, não se abre”, diz La Paz. “Quando eu era criança, a igreja estava cheia. A Missa do Galo era impressionante, e era à meia-noite.”

O caráter secular do Uruguai remonta ao início do século 20, quando José Batlle y Ordóñez, presidente de 1903 a 1907 e de 1911 a 1915, levou a cabo reformas que moldaram a identidade laica do país. Apoiado por movimentos que defendiam a separação da Igreja e do Estado desde o século 19, seu governo retirou crucifixos dos hospitais públicos e eliminou o ensino religioso das escolas.

Em 1919, a Constituição do país já determinava que “todos os cultos religiosos são livres” e que “o Estado não apoia nenhuma religião”.

Mais de um século depois, porém, os limites entre religião e Estado continuam gerando debates. Em março, distintas forças políticas enviaram uma carta ao cardeal Daniel Sturla convidando Leão para falar na Assembleia Geral durante a sua visita ao Uruguai -o que, previsivelmente, suscitou controvérsia.

“Esta casa é a casa da democracia uruguaia. É a única sede do Estado uruguaio onde estão representados todos os partidos políticos, todas as formas de pensar e todas as crenças”, afirmou o senador Javier García ao justificar a iniciativa em junho, logo após o pontífice discursar no Congresso da Espanha.

“Uma mensagem de paz emitida a partir do Uruguai possui uma força que talvez não tivesse se fosse emitida de outros lugares do mundo.”

De acordo com pesquisa de agosto da Cifra, 58% da população estava de acordo com a visita do papa aos legisladores, enquanto 25% rejeitavam a ideia.

O Vaticano, no entanto, descartou a possibilidade. “Houve uma certa polêmica sobre a possibilidade de o papa visitar o Parlamento”, afirmou o cardeal Sturla a uma rádio em setembro.

“A Santa Sé, enquanto tal, não tem interesse em que o papa visite os diversos parlamentos. Ele o fez na Espanha, como uma exceção, mas não é comum que ele visite parlamentos.”

A visita do papa será oficial, não de Estado -as primeiras são realizadas por chefes de Estado e de governo, caso do pontífice, sem visita aos Poderes Legislativo e Judiciário, de acordo com o regulamento que define viagens do tipo.

Mais recentemente, em outubro, tais divergências ressurgiram na política uruguaia, quando legisladores se juntaram para pedir a iluminação do Parlamento com as cores do Vaticano. Na última segunda, o presidente da Câmara de Representantes e opositor do atual governo de esquerda, Rodrigo Goñi Reyes, reafirmou o pedido em um vídeo publicado em suas redes sociais.

“Viola a laicidade”, reagiu o deputado Fernando Amado na ocasião. “Estaremos aqui para lembrá-lo de que a laicidade não é um assunto esquecido. E de que nossas instituições republicanas são honradas e respeitadas não apenas com palavras, mas com atos.”

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