(FOLHAPRESS) – Não espere um manual com regras sobre como criar seu filho no mundo das telas. O livro “O Algoritmo das Famílias”, que acaba de ser lançado, não diz aos pais “Dê o primeiro celular com tal idade”, “Libere ou proíba essa, ou aquela rede social”, “Faça isso ou faça aquilo”, mas organiza uma série de dados e reflexões que podem iluminar os caminhos da parentalidade na era de domínio das big techs.
A autora, Renata Cafardo, costura uma extensa bibliografia internacional sobre a educação dos filhos em meio ao universo digital com histórias do cotidiano de famílias brasileiras, pesquisas nacionais sobre hábitos de crianças e adolescentes na internet e os recentes debates e políticas públicas do país em torno da proteção da infância e da adolescência nesse universo a exemplo da aprovação do ECA Digital e do banimento dos celulares no ambiente escolar.
Para navegar com o leitor por essa miscelânea de informações e análises, Renata parte da conjunção de suas vivências como mãe (ela tem um menino de 14 anos e uma menina de 10), jornalista (é repórter e colunista de educação do jornal O Estado de S. Paulo) e pesquisadora visitante da Universidade Stanford (EUA), no final de 2023 e início de 2024, quando estudou o impacto da tecnologia na educação.
Intitulada “O Algoritmo das Famílias – Como o Mundo Digital Desafia a Parentalidade” (ed. Contexto; 192 págs.; R$ 55,90), a obra não deixa de considerar o papel do Estado na proteção da infância e da adolescência na internet, bem como a necessidade de se regular as plataformas digitais, mas se volta à urgência dos pais. “A parentalidade não pode esperar”, escreve a autora.
“Não tem como tapar o sol com a peneira, esperar passar ou dizer Isso não é comigo. E a única forma de os pais protegerem os filhos é estarem informados e dispostos a conversar com eles sobre o universo digital”, afirma Renata à reportagem.
O livro detalha uma série de perigos das plataformas, onde há cooptação de crianças e adolescentes por grupos neonazistas, de automutilação e de pedofilia, entre outros crimes. Em julho, o Discord transmitiu ao vivo a morte de uma menina de 13 anos em uma sessão de automutilação, o que levou a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) a determinar a suspensão de transmissões em tempo real nessa plataforma.
Renata também aborda o acesso dos menores a conteúdos pornográficos e de violência. Um médico, relata a autora no livro, lhe contou que um adolescente havia perguntado a ele como poderia “desver” um conteúdo pornográfico que tinha assistido involuntariamente no celular de um amigo.
Essa é uma das situações que revelam que, por maior que seja o cuidado que os pais possam ter em casa, os filhos não estão livres de se deparar com conteúdos impróprios. A autora cita pesquisas para dimensionar o fenômeno, como a da Common Sense Media, de 2022, feita com adolescentes de 13 a 17 anos nos EUA. Nesse levantamento, mais de 50% relataram ter visto vídeos violentos de sexo, que mostravam alguém sentindo dor, estupros e enforcamento.
Renata trata ainda do desafio, que ela própria vivencia, de se criar meninos em um mundo digital dominado por machismo e misoginia.
Cita a pensadora antirracista e feminista americana bell hooks (1952-2021; sem iniciais maiúsculas por sua opção) e sua crítica “incômoda, mas necessária” de correntes do feminismo que acabaram por criar um “sentimento anti-homem”, sem olhar para a infância dos meninos.
A ideia não é culpar o feminismo, ressalta, mas propor algo mais complexo e urgente: “Incluir homens e mulheres, pais e mães, no esforço de construir referências emocionais mais saudáveis para os meninos”. “Fala-se muito da masculinidade tóxica. Falta, talvez, responder com mais clareza à pergunta que permanece em aberto: afinal, o que é uma masculinidade saudável?”, questiona.
O livro investe ainda em uma análise sobre a mudança, ao longo dos anos, da própria parentalidade e da visão a respeito da infância. Aborda o crescimento da sensação de insegurança entre os pais, que levou a uma superproteção no mundo presencial e à ilusão de que as telas poderiam ser passatempos seguros.
O tamanho desse equívoco foi ficando claro ao longo dos últimos anos, e a autora analisa como, nesse cenário, retoma-se a valorização do brincar livre, com as crianças ganhando autonomia.
Não é uma inflexão simples e muito menos sem ansiedade para os pais. Renata se lembra de uma reportagem em que uma mãe lhe confessou que cogitou enviar o filho de capacete para a escola para que ele ficasse protegido, porque lá havia uma ampla área em meio à natureza para as crianças brincarem.
Hoje, a percepção de que é preciso controlar o que os filhos fazem online também gera ansiedade. Renata diz acreditar que regras muito rígidas se tornam opressivas para os pais, especialmente para mães sobrecarregadas.
Além disso, essas regras passam por cima de realidades desiguais e de necessidades particulares como a de crianças e jovens com autismo, para os quais a tecnologia pode ser um auxílio para a comunicação.
A autora defende que os pais supervisionem o que os filhos acessam na internet e que dialoguem com eles, sem demonizar a tecnologia, mas os levando a entender os interesses por trás dessas ferramentas. “Quando percebem que não estão sendo apenas protegidos, mas também respeitados como sujeitos capazes de reflexão, a chance de escolhas mais conscientes aumenta.”
O ALGORITMO DAS FAMÍLIAS – COMO O MUNDO DIGITAL DESAFIA A PARENTALIDADE
– Editora Contexto
– Páginas 192
– Preço R$ 55,90

