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Balneário Camboriú
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Separação Antes do Combinado (Como diria Boldrin*)

Por Ataíde Tatá Ribeiro

PRÓLOGO

      Joaquim José do Nascimento Paixão, 89 anos, é meu avô.

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      No começo do mês de dezembro de 2015, o telefone tocou em casa, já tarde da noite.

      Era ele.

      Foi surpresa para mim ele saber que eu estava prestes a entrar em férias do meu trabalho em São Paulo.

      Convidou-me para passar uns dias com ele em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Mais intrigado fiquei quando ele pediu que eu fosse sozinho, pois queria ter uma longa conversa comigo.

      Adoro o meu avô e de pronto aceitei o convite adiando os planos que tinha  para minhas férias com a família. 

     Tentei saber qual seria o assunto da tal conversa mas ele foi firme na resposta: — Eu preciso de sua ajuda e por enquanto este é um assunto nosso, entendeu?

     Nem preciso dizer que a partir deste telefonema não mais dormi direito até o dia em que fiquei sabendo do que se tratava. Respirei aliviado. Eu poderia sim ajudar.

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     Na sacada do apartamento situado na Avenida Atlântica em Balneário Camboriú fiz a clássica pergunta: —Vô, como posso ajudar?

     —Como jornalista e como o escritor da família.    

      Tomou-me pelo braço e, na sala de estar, sentamo-nos em duas cadeiras de balanço e ele falou-me o seguinte:—Sua vó Joana e eu fizemos um juramento. Se ela morresse primeiro, eu escreveria a história de nosso amor, como na música Nuestro Juramento que você conhece. Quero que você me ajude a cumprir a promessa. A Dulce está viajando. Podemos ficar à vontade.

     Fomos até um dos quartos do apartamento que é usado como escritório.

     Deparei-me com uma profusão de objetos relacionados com a vida de Joana e Joaquim: álbuns de fotografias, diplomas, cartas, certidões de registro civil, discos, vitrola, cartazes de espetáculos de teatro, de casas noturnas, de restaurantes, malas com decalques de hotéis, etc, etc.. Tudo organizado para facilitar eventual pesquisa.

     Falou o avô:—O material de pesquisa está aí. A fonte de informação sou eu, o velho Joaquim Paixão. Vamos começar?

     Durante oito dias trabalhamos muito; muito mesmo. Conversamos muito; muito mesmo. As conversas mais agradáveis ocorreram em longas caminhadas pela praia. Pés descalços, peitos abertos e almas desnudadas.

     Voltei para São Paulo e deu tempo ainda de tirar uma semana de férias com a família. Nas madrugadas escrevi “SEPARAÇÃO ANTES DO COMBINADO, como diria Boldrin”.

     Por email, mandei o texto para o Vô Joaquim. Parece que ele gostou.

     Depois de inúmeros ajustes e correções, ele sentenciou: —Vamos fazer uma edição de 200 livretos. Pode ser nessas gráficas expressas. A distribuição será entre parentes e amigos. Muita gente já sabe desta história, mas não em detalhes. Vamos publicar somente o tal de Desfecho 2 da história que você escreveu.

     — Cumprir uma promessa; honrar um juramento. É bom demais. Estou feliz.

     — Eu também Vô, por ter te ajudado.

     — Obrigado meu neto.

FIM DE PROSA. FIM DE PRÓLOGO.

O autor 

SEPARAÇÃO ANTES DO COMBINADO, como diria Boldrin

      Joaquim dormia.

      No meio da tarde Joaquim dormia.

      Não em um leito.

      Em uma cadeira de balanço ele dormia. 

      O quase imperceptível movimento da cadeira de balanço, feita de madeira vergada, parecia refletir os pequenos espasmos no rosto de Joaquim.

       Em tempos de alegria de um passado não muito distante, brincava-se na família que esta sim era uma cadeira para velhos, pois um pequeno embalo facilitava a quem nela estivesse sentado a se colocar de pé.  Este móvel, de estilo europeu, com espaldar e assento de palhinha natural ainda hoje é fabricado em terras gaúchas.

      Na casa de cada um dos filhos, filhas, netos e netas, existia uma cadeira igual a esta. Foi presente de Joaquim em datas festivas.  Ele dizia que o presente era um alerta: — Uma boa parte de nossas vidas ficamos sentados ou deitados; então fiquem atentos na hora da escolha de colchões, sofás, poltronas, cadeiras, bancos, etc. — O repouso não se efetiva quando estamos de pé..

      — Coisas de Joaquim dizia Joana imitando um personagem de novela. Mas o que se falava, à boca pequena, era que “o velho quer mesmo é garantir o seu próprio conforto quando em visita aos de sua prole”.

       Joaquim sonhava dentro de um sono agitado. Nos últimos meses, o sono parecia já não mais descansar o corpo do velho guerreiro; acordava indisposto, desanimado e com uma secura constante na garganta. 

      Também pudera, doze tipos de medicamentos  faziam parte de seu cardápio diário incluindo calmantes e indutores do sono.

      Às vezes ao acordar lembrava-se do conteúdo dos sonhos em que sempre estava presente a figura de Joana, a sua Joana.

      Nesta tarde, acordou com os olhos marejados de lágrimas; continuou sentado e de olhos fechados.  O movimento da cadeira não vinha mais da inquietação muscular de sua face; sua vontade impulsionava lentamente o móvel amigo e companheiro. 

