(FOLHAPRESS) – O país começa a presenciar os primeiros casos de sites de apostas endividados. No pior cenário, a derrocada de uma bet deixa uma trilha de calotes em clubes de futebol e na União, em razão de problemas de gestão e da intensa concorrência.
O rompimento de contratos de patrocínio é um sinal dos problemas de caixa, diz o presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), Plínio Lemos. O outro é a venda para empresas maiores, para dar seguimento a um negócio que ficou inviável.
Os episódios ainda são pontuais frente a um mercado com 187 marcas regulares. A reportagem localizou uma empresa com cobranças na Justiça próximas a R$ 100 milhões, além de dois casos em que marcas menores foram engolidas por grupos consolidados do mercado.
Manter depósitos em uma bet endividada envolve riscos, uma vez que o setor não conta com um mecanismo equivalente ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) dos bancos.
A regulação tenta diminuir os riscos, com regras de separação de valores dos apostadores e um depósito de segurança de R$ 5 milhões para cumprimento de obrigações financeiras. Caso tudo esteja adequado, o apostador não se torna um credor, segundo o advogado especializado em direito regulatório Sérgio Alves.
“No caso das bets licenciadas, os valores das apostas não são ativos das casas e, por isso, não são considerados para fins de falência ou recuperação judicial”, afirma Alves. “Ainda precisamos ver um caso concreto para entender melhor como será a separação de ativos e as bases da bet”.
O caso mais grave identificado pela reportagem é o da Alfa Bet, empresa paulista com cerca de 0,1% do mercado, segundo dados da consultoria H2 Gambling Capital.
Após deixar de pagar contratos de patrocínio com Grêmio e Internacional em 2025, acumulou cobranças judiciais próximas de R$ 90 milhões. Em abril, chegou a firmar acordo para quitar parte da dívida com o Grêmio, mas não efetuou os pagamentos previstos, conforme a Folha apurou.
O fundador e diretor operacional da empresa, Matheus Antunes, confirmou que a empresa enfrenta dificuldades e procura um comprador para se manter na ativa.
“Estamos conduzindo negociações visando a transferência da operação para um novo grupo investidor, com o objetivo de assegurar a continuidade da atividade e a adequada composição das obrigações perante credores”, disse.
Em processos judiciais, a empresa alegou dificuldades financeiras decorrentes dos custos da regulamentação, incluindo a licença de operação de R$ 30 milhões e as novas exigências tributárias.
O modelo de negócios das bets é altamente terceirizado, com contratação de instituições de pagamentos, catálogos de apostas e de listas de eventos esportivos – a empresa em si responde pelo marketing e pelo comercial.
Procurados, os times disseram que só se pronunciariam nos autos. Além dos clubes, o grupo de mídia gaúcho RBS cobra judicialmente cerca de R$ 200 mil por campanhas publicitárias não pagas. À Folha a empresa disse que ainda aguarda o pagamento e a conclusão da disputa.
Lemos, da ANJL, afirma que uma receita mensal menor do que R$ 5 milhões é insustentável para um site de apostas no Brasil. A Alfa, por exemplo, tinha faturamento próximo a R$ 3,5 milhões.
“A empresa não consegue fechar a conta, considerando os 12% do governo, todos os impostos normais, a folha de pagamento e a necessidade de continuar crescendo”, disse.
O Cade recebeu até agora três notificações de atos de concentração envolvendo bets licenciadas pelo Ministério da Fazenda, a primeira quando a multinacional Flutter (controladora da Betfair) desembolsou R$ 3,8 bilhões por 56% da pernambucana Betnacional.
A segunda fusão anunciada está ligada à sobrevivência de marcas menores em um mercado concentrado – dez empresas detêm mais de 67% de participação. A dona dos sites de apostas 7K e Cassino Bet anunciou, em 25 de março, a compra das concorrentes Donald Bet e Bet Ponto Bet. O órgão concorrencial chancelou a operação em 6 de abril.
A compradora é o grupo RNGX, dono da empresa de tecnologia Cactus Tecnologia e da Ana Gaming, que controla a Bet7K, patrocinadora do Santos até 2025. As companhias nunca anunciaram o valor da transação, mas o CEO da Ana Gaming, Marco Tulio Oliveira, disse à Folha que a compra foi feita com dinheiro em caixa, sem intermediação de um banco.
Segundo o executivo, a incorporação visa cortar custos operacionais. “Já temos uma estrutura de compliance, investimentos e setor financeiro. Quando fazemos a aquisição, ganhamos sinergia”, afirmou.
Já o caso mais recente é a compra de uma bet ligada a Luciano Huck que desistiu de entrar no mercado regulado pela marca do Grupo Globo, BetMGM.
Apesar do fôlego para compras recentes, a Ana Gaming também passou a restringir a saída de recursos nos últimos meses. A empresa era patrocinadora master do Santos e do Vitória, da Bahia, mas deixou os clubes para enxugar gastos.
De acordo com o CEO, o avanço dos impostos somado ao alto custo operacional imposto pelas regras do Ministério da Fazenda exige maior cautela nas decisões de marketing. “Temos que escolher esses investimentos de forma estratégica, alocando recursos e pensando na longevidade e na sustentabilidade do negócio”, justificou.
Assim como a Alfa Bet, a Donald Bet e a Bet Ponto Bet detêm pequenas participações no mercado 0,35% (cerca de R$ 10 milhões por mês) e 0,2% (R$ 6 milhões), respectivamente. A Ana Gaming soma 4,5% de participação de mercado: 2,3% da Cassino, 2% da Bet7K e 0,2% da Vera Bet.
A Bet Ponto Bet era controlada por uma família de Rondônia que é dona da Open Gaming. A Folha tentou contato com Mario Schwaab, que administra as empresas do grupo, via email e telefone informado na Junta Comercial, mas ele não respondeu.
A Donald Bet, por sua vez, era uma empresa independente até a regulamentação e procurou empresas maiores para continuar no mercado.
Antes de se juntar à Bet Ponto Bet, a marca teve uma tentativa frustrada de parceria com a Bet Gorillas, de acordo com pedidos de autorização publicados pelo Ministério da Fazenda. A Bet Gorillas disse que, em 2024, avaliou a possibilidade de uma fusão com a Donald Bet por razões estratégicas.
