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“A banalidade do suicídio de idosos” por Robson Ramos

“Em nome de interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime.” Hannah Arendt

Nos últimos dias fui impactado pelo suicídio de um colega. Assim, do nada tirou a própria vida. Foi embora! Pegou todos de surpresa. Lembro-me de que num dos jantares dos quais participamos juntos, conversamos longamente sobre assuntos de interesse comum. Era uma pessoa dinâmica, de grande cultura e estava com a vida resolvida. Ao menos, era o que todos pensavam.

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Comentando o ocorrido com um amigo ouvi: “Ah, isso tá muito comum. Semana passada, um amigo do meu pai também se suicidou. Eles haviam almoçado juntos há menos de uma semana e, de repente, ele fez aquilo.”

Lamentavelmente, constato que o suicídio de pessoas idosas é algo banal, dentro da normalidade para muitos. Acontece a toda hora. Afinal, já não há mesmo lugar para eles. Um profissional da saúde com quem conversei sobre o assunto comentou sobre o que ele ouviu de pessoas mais jovens, logo no início da Pandemia: “Eu sou jovem, preciso sair, preciso trabalhar, preciso empreender. Os idosos é que têm que ficar em casa. São eles que morrem.”

“Que se dane se a pessoa ficar com depressão e tirar a própria vida. Foi escolha dela. Não havia como prever ou prevenir. Não tenho nada a ver com isso”. Penso ser essa a reação predominante na sociedade.

Faça um teste e converse sobre isso com alguém. O que tenho observado é que geralmente as pessoas “dão de ombros” ou fazem comentários breves dando a entender que não há o que fazer. É esse o fim e ponto final. Ou seja, não há interesse em levar o assunto adiante. Por quê?

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Hannah Arendt, filósofa judia e teórica política nascida na Alemanha, que foi vítima dos horrores da perseguição nazista, autora da obra “A Banalidade do Mal”, argumenta que a “banalidade do mal é o fenômeno da recusa do caráter humano do homem, apoiado na recusa da reflexão e na tendência em não assumir a iniciativa de seus próprios atos”.

O fato é que ficamos à mercê de informações não confiáveis sobre o número de suicídios de pessoas idosas. A quem compete fornecer tais informações? Sem dados sobre o perfil socioeconômico dos idosos não será possível elaborar uma política pública assertiva voltada para a saúde mental dessas pessoas.

Nós – como sociedade civil e poder público – precisamos nos conscientizar de que é dever de todos prestar atenção a temas como esse. Nos termos do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) há:

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Art. 3o – É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Enganam-se aqueles que pensam que os órgãos e servidores públicos, ainda que desempenhem suas atribuições com seriedade, consigam dar conta do recado sozinhos. Longe disso. Eles próprios são os primeiros a dizer que só estão enxugando gelo. Apresento aqui, uma mudança nesse quadro, propondo o desenvolvimento de uma cultura de responsabilidade social resultante da sinergia gerada pela interação entre o poder público, o setor privado e a sociedade civil organizada. Afinal a corresponsabilidade é inevitável.

Daí a necessidade da sociedade civil e da comunidade assumirem seu papel em parceria com as ações governamentais, com vistas à promoção de ações preventivas efetivas e amplas, e não apenas reativas.

Sabe-se, por exemplo, que o endividamento de idosos aflige milhões de famílias pelo Brasil afora. Lemos sobre isso, no entanto, temos dificuldade para assimilar que idosos que residem no mesmo município que nós, estejam enfrentando esse tipo de situação. As pensões e aposentadorias são insuficientes para suprir as necessidades básicas de muitos deles. Além dos gastos com remédios muitos idosos sustentam filhos e netos, o que os leva a contrair empréstimos. Sem falar no fato de que muitos têm que sustentar os vícios dos filhos e, não raramente, pagar dívidas dos filhos contraídas no tráfico de drogas. 