      Ele se lembrou com detalhes do sonho sonhado e mentalmente ligou a projeção de um filme não editado: como se fora um copião. Em meio a uma névoa iam sendo apresentadas sequencias de cenas esparsas, um ontem narrado sem ordem cronológica. 

      Cenas de um casamento: Em 1954: o casório; ele, bancário com vinte anos; ela com dezessete anos e já professora primária. Paixão antiga: conheceram-se ainda crianças que brincavam dizendo um para o outro: — um dia, eu ainda vou me casar com você.

      Cenas de uma família: quatro filhos sendo duas mulheres e dois homens. Alegria no nascimento de cada um deles e tristeza na morte do caçula em um acidente de carro. Casamento dos filhos e a doce sensação de ser chamado de avô e de bisavô. A primeira viagem à Europa, a primeira viagem à Europa em grupo: Joana e

Joaquim e filhos. Joaquim na Universidade e se formando anos depois. Posse na Diretoria do Banco.  Viagens a Buenos Aires.  Os filhos calouros na faculdade e suas festas de formatura, Os carros da família, as casas que tiveram, o sitio de recreio, a fazenda em Mato Grosso. A conclusão da faculdade por Joana, depois de criados os filhos.  A aposentadoria sonhada e o almejado ócio criativo

      Cenas com os amigos: muito churrasco, muita festa de batizado, aniversário e casamento, muitos bailes, muitos bailes com orquestras famosas como Silvio Mazzuca, Hélcio Alvares, Cassino de Sevilha, memoráveis filmes, peças de teatro e shows quando se ia a São Paulo ou ao Rio. 

      Cenas de amor e de prazer: descobertas íntimas e o desejo incontido de dar ao outro o máximo de prazer e de se descobrir alvo de igual atenção e de ambos estarem envolvidos numa cumplicidade amorosa sem limites e comemorar secretamente esta ligação nas bodas de prata, ouro e diamante.

      Ainda na cadeira de balanço, os olhos estavam cerrados, mas forneciam lágrimas incontidas que escorriam pelo rosto de Joaquim que acompanhou o filme sonhado e agora meditava sobre a sua separação de Joana.

      Tinha agora oitenta anos e Joana setenta e sete, portanto estavam casados há sessenta anos e de repente chegou o momento da separação.

      Joana jazia morta em uma capela de velório, seis meses depois do aparecimento de um câncer que a devorou impiedosamente.

       Mas essa não era a separação que os dois tinham pacientemente combinado.

      Nem Joana e nem Joaquim tinham problemas sérios de saúde e combinaram que iriam viver, numa boa, até os cem anos de idade e aí sim, poderiam pensar em separação ou esperar a separação. Brincavam a sério.

       Os dois formavam um casal, no mínimo,  diferente ou peculiar. E assim  eram os seus planos; por exemplo: quando a idade média dos dois atingisse oitenta anos, eles se mudariam para um residencial para idosos, em Portugal. Assim, além de morarem na Europa, forçariam os filhos e netos a passarem alguns dias com eles, todos os anos. Também os amigos seriam bem vindos

      Essa ideia surgiu em uma das viagens que o casal fez a Portugal quando Joaquim, neto de português, procurou localizar parentes seus em Albufeira, na região do Algarve. Na cidade encontrou parentes distantes que os receberam muito bem e um deles levou os brasileiros para uma visita aos pais que moravam em um “residencial sênior” ou residencial para idosos ali mesmo na cidade.

      Que surpresas tiveram.

      O residencial situava-se em uma área verde de dez hectares nos arredores de Albufeira e à beira mar. 

       O casal, parentes de Joaquim, na faixa dos setenta e cinco anos, ali morava desde a inauguração do residencial; tinham comprado uma unidade do empreendimento que funcionava no sistema de flat/hotel, isto é, podiam alugar para terceiros através da operadora hoteleira. Depois de um período experimental decidiram fixar residência no local. Acostumaram-se e não queriam outra vida.

      Moravam em um apartamento espaçoso, nada de luxo, mas tudo muito funcional e equipado com toda a parafernália eletroeletrônica doméstica da vida moderna.

      O prédio onde estavam os apartamentos ligava-se à área de convívio social, com salão de refeições, de estar, de jogos e de fisioterapia. Em outra edificação interligada estavam as piscinas aquecidas e salão de fitness, o ambulatório médico, etc…

      Deu para notar a animação reinante; os clientes em sua maioria eram portugueses, espanhóis e italianos, Poucas pessoas moravam ali sozinhas; predominavam os casais.

      Desde esta visita, Joana sempre brincava, carregando no sotaque: — E aí, Quinzinho meu português, vais voltar para a terrinha, no fim da vida, como fez o seu avô? Aonde você for eu vou.

       Quinzinho era como ela o chamava, somente ela assim o tratava. O tratamento dele era “Bem ou meu bem ou Joana, meu bem” com poucas variações. 

       Com o casal de parentes de Albufeira desenvolveu-se uma boa e profícua amizade a ponto de motivar uma viagem dos portugueses ao Brasil. Foram hóspedes de Joana e Joaquim no apartamento de Balneário Camboriú SC onde moravam.

      O casal visitante trouxe um folder de um empreendimento semelhante ao residencial sênior onde eles moravam e localizado na mesma área de dez hectares. O empreendimento estaria concluído em dois anos.

