A mulher e a escala 6×1

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Cleo Comunello e Ana Lúcia da Silva*

Ela tem 32 anos, dois filhos e um par de tênis surrado que estão em seus pés diariamente. O relógio toca pontualmente às 5h50 da manhã. Ela levanta, se arruma, ajeita as crianças, fecha as marmitas, mochilas e casacos e sai com as duas. A de 2 anos, vai no colo. A outra, de 5, vai na mão. Nas costas, as mochilas, bolsas e o peso de ter esta mesma rotina durante seis dias da semana. De segunda à sábado. Das 7h às 20h, hora que chega em casa. Tudo para poder dar conta de sua jornada com os filhos, a pequena casa e o trabalho de atendente numa loja de departamentos num dos bairros da cidade.

Essa é a realidade tal escala 6×1, seis dias de trabalho para apenas um de descanso, que milhões de trabalhadoras e trabalhadores precisam cumprir para dar conta de uma extensa carga horária de trabalho.

Existe uma necessidade urgente e complexa de rever essa quantidade de dias trabalhados principalmente quando analisada sob a ótica da mulher brasileira. Para a classe trabalhadora feminina, essa jornada não é apenas uma questão de horas no relógio, mas um fator de exaustão que aprofunda desigualdades históricas.

Dupla Jornada: cansaço físico e mental.

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Enquanto o contrato de trabalho prevê a escala 6×1, a realidade da mulher é, na verdade, uma escala 7×0. O único dia de folga oficial para a mulher trabalhadora acaba sendo consumido pelo trabalho doméstico acumulado durante a semana. Limpar, cozinhar, organizar a casa para a semana seguinte.

Além da responsabilidade pelo cuidado de crianças e idosos que sempre recai sobre as mulheres. Sem um segundo dia de folga, a mulher nunca atinge o estado de descanso físico ou mental.

A escala 6×1 é um terreno fértil para o Burnout e doenças crônicas. Para a mulher, o estresse é potencializado pela carga mental devido à tarefa invisível de planejar, lembrar e gerenciar a vida familiar enquanto vive sob pressão no emprego.

Não se trata apenas de cansaço, mas de uma privação sistemática de tempo para o autocuidado, exames de saúde preventivos e lazer. Direitos básicos que são sacrificados em prol da sobrevivência financeira e do cuidado com o outro.

Crescimento Profissional, Educacional e o direito à convivência

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A rigidez da escala 6×1 impede que muitas mulheres busquem qualificação. É quase impossível conciliar cursos de especialização ou graduação com apenas um dia de folga, que já está comprometido. A falta de tempo livre exclui a mulher trabalhadora de espaços de convivência e oportunidades que poderiam gerar melhores salários e mais valorização do trabalho exaustivo que a mulher desempenha em todas as esferas do mercado.

Trabalhar seis dias na semana, retira da mulher o direito de ser presença ativa na vida dos filhos, na sociedade, na política. O impacto social é geracional: mães exaustas têm menos tempo para dar apoio pedagógico e emocional aos filhos. Mulheres trabalhadoras que se dedicam mais ao trabalho do que à si mesma e suas relações.

Mulheres organizadas pelo fim da escala 6×1

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em tramitação no Congresso, apoiada por movimentos de mulheres de esquerda e pelo governo federal propõe abolir a exaustiva escala 6×1, propondo uma jornada de trabalho menor, sem redução de salários.

É necessário combater a “escravidão moderna”, priorizando a qualidade de vida, saúde mental e tempo para a mulher fazer o que ela quiser. Do nosso ponto de vista estabelecer uma escola de, no mínimo, 5×2 não é apenas uma questão trabalhista, é uma pauta de gênero e saúde.

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Para nós, mulheres, que acumulamos o emprego formal com o trabalho doméstico e de cuidado, ter mais um dia de descanso significa tempo para respirar, estudar, cuidar da saúde e estar com a família ou com quem quiser, onde quiser.

A tramitação avançou com a PEC sendo enviada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com forte mobilização de movimentos sociais e da base do governo. O fim da escala 6×1 é, portanto, uma luta por dignidade e igualdade.

Que nossas mãos desaguem em descanso, não em cansaço. Pelo fim do 6×1. Que o tempo seja direito e que a vida floresça livre, garantindo o riso e o sagrado direito de sonhar novos amanhãs.

(* Cleo Comunello e Ana Lúcia da Silva, integram o Movimento de Mulheres “ELAS” – Itajaí).

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