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Balneário Camboriú

“As conchas farão parte da ‘nova’ praia de Balneário Camboriú por longos anos”

A opinião é de especialistas no assunto

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Fernando Diehl (foto Rodrigo Luft)

O oceanógrafo Fernando Diehl, um especialista em assuntos do mar, que estuda o projeto de engordamento da praia de Balneário desde 1989 e o professor João Thadeu de Menezes, oceanógrafo, que escreveu sua tese de doutorado sobre a  Praia Central, afirmando que ela está em equilíbrio, foram consultados pela reportagem para responder perguntas que chegam à redação, sobre as conchas e demais tipos de sedimentos e outros materiais que surgiram na praia, desde que a draga começou a trabalhar, no último dia 22. 

A equipe do Grupo Acquaplan, de Balneário Camboriú, que foi inclusive uma das empresas que prestou consultoria ambiental no projeto de licenciamento do alargamento da Praia Central, e que tem entre seus sócios Fernando Diehl, está acompanhando de perto todo o processo de engordamento, e já nos primeiros dias descobriram 39 espécies de conchas. Na realidade, espécies de moluscos. Informam que estas conchas certamente ficarão sendo uma nova atração para os turistas, e que poderão ser vistas e catadas pelos amantes dos organismos marinhos por muito tempo.

Os sócios da empresa Acquadinamica do Grupo Acquaplan, Fernando Diehl, João Thadeu de Menezes,Thelma Scolaro, Emílio Dolichney e Vinícius Dalla Rosa Coelho (foto Rodrigo Luft)

Acompanhe: 

P- As conchas e outros sedimentos que a draga vem expelindo na areia vieram pra ficar?

R – O sedimento ali depositado deverá permanecer na praia por longos anos. As conchas oriundas da jazida farão parte da nova praia, mas claro, a curiosidade dos banhistas/veranistas e a beleza de vários espécimes de conchas estimulam a sua coleta. Por outro lado, as conchas que irão se misturar ao sedimento da nova praia serão naturalmente e lentamente “consumidas” pelos processos biogeoquímicos devendo então fazer parte do sedimento. E também, os elementos químicos que a constituem, especialmente o Carbonato de Cálcio, fazer parte da coluna da água após solubilizados, ou da areia da praia em pequenos fragmentos. Destaca-se aqui as praias do Caribe ou de atois e ilhas paradisíacas do Pacífico e Índico, que são formadas por areias de carbonato de cálcio (CaCO3).

(foto Rodrigo Luft)
(foto Rodrigo Luft)
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P – Há muita especulação sobre o assunto. E nas redes sociais tem muitos entendidos… Muitas pessoas têm dúvidas. Tem algo errado ou que não era previsto?

R – Na verdade, toda alimentação artificial em seu processo inicial, cujos sedimentos têm como origem uma jazida oceânica, apresenta uma maior quantidade de conchas, devido a estas estarem depositadas na porção mais superficial do leito oceânico. Importante destacar que quase a totalidade das conchas que estão sendo encontradas na obra do engordamento não apresentam organismos vivos no seu interior, ou recentemente mortos. Na realidade, o depósito de conchas era um antigo “concheiro”, depósito de carbonatos na região da jazida. São áreas do fundo do mar onde o material biodetrítico (esqueletos de organismos mortos) se acumula, sendo muitas vezes recoberto por sedimentos em função da dinâmica do mar. Se formos hoje lá na Praia de Taquarinhas, por exemplo, iremos observar isso, grandes concentrações de conchas de todos os tipos, grande quantidade de grânulos de pequenos cascalhos, de diversas formas e cores, e outros materiais biodetríticos, que são remobilizados do fundo do mar e jogados na face da praia. A dinâmica dos oceanos possibilita esta grande variedade de material em decorrência dos processos de erosão, transporte e deposição de sedimentos e outros materiais.

P – O depósito na areia prejudica? O quê? Estes materiais causam algum desequilíbrio? Algum impacto ambiental?

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R – Toda obra de alimentação provoca alterações ambientais, principalmente para a comunidade nativa do bentos, os organismos que vivem associados ao sedimento, ao fundo (como o berbigão da praia, a tatuíra, as bolachas do mar, e tantos outros). Também em decorrência do tamanho de sedimentos e das características da nova praia criada/formada, teremos alterações no clima de ondas e na dinâmica das correntes. Importante destacar é que devido ao tamanho do grão dos sedimentos que estão na jazida serem similares ao da praia original, as características morfodinâmicas da nova praia tendem a ser muito parecidas com a praia original. No entanto, todas as alterações/impactos são temporárias e tenderão a se normalizar com o tempo. Mas existem vários outros impactos, sejam eles positivos como negativos, e ainda mais, serão maiores ou menores dependendo da percepção do cidadão a ser “impactado”… É o que estamos vivenciando agora, gente adorando o projeto e as obras, e outros, detestando. Com o passar do tempo tais impactos serão melhor absorvidos pela cidade, pela comunidade, sejam estes impactos positivos, como negativos. Exemplo, hoje ao chegarmos próximos da praia, não conseguimos mais visualizar o mar. Está sendo rapidamente alterada a paisagem de nossa cidade, a intimidade da praia com a cidade. Certamente, levaremos meses para aprendermos a conviver com a nova praia, com a nova cidade. Para muitos, este contraste pode impactar, pois estamos construindo uma nova praia, que nunca esteve com a gente. Por isso a importância de mantermos, tanto quanto possível, as características da praia nativa, e tentarmos resgatar aquela praia do passado, com um sistema de dunas embrionárias, e um perfil praial onde possamos resgatar a zonação biológica e geológica.

Fernando Diehl (C), João Thadeu (D) e o Almirante Edgard (E), diretor da DHN, diretoria de hidrografia e navegação (foto Rodrigo Luft)

P – Os sedimentos, as conchas devem ser retirados da areia?

R – Em relação às conchas, a sua permanência ou não na areia é irrelevante, algumas pessoas falam que a retirada pode causar acidificação dos oceanos, porque os carbonatos funcionam como tampão, isso é, tentam equilibrar e manter o pH da água do mar estabilizado, em torno de 8, levemente alcalina. Isso é, quando o ambiente aquático se acidificar, a carbonato existente no fundo do oceano, através de processos biogeoquímicos, se solubiliza e é disponibilizado a coluna da água e neutraliza a água do mar. Este é o processo em macro-escala. Mas a quantidade das conchas e a área da jazida é tão pequena quando comparada à quantidade de conchas existentes nos mares e ao tamanho do oceano que é impensável achar que isso pode ocorrer em função desta obra. Na realidade, esta afirmação de que a retirada das conchas do fundo do mar, que são concentrações de calcário, e que funcionam como tampão no equilíbrio da acidez da água do mar, chega a ser hilária. Certamente que dentro de um aquário tal realidade poderia ser observada, mas não neste oceano de mar aberto aqui de Balneário.

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Veja algumas espécies de conchas que foram encontradas (fotos Rodrigo Luft)

P – Já foram descobertas 39 espécies de espécies de conchas nestes poucos dias. O que mais chamou atenção nesta descoberta?

R – Houve também a dragagem de outros materiais, como beachs-rocks, que são conglomerados de sedimentos cimentados, ricos em biodetritos… Existem outros materiais de origem geológica sendo trazidos pela draga, e que estão sendo recolhidos por nossa equipe…Certamente este projeto será um grande aprendizado, um grande laboratório de como projetos desta magnitude podem nos ensinar…estamos presenciando e assistindo processos clássicos de geologia marinha ou oceanografia geológica com essa obra.Todos iremos aprender com esta obra.


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