      Examinando o folder, Joana e Joaquim entreolharam-se surpresos e começaram a rir, os portugueses só entenderem depois da explicação: dali a dois anos a idade média deles atingiria os oitenta anos. Foi preciso, é claro, um complemento na explicação.

      Duas semanas depois o casal Paixão era proprietário de duas unidades no Residencial Sênior Descobertas ainda em construção em Albufeira, Portugal.  Na expressão de Joana, um negócio sustentável: uma unidade para residência, outra para gerar renda para ajudar nas despesas no flat.

      Mesmo acordado, Joaquim assustou-se com um cutucão de sua bisneta de nove anos: — Bivô, bivô, tá na hora, tá na hora.

      — Na hora de que, meu bem?  Perguntou Joaquim

      — Da despedida da Bi, ela vai viajar para o Céu. Vamos, Bi, vamos.

      O bisavô, com um embalo na cadeira, colocou-se de pé, já estava de terno e gravata, pigarreou e foi conduzido pela mão da bisneta para juntar-se aos familiares que iriam à cerimonia final do velório de Joana. No relógio: 14,30h; o sepultamento estava marcado para as 16h.

      Conversa no dia anterior: — Pai, precisamos decidir com que roupa vamos vestir a Mãe para o enterro, falou a filha. Depois de pensar, respondeu Joaquim: — Roupa de dormir, 0aquele pijama, de malha, azul marinho com bolinhas brancas de que ela tanto gostava e, por favor, não coloque a minha querida para dormir o sono eterno com as mãos cruzadas sobre o peito. Não, ela gostava de dormir de lado e com um travesseiro entre os joelhos.

      Lógico que o pedido de Joaquim não foi considerado:  “coitado, está fora de si, esta é uma perda muito grande para ele.”; foi o que se ouviu ao redor.

      Joaquim havia estado no velório na noite passada e nem pode dar um beijo de despedida em sua Joana. O caixão estava lacrado e somente pelo vidro do recorte na tampa é que se podia ver o semblante de sua amada. O rosto esquelético mal lembrava as  feições de sua amada de seis meses atrás quando o espectro da morte com o ceifador em punho apareceu rondando sinistramente o lar,  doce lar, da família Paixão.

      Joaquim pensava, ali de pé junto ao caixão: Ah! Os seios de Joana. Os seios eram o ponto forte de seu corpo. Quando Joaquim os viu pela primeira vez ficou de boca aberta de perplexidade e de desejo. Dizia para ela que os seus seios eram o portal de entrada do paraíso e citando o poeta Murilo Mendes, sussurrava ao seu ouvido: — o mundo começa nos seios de Joana (Jandira no original). Joaquim se lembrou do prazer intenso de sua vida sexual com Joana; as brincadeiras, as doces provocações e a busca constante de novas sensações íntimas.

      Em uma das viagens a Buenos Aires, ouviram em uma boate alguém cantar uma música , um bolero de nome “Nuestro Juramento” cuja letra falava do amor entre duas pessoas que sobreviveria à morte de ambos e o que cada um faria após a morte do outro.

      O casal tanto gostou da música que a adotou como “a nossa música”

 Nuestro Juramento

No puedo verte triste porque me mata  tu carita de pena, mi dulce amor.  Me duele tanto el llanto que tu derramas  que se llena de angustia mi corazón. Yo sufro lo indecible si tu entristeces,  no quiero que la duda te haga llorar.  Hemos jurado amarnos hasta la muerte  y si los muertos aman,  después de muertos amarmos más. Si yo muero primero, es tu promesa,  sobre de mi cadaver dejar caer  todo el llanto que brote de tu tristeza  y que todos se enteren de tu querer. Si tu mueres primero, yo te prometo,  escribiré la historia de nuestro amor  y con toda el alma llena de sentimiento  la escribiré con sangre,  con tinta sangre del corazón.

      Já na capela mortuária do cemitério Jardim da Paz em Florianópolis, onde ocorreria o sepultamento, estava toda a família para se despedir de Joana e para receber as manifestações de solidariedade e de pêsames dos amigos que acorreram em grande número à cerimônia fúnebre.

       Os depoimentos que se seguiram reavivaram a lembrança dos ali presentes do quanto foi preciosa a vida de Joana e como a sua falta seria sentida.

       De repente ouvem-se acordes de um violão e um dos netos de Joaquim começa a cantar “Nuestro Juramento”; o cantor se aproxima do avô que o acompanha na música com a voz trêmula e embargada.

       No final, foram tantos os aplausos, foram tantos os abraços que as lágrimas pareciam inoportunas naquele ambiente. Joaquim, por um momento, viu-se abraçado com Joana dançando o bolero de suas vidas. As palmas eram para a orquestra que acabara de tocar “Nosso juramento”. Rápido foi o retorno à realidade: entre os seus braços Joana não estava.

       As atenções se voltam para Joaquim que fala algo meio que sem sentido: — Era o que eu tinha a dizer.

      Antecipou-se, certamente, a algum pedido para que ele dissesse alguma coisa sobre Joana.

       Descontando a passionalidade temática da música do casal, Joaquim cumpriu o prometido, pois a letra de Nosso Juramento diz em seu final “se você morrer primeiro eu lhe prometo: escreverei a história de nosso amor e com a alma cheia de sentimento, a escreverei com sangue, com o tinto sangue do coração”. 