“Conforme pesquisa do SPC Brasil, três em cada dez idosos entre 65 e 84 anos no país estão com o nome sujo, a maior parte das dívidas (52%) está ligada a bancos, cartão de crédito, cheque especial, financiamentos e empréstimos.”  (1)

“Em 2019, o número de idosos no Brasil chegou a 32,9 milhões. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a tendência de envelhecimento da população vem se mantendo e o número de pessoas com mais de 60 anos no país já é superior ao de crianças com até 9 anos de idade.” (2)

Considerando as projeções demográficas há muito com o que se preocupar. “Em 2030, o grupo dos idosos será maior do que o grupo de crianças com até 14 anos e, em 2055, o Brasil terá mais idosos do que crianças e jovens, com até 29 anos de idade. Em 2060, mais do que um terço da população brasileira será constituído por pessoas com 60 anos ou mais (33,7%)”. (3)

Nesse contexto alarmante, observa-se que os estados do Sul e Sudeste serão os primeiros a serem atingidos pelos efeitos causados pelo envelhecimento da população. (4).

Mesmo assim há aqueles que, mesmo exercendo funções públicas nada fazem para mudar a cultura irresponsável do mero “enxugar gelo”. 

Mas são profissionais em ficar mostrando suas fotos sorridentes nas mídias sociais, como se a exposição midiática valesse para alguma coisa, além de enganar os menos observadores que vivem de ficar olhando fotos. Iludem-se achando que uma carreira se constrói publicando sem nunca expor o que pensam e defender uma proposta, com começo, meio e fim.

Instituições de ensino, assim como gestores dos setores público e privado deveriam estar formando líderes com maior consciência da sua responsabilidade social e que não se preocupam apenas em garantir seu lugar no mercado de trabalho e sim em deixar um legado. 

Pessoas que exerçam um protagonismo cidadão no engajamento solidário na busca de soluções que amenizem o impacto de questões tais como essa, a do envelhecimento e das suas implicações.

Desde cedo os alunos das redes municipal e estadual deveriam ter a oportunidade de interagir com pessoas mais experientes e participar de atividades intergeracionais. A educação dos mais novos deveria incluir temas tais como, por exemplo, “Idadismo” (envelhecer sofrendo preconceitos sociais).

No presente cenário, especialmente em localidades com maior densidade demográfica de idosos – seria bem-vinda a criação de um “Think-Thank” – uma oficina de ideias – por parte das autoridades competentes, representantes da sociedade civil, empresários e líderes religiosos, voltada para o enfrentamento de questões relacionadas com a população idosa.  

Sem a valorização de pesquisas e debates à altura do desafio ficamos à mercê de programas que, mesmo tendo seu valor, são insuficientes para produzir mudanças conjunturais e preparar o município para receber o impacto que o aumento acelerado da população idosa já está causando. À medida em que a saúde mental das pessoas idosas permanecer desatendida, e os suicídios seguirem acontecendo, a questão será varrida para baixo do tapete, camuflada para evitar desconforto.

Caso cheguemos a esse ponto é porque, segundo Hannah Arendt, abdicamos do pensamento crítico. E, abdicar de pensar, também é crime.

Notas:

  1. https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/jornal_cidades/2019/06/691065-em-palestra-procon-alerta-sobre-alto-indice-de-endividamento-de-idosos.html
  2. https://www.conjur.com.br/2019-abr-10/garantias-consumo-superendividamento-idoso-necessaria-atualizacao-cdc
  3. https://previva.com.br/envelhecimento-da-populacao-brasil-tera-mais-idosos-do-que-jovens-em-2060/
  4. https://previva.com.br/envelhecimento-da-populacao-brasil-tera-mais-idosos-do-que-jovens-em-2060/

Robson Ramos é advogado, mestrando em Ciências Jurídicas na UNIVALI/Itajaí-SC, consultor em Compliance e mediador na solução de conflitos familiares. Membro da Associação Nacional de Gerontologia de Santa Catarina, do Conselho Municipal do Idoso e da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

Instagram: @robson.ramos.adv

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