(FOLHAPRESS) – De todas as escolhas que Alcione Albanesi fez, a de julho de 2014, no auge de sua carreira empresarial, foi a mais importante de sua vida. A paulistana era dona da FLC e detinha perto de 40% do mercado brasileiro de iluminação elétrica.
Ela reuniu os quatro filhos para contar que venderia a empresa para se dedicar exclusivamente à ONG que tinha fundado em 1993, a Amigos do Bem. Hoje a organização atende a 150 mil pessoas em 300 povoados no Ceará, em Alagoas e em Pernambuco, oferecendo cestas básicas, educação, empregabilidade, acesso à água, moradia e saúde.
“Foi a decisão mais difícil da minha vida”, diz ela, que recém-lançou na Bienal do Livro em São Paulo a obra “Coragem de Transformar – A Escolha que Mudou Tudo” (ed. Gente, 256 págs.).
“Tinha uma empresa próspera, filiais em todo o Brasil, fábricas exclusivas na China. Decidi largar tudo para ser empreendedora social. Tentaram me desanimar, mas nunca olhei para trás achando que perdi alguma coisa”, completa ela.
A autobiografia vendeu 12 mil exemplares na semana do lançamento e ficou em 1º lugar na lista dos livros de não ficção mais vendidos na última semana de agosto.
“Autografei muito”, afirma ela, sobre sua participação na Bienal do Livro, em São Paulo. Para consolidar o livro, foram dois anos de trabalho, escrevendo e repassando sua trajetória, desde quando foi sozinha, aos 14 anos, para os Estados Unidos estudar inglês, tornou-se modelo e, aos 17 anos, tocou uma loja de roupas na Santa Ifigênia (SP) com 80 funcionários.
Narra também a viagem para a China, em 1992, que ditou os rumos empresariais, e outra para o sertão nordestino, em 1993, que a levou a criar a Amigos do Bem.
“Eu não escrevi para contar minhas conquistas. Fiz 72 viagens à China, pesquisei a fome no mundo, em diferentes culturas, povos e continentes. Mas trago outras histórias de vida, mostrando que, quando há uma intervenção humana, quando alguém lhe dá as mãos, é possível transformar”, diz Albanesi.
Além dessas histórias, o livro conta com textos de Pedro Biel (jornalista e apresentador de TV), Augusto Cury (médico e hoje candidato a presidente), Rubens Menin (empresário e fundador da MRV, do Banco Inter e da CNN Brasil) e Luiz Helena Trajano (empresária, e presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza).
Com 23 capítulos, a obra também apresenta cenas icônicas, como uma foto com Chico Xavier, a do primeiro caminhão carregado de alimentos enviados ao Nordeste, em 1993, e outra do dia em que Alcione levou mil crianças do sertão para conhecer o mar na Praia de Tamandaré (PE), em 2008.

Sob a batuta da empreendedora social, foram criadas fábricas de beneficiamento de castanha, plantações de caju, oficinas de costura e artesanato e até pequenas vilas, as Cidades do Bem, no sertão nordestino. Hoje, são 18 unidades produtivas, 630 hectares cultivados e mais de 1.800 empregos gerados.
Só em 2024, a ONG distribuiu 3 milhões de quilos de alimentos no sertão, beneficiando 30 mil famílias com apoio de cerca de 18 mil voluntários.
“Eu acredito que, em muito pouco tempo, o país pode estar livre da pobreza extrema. Saímos do Mapa da Fome [da ONU], já temos o diagnóstico. Precisamos de mais atitudes coletivas agora”, diz ela, que foi finalista do Prêmio Empreendedor Social e vencedora da Escolha do Leitor de 2019.
Para empreender as mudanças e, principalmente, ainda fazer crescer a ONG que lidera há 33 anos, Alcione não esconde o que considera a receita perfeita do sucesso: amigos e fé.
“Sem meus amigos, eu não teria feito metade do que fiz. E sem fé eu não teria tomado as decisões que tomei.” E, hoje, todas são prol do social. Tanto é assim que até o livro terá todos os direitos autorais destinados à Amigos do Bem.