      Ele contou para seu neto, o jornalista da família, a sua história de amor com  Joana e que ele a escrevesse em seu nome,  registrando que o casal tinha decidido antecipar a mudança para Portugal, pois a construção do Residencial ficara concluída trinta dias antes de Joana cair doente.   

       Chegando do cemitério, no quarto que provisoriamente ocupava na casa da filha, que morava em Florianópolis, o agora viúvo, tira do bolso do paletó um envelope sem endereçamento.

       Alguém, ao abraçá-lo no velório teria colocado o envelope em seu bolso. Sim! Sim!  Agora Joaquim se lembrava: Dulce, a melhor amiga de Joana, ao abraçá-lo na fila dos cumprimentos, disse-lhe alguma coisa sobre uma carta.

      Sim, foi a Dulce quem colocou a carta em meu bolso, concluiu Joaquim.

      Nervosamente, Joaquim abre o envelope rasgando a sua lateral e lê no topo do texto ” Quinzinho, meu amor”. Mesmo sem os óculos de grau reconhece a letra; era uma carta de Joana.

FAZ-SE NECESSÁRIO QUE, NESTE PONTO DA NARRATIVA, O AUTOR APRESENTE AO LEITOR O SEGUINTE:

A MORTE DE UM DOS CONJUGES EM CASAIS DE AVANÇADA IDADE É, COM ALGUMA FREQUENCIA, SEGUIDA DA MORTE DO OUTRO CONJUGE NOS PRIMEIROS ANOS DE VIUVEZ. 

EMBORA INSPIRADA EM FATOS DA VIDA, A HISTÓRIA DE JOAQUIM E JOANA É UMA PEÇA DE FICÇÃO.

VEIO AO AUTOR, ENTÃO, A IDÉIA DE APRESENTAR DOIS DESFECHOS PARA ESTE CONTO QUE FOI BASEADO EM UM CASAL QUE ACABOU DE CELEBRAR, EM MUITO BOAS CONDIÇÕES FÍSICAS E MENTAIS, AS TÃO SONHADAS BODAS DE DIAMANTE.

Desfecho 1

     Sim, foi a Dulce quem colocou a carta em meu bolso, concluiu Joaquim.

      Nervosamente, Joaquim abre o envelope rasgando-o na sua lateral e vê no topo do texto:” Quinzinho, meu amor”. Mesmo sem os óculos de grau, reconhece a letra; era uma carta de Joana.

      Joaquim sente as pernas fraquejarem, senta-se na beira da cama, procura desesperadamente os seus óculos de grau, não os encontra e é, neste instante, que a vida se estanca de repente para ele: morte súbita por um infarto agudo do miocárdio.

      Algum tempo depois, para verificar se tudo estava bem com o pai, a filha o encontra morto por sobre a cama e com a carta de Joana nas mãos.

      Mais tarde, em reunião íntima e revezando-se na leitura, os três filhos de Joana e Joaquim tomam conhecimento da mensagem de despedida da Mãe ao Pai. 

       — Quinzinho, meu amor

        Quando você estiver lendo esta carta já não estarei contigo fisicamente, mas espiritualmente nunca me separarei de ti e estarei à tua espera para continuarmos juntos na vida eterna.

        Sei que você não acredita em vida após a morte, mas fique sossegado que eu saberei te encontrar.

        Meu bem, a nossa vida em comum foi venturosa, temos filhos, genros, nora, netos e bisnetos maravilhosos. Deus, em sua suprema generosidade derramou sobre nós tanto amor que pudemos reparti-lo com os nossos entes queridos, com os nossos amigos e com nossos semelhantes. Ele nos deu força para superarmos a dor e os momentos difíceis que vivemos por ocasião da morte prematura de nosso filho.

        Deus, entretanto, sabe o que faz tirando-me a vida antes de realizarmos o nosso maior sonho: morrermos, bem velhinhos, com cem anos de idade ou mais rs, rs, rs,

       Eu sei, estou partindo antes do combinado, como diria o Boldrin.

        Sei também que você está triste e talvez até pensando que não suportará a dor.

        Quero, meu amor, te pedir a derradeira de suas incontáveis demonstrações de amor que fizeram de mim a mais feliz das mulheres sobre a terra.

        Quinzinho; quero que você execute o nosso Plano, agora acrescido da letra B. 

       Sim, o Plano B, porque o Plano A foi pro beleléu, rs,rs,rs.

       Você sempre se disse meio devagar porque eu pensava em tudo, cuidava de tudo, previa tudo.

       Isto não é verdade. Você só se deixava levar por caminhos de sua preferência e só concordava para me dar aquela força que eu sempre precisava para alimentar a minha vontade de acertar e de ir em frente. Era eu a carente e a indecisa em muitas ocasiões e aí você, discretamente, entrava em cena para me ajudar, sem que eu percebesse. Você viveu em mim durante sessenta  anos gloriosos.

        Nós nos completávamos. Formávamos, como diziam os amigos, um casal perfeito. Bem que a gente gostava de ouvir isso, lembra-se?

       Meu querido, eu te peço!

       Viva até os cem anos, conforme o combinado.

       Vá para o nosso Residencial Descobertas. Por lá já tens conhecidos e não faltará uma guitarra portuguesa para te acompanhar nos fados que você já canta e serás uma novidade cantando as músicas do Brasil que os portugueses tanto gostam.

       Volte ao esporte e à vida ao ar livre. O Algarve assim como Santa Catarina é uma terra abençoada. 

       Você tem boa saúde e deixe de usar este monte de remédios.

        Um detalhe importante: namore e se você encontrar uma boa mulher, viva com ela mais uma história de amor mas não permita que o chame de Quinzinho, rs, rs , rs.

        Desculpe falar assim com essa franqueza mas você não sabe viver sozinho. 

       Quanto aos nossos filhos; eu sei que o amor deles por você é imenso e cada um deles vai te oferecer moradia.

       Peço-lhe que não aceite, pois com o tempo, você vai entrar no famoso rodízio: dois ou três meses na casa de cada um deles.

       Eu te conheço; você nunca gostou de nenhuma espécie de rodízio e não será este o primeiro a te agradar. Tu és bem chatinho, Quinzinho. Meu adorado chatonildo.

       O fato de você não morar com seus filhos não diminuirá o amor entre vocês, mas não se esqueça de exigir uma visita anual da família à Albufeira. Enquanto você tiver disposição física,  venha à nossa terra para matar a saudade.

       Volto, agora, ao item mais delicado desta cartinha.

        “A solidão, como rói, a danada. Rói mais que rato em queijo parmesão” Assim falou o filósofo Adoniran Barbosa.

       Arrume uma companheira; não termine seus dias na solidão.

        E por falar em companheira, eu tenho um nome que preenche os requisitos por mim pensados. 

        Com o consentimento da mesma, indico o nome de minha melhor amiga, Dulce Splendore.  Não te sintas pressionado, por favor.

       Ela tem uma queda por você, eu sei.

        Não ligue para a diferença de idade. Tá na moda: vinte anos não são nada. O telefone e o e-mail dela estão na minha agenda.

        A esta altura do campeonato (rs, rs, rs) eu não posso e nem adianta ter ciúmes de você e seja lá o que Deus quiser e abençoar.

 O meu amor por ti e a esperança que tenhas uma vida venturosa serão como preces ao meu Deus.

       Beijos de amor da sempre tua

      Joana

      Depois da leitura, seguiu-se uma longa pausa de silêncio e lágrimas entre os três irmãos. 

      A opinião unânime foi que os pais continuariam juntos na Eternidade e que tinha sido sim, uma pena que o Pai não tenha tomado conhecimento do teor da carta da Mãe, pois seus óculos de grau não estavam junto à carta e sem eles nada de leitura.

      Uma pergunta não se calou: Será que a leitura por Joaquim da carta de Joana daria um rumo diferente a esta história de amor?

FIM

(sera?)

Desfecho  2

      Sim, foi a Dulce quem colocou a carta em meu bolso, concluiu Joaquim.

      Nervosamente, Joaquim abre o envelope rasgando-o na sua lateral e lê no topo do texto: ”Quinzinho, meu amor”. Mesmo sem os óculos de grau, reconhece a letra; era uma carta de Joana.

      Localiza seus óculos, senta-se na cadeira de balanço e inicia a leitura.

       — Quinzinho, meu amor. Quando você estiver lendo esta carta……..

      Ao término da leitura, Joaquim leva a carta à boca e sente, como por encanto, os lábios quentes e macios de Joana retribuindo a tudo o que pode conter um beijo de amor, paixão e ternura.

      Por diversas vezes relê a carta de Joana, detendo-se em um ponto ou outro; ora com um sorriso nos lábios, ora com uma lágrima furtiva no olhar.

      Por fim, com um embalo na cadeira, põe-se de pé, abre a porta envidraçada que dá para a varanda e, em voz baixa, diz para si mesmo: — Joaquim, e agora? O que é que você vai fazer de tua vida?

      A noite lá fora parece entender o grito silencioso de um ser humano no limiar de uma tomada de decisão de vida e o presenteia com o conforto de uma brisa fresca que enxuga as lágrimas no rosto de Joaquim que reflete agora uma serenidade repentina.

      Antes de se deitar, corta pela metade a dose do indutor do sono que toma todas as noites.

      Por três dias Joaquim fica na casa de sua filha em Florianópolis, passa por seu apartamento, onde morava com Joana, em Balneário Camboriú, somente para pegar roupas e os outros pertences.  Pelo Aeroporto de Navegantes embarca para São Paulo para passar uma temporada com seu irmão mais novo, solteirão e que mora sozinho.

      Ao se despedir da filha que o levara ao aeroporto, promete Joaquim mantê-la informada de tudo o que estiver se passando com ele. — Mas não se esqueça de avisar seus irmãos que o Pai quer se manter informado sobre a vida de vocês todos. É importante para mim. Vocês não são órfãos de pai e mãe, brincou Joaquim.

      Foi bom ter aceitado o convite do irmão solteirão (sessenta e oito), marchand e dono de uma galeria de arte das mais prestigiadas da capital.

      Ocupou uma das suítes do apartamento do irmão na zona nobre dos Jardins e surpreendentemente se adaptou à rotina da casa.

      Já no segundo dia de estadia de Joaquim no apartamento do irmão, uma cadeira Thonart de madeira vergada aparece em cena: era um presente de Joaquim ao anfitrião.

      Boêmio, o irmão dormia não antes das quatro horas da manhã; acordava por volta do meio-dia e lá pelas três da tarde é que almoçava num dos restaurantes chiques da região. 

       Depois da chegada de Joaquim, almoçavam juntos todos os dias e era aí que conversavam longamente. Isto acontecia também quando o irmão se preparava para sair para a “night” por volta das vinte e três horas. 

      Joaquim mostrou ao irmão a carta despedida de Joana; ele era a segunda pessoa a ler a missiva.

      O irmão que sempre gostara da cunhada sentenciou: — Mano, isto é amor de verdade; poucas pessoas são capazes de gestos assim. O que é que você está esperando? Dulce é o caminho indicado por quem te conhece talvez mais que você mesmo.

      — É uma situação tão estranha; um namoro sob encomenda da finada, não é fácil não, amigo. Respondeu Joaquim.

      — Ô meu! O irmão mais novo vai ensinar ao irmão mais velho como é que se ganha uma “mina”, provocou o paulistano.

      Propôs Joaquim: — Meu irmão, vamos fazer o seguinte. Enquanto você vai bolando aí uma estratégia de abordagem, eu vou cuidando da cicatrização deste meu peito ferido. Quando eu estiver em condições de combate, eu te aviso.

      — Combinado, meu irmão.

      Passados trinta dias desde a chegada de Joaquim, este chega para irmão e diz: — Véio, vamos mexer naquele assunto?

       — Opa, o leão acordou; falou o caçula. — O contato não pode ser telefônico pois este revela emoção e a conversa pode travar. Tem que ser via e-mail. Você tem o e-mail dela? Ótimo, vamos rascunhar um e-mail. Mano, o que tiver que ser, será.  Tá nervoso?

      —Tô uma pilha, cara. Olha só minha mão suando.

      — Vamo lá.

      De- jojonascimentopaixão@…

      Para- Dedulcesplendore@…

      Assunto- Carta de Joana

      — Olá, Dulce 

       — Quero agradecer o grande favor que vc fez sendo portadora da carta de despedida de Joana.

       — Já que vc foi, durante muitos anos, a melhor amiga de Joana, é possível, mas não provável, que vc não tenha conhecimento do teor da carta. Por isso, tomo a liberdade de enviar- em anexo- uma cópia da mesma. Você é a segunda pessoa a quem mostro a mensagem escrita por Joana. Somente o meu irmão em cuja casa eu estou hospedado aqui em São Paulo, é que tem conhecimento do assunto.

       — Se eu não conhecesse a mulher com quem vivi sessenta anos, eu estaria mais surpreso do que estou. Joana quer, depois de morta, continuar cuidando de mim. Isto me incomodava no início de nosso casamento, mas depois acabei me acostumando. 

       — Desculpe-me, mas tenho que saber o que você pensa da carta e de seu conteúdo.

       Abraços

       Joaquim

      — Ficou bom. Posso enviar? Pergunta o irmão.

      — Manda ver, mano. Brinca Joaquim imitando o jeito zona leste de falar.

      Lá foi e já chegou o e-mail no notebook de Dulce e no outro dia já tinha resposta.

      De- dedulcesplendore@…

      Para- jojonascimentopaixão@…

      Assunto- Carta de Joana

      — Caro Joaquim

       — Você sabe exatamente, como era especial a pessoa com quem vc esteve casado.

      — Ela era única, em tenacidade e persistência.

       — Esta carta foi escrita três meses depois de ela saber-se portadora de um câncer incurável. Ela temia morrer e vc não ficar sabendo de seus pleitos finais. Ela entendia que não poderia falar deste assunto com você.

       — Ela repetia para mim:– Entregue pessoalmente esta carta ao Joaquim após a minha morte.

      — Eu tive a infeliz ideia de fazer a entrega durante o velório, naquela confusão toda. Eu temi que você não tivesse me ouvido dizer que eu havia colocado no bolso de seu paletó, a carta de Joana. E se vc não esvaziasse os bolsos e o terno fosse para a lavanderia, etc.?

      — Foi uma agonia pensar que eu tinha falhado em minha missão; ainda bem que vi leu a carta.

      — Sim, eu tinha conhecimento da carta. 

       — Lógico que eu achei um absurdo ela planejar um futuro namoro entre nós. Mas ela queria porque queria e eu acabei concordando que ela escrevesse somente que eu tinha conhecimento de seu desejo. Só por que eu falei, um dia, que ela tinha um marido de ouro, ela colocou na carta que eu tinha uma queda por você. Pode?

       — No final, demos muitas risadas quando ela falava que vc iria descobrir um novo Portal do Paraiso (até hoje não entendi) e que, pelo menos deixaria o seu querido em boas mãos e não nas garras das periguetes de Balneário e que no futuro, nós dois (você e eu) lembraríamos dela como a nossa fada madrinha.

— Eu não sei se vc sabe, mas eu nasci e me casei em São Paulo. Tenho um monte de parentes por aí. Resolvi fazer uma visita à italianada. Estarei na Paulicéia Desvairada na próxima semana. Se vc quiser conversar pessoalmente comigo, me avise. Tá?

      — Abraço

      Dulce

      — Funcionou, mano, funcionou. Ela tá interessada. Ela vem aí, te prepara, coroa. Gritou o irmão ao saber da resposta de Joana.

      De-  dedulcesplendore@….

      Para- jojonascimentopaixão@…

      Assunto- Carta de Joana

      — Caro Joaquim,

       — Já estou em São Paulo, Vila Mariana, na casa de minha irmã mais velha. Telefone- 0XX1136485601 ou o meu celular 0XX47984796768.

       —Terei o maior prazer de falar com você, afinal vc é amigo de longa data e viúvo da melhor amiga que eu tive na vida.

      — Abraço        Dulce

      — Alô. Quero falar com Dulce, aqui é um amigo dela, Joaquim.

      — Dulcinha, é pra você !

      — Alô, é Dulce. Quem fala?

      — Aqui é o Joaquim, boa tarde.

       — Boa tarde, Joaquim. Quem bom que você ligou. Acabei de chegar da rua agorinha mesmo; fui encomendar uma missa para a nossa Joana. Vai ser amanhã às seis horas da tarde aqui na Igreja de Nossa Senhora da Saúde, Rua Domingos de Moraes perto da Estação Santa Cruz do Metrô. Eu gostaria que você viesse. Que tal?

      — Lógico, estarei aí.

      A conversa se estendeu sobre o friozinho de São Paulo, o barulho da cidade, sobre a vida cultural da capital, sobre os parentes, etc., etc.

      — Tchau, até amanhã.

      — Tchau, inté

      No dia seguinte, Dulce e Joaquim encontraram-se no local combinado e juntos assistiram a  Missa e no momento que o celebrante mencionou “pela alma de Joana Maria do Nascimento Paixão” os dois entreolharam-se e deram-se as mãos. Aquilo pareceu para ambos um bom sinal.

      Dulce tinha retorno marcado para Balneário Camboriú, mas foi adiando, adiando e se passou um mês desde a sua chegada a São Paulo.

      O irmão perdeu a companhia de Joaquim no almoço e só ficavam sabendo das novidades um do outro, á noite. Quando um chegava, o outro estava se preparando para sair.

      Dulce, paulistana da gema, conhecia muito bem a sua cidade e seus segredos. Pelo labirinto da metrópole se movimentava com desenvoltura e entusiasmo.

       Em um mês inteiro fizeram companhia um ao outro, inclusive aos domingos sendo que em um deles a família de Dulce se reuniu para um almoço á italiana.  Cinquenta pessoas entre adultos e crianças.

       Cinema, teatro, salões de baile, longas conversas, confidências, muitas confidências foram os ingredientes deste inicio de relacionamento em que Dulce e Joaquim pareciam apostar.

       O irmão, autonomeado conselheiro e estrategista sentimental, achou que era a hora de saber as quantas andavam as coisas no coração de Joaquim e perguntou: — E aí mano, pronto pra sair detrás da moita?

       Joaquim entendeu a brincadeira, sorveu um gole de vinho da taça que tinha na mão, respondeu: — Véio, eu nunca pensei, na minha existência que pudesse viver o que vivi nestes últimos  meses.

       Continuou — seis meses acompanhando a doença de Joana e vendo a minha companheira por sessenta anos, se definhar sem esperanças de cura; depois vieram a sua morte esperada, o vazio e a vontade de morrer também. Aí, apareceu a tal carta, contendo, a principio, propostas absurdas. Conheci Dulce. Sim, porque até então, tinha sido Joana quem tivera este privilégio. Agora entendo porque na carta está escrito que Dulce “preenche os requisitos por mim pensados”. Apareceu então, um certo alguém dizendo que Joana me conhecia melhor que eu mesmo e que o caminho indicado por ela era a própria Dulce. Este alguém me encorajou, me ajudou, teve paciência comigo e está agora na minha frente. — Muito obrigado, meu irmão.

      Que cena bonita e comovente; dois irmãos se abraçando e o mais novo procurando, com o lenço enxugar as lágrimas do mais velho que não parava de chorar.

     Refeito do chororô, Joaquim contou ao irmão como andavam as coisas com Dulce.

      A pedido de Dulce eles entraram em uma Igreja e leram juntos  e em voz baixa um recado à Joana: “Que seja feita a sua vontade, Joana. Depois de nos conhecermos melhor, chegamos à conclusão que vale a pena, sim, seguir as pedras do caminho que você indicou para as nossas vidas e que Deus nos abençoe a todos

.”

Continua Joaquim, saindo detrás da moita e falando ao irmão: –Viajaremos amanhã para Lisboa e de lá para Albufeira via Faro. É lá que está o nosso Residencial Descobertas que eu ainda não conheço; morar nele era parte do Plano A. Vamos ver como fica o Descobertas no Plano B.

      — A irmã de Dulce vai com a gente. Dulce está com o maior medo da viagem. O marido dela morreu naquele desastre aéreo com um avião da Transbrasil que caiu em Florianópolis em l980, lembra-se? Desde então, disse-me ela — Nada de homens e aviões. Sei que parece irracional, mas foi assim que aconteceu quando enviuvei aos vinte e sete anos e agora, aos sessenta  surge na minha vida um homem sob encomenda,  me propondo uma longa viagem de avião. Resolvi, finalmente, encarar esses meus medos. Alguém me ajudou com um empurrão, é certo.

      — Mano, falou o irmão. Que novela, hein!. Bem, agora eu tenho que ir, a noite me espera. Te cuida, malandro. Beijo na Dulce, boa viagem e me dê cá, mais um abraço. Na hora de sua saída, eu estarei mimindo. 

      — Obrigado por tudo, meu irmão. Até breve. 

      — Já chegamos? Perguntou Dulce quando foi anunciado o aviso de aterrisagem no aeroporto de Lisboa. O calmante e o indutor do sono funcionaram a contento.

      Conexão aérea para Faro no Algarve e – finalmente – viagem de taxi até ao Residencial Descobertas em Albufeira,  dezoito horas depois do embarque em Guarulhos, no Brasil.

      Era de madrugada. Dulce e a irmã ocuparam um dos apartamentos e Joaquim o outro.

      O sol brilhava forte no Algarve quando acordaram algumas horas depois e foi, especialmente para Joaquim, uma satisfação incontida ver o Residencial Descobertas lindo e funcional, tal qual o folder que lhe fora mostrado há trinta meses quando adquiriram os dois apartamentos.

      A irmã de Dulce era a mais entusiasmada com as comodidades do Residencial. Dizia repetidamente — Dulcinha, é uma maravilha!  Olha só a animação do pessoal, eu pensava que era uma casa de repouso para idosos. É um hotel normal com hóspedes idosos, não é?

      Depois de quatro dias no Residencial, os três iniciaram, em um carro alugado, um pequeno roteiro turístico, que incluiu Santarém, Óbidos, Sintra, Nazaré e finalmente Lisboa onde ficaram por três dias.

      As irmãs que faziam estreia em viagem à Europa adoraram o passeio. Depois da estada em Lisboa, a irmã de Dulce embarcou de volta ao Brasil.

      Dulce e Joaquim voltaram de carro para Albufeira, já levando para a nova casa, uma cadeira de balanço de madeira vergada.

      Sem entrar em maiores detalhes, a primeira noite que dormem juntos no Descobertas marca o inicio da vida íntima do casal. A nudez de Dulce e os seus seios perfeitos em forma e volume forçam Joaquim a dizer: — Mais uma vez me vejo diante do Portal do Paraíso. Ao que responde Dulce — Ah! Era isto a que se referia Joana? —Então, venha, meu bem, dê um passo à frente.

      Diante das circunstâncias, um tanto quanto estranhas que os envolveram, Dulce e Joaquim estão aparentemente livres de sentimento de culpa por estarem tão desejosos de sexo depois de tão pouco tempo desde o falecimento  da pessoa tão querida por ambos.

      Por telefone Joaquim coloca seu irmão a par dos acontecimentos e pede ao conselheiro autodesignado, diretrizes a seguir especialmente quanto à comunicação aos filhos deste imbróglio todo.

      Fala o irmão: — Mano; à primeira vista, a Joana, a Dulce e você formam um triângulo perfeito de personagens  de uma peça de Nelson Rodrigues.  Parece pura sacanagem, mas sei que não é. É simplesmente a vida, como ela é.

      Continua o conselheiro: — É melhor eu fazer o meio de campo com os seus filhos. Envio a cada um deles, cópia da carta deixada por Joana e conto tudo o que sei a respeito do distinto casal. A verdade é o melhor dos argumentos. Digo a eles que você e Dulce ficarão uns tempos em Portugal; eles entenderão.

      Passados alguns dias, Joaquim recebe um e-mail subscrito pelos três filhos: “Pai, o tio nos informou de tudo que aconteceu e acontece. Lógico, que para nós foi uma grande surpresa, a começar por pensarmos que o nosso Pai estivesse em São Paulo e não em Portugal. O que realmente importa é que nós o amamos e que respeitamos o desejo final da Mãe. Mande notícias”.

      Com o irmão, Joaquim esteve em contato frequente por e-mail.

      Por telefone, há três meses que não se falavam.

       Desta vez, Joaquim liga, não para pedir a opinião ou a ajuda ao irmão. Liga para avisar que ele e Dulce vão se casar.

      O irmão, em pensamento, já tinha previsto este lance, mas brinca, ao telefone: — E o casal planeja ter filhos?

       — Deixe de ser engraçadinho e venha com uma semana de antecedência para me ajudar nos preparativos, arrematou Joaquim

                                                 CONVITE

       Dulce Maria Splendore de Araújo e Joaquim José do Nascimento Paixão decidiram se casar.

      Eles convidam você e sua família para a cerimônia religiosa do casamento a realizar-se às 16h do dia 17 de agosto de 2014 no Santuário de Nossa Senhora da Orada, na cidade de Albufeira, Portugal. RSVP.

      Centenas de pessoas, entre parentes e amigos de Dulce e Joaquim receberam o convite via Correios; sessenta delas compareceram e participaram –“comme il faut” – de dois dias de festa.

Pequenas mas significativas mudanças no Plano B: O casal passaria quatro meses do ano (maio, junho, julho e agosto) no Descobertas e o restante do ano em Balneário Camboriú para onde foram após o casamento. Um dos apartamentos no Residencial foi negociado com a própria administradora do empreendimento.

      Já em Balneário Camboriú, os amigos de Dulce e Joaquim brincavam com o casal:  — Quem diria, hein!

      Resposta?

      Só em pensamento.

      —Nada de explicações, vamos viver a nossa vida; quem sabe até os cem anos ou mais. Não é, Joana?

      —Sim, respondeu, em espírito, a fada madrinha. E os três seguiram juntos pelo calçadão da Avenida Central em Balneário Camboriú.

FIM

(Será?)

(*) Boldrin, Rolando Boldrin é um ator, cantor, compositor, escritor e apresentador de televisão. Boldrin quando quer dizer que alguém faleceu recentemente fala assim “partiu antes do combinado.”

Ataíde Tatá Ribeiro (Ataídes Ribeiro de Barros) é escritor e mora em Florianópolis.


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