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“Cabul: Entre a noite escura e a Governança Global” por Robson Ramos

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Cabul não é para amadores! Mas, convenhamos, lugar algum hoje em dia é para amadores. Não há garantia de que locais aparentemente seguros nunca vivenciarão experiência semelhante.

Eu mesmo vivi algo parecido quando trabalhava numa região próxima a Cabul, há alguns anos, e precisei sair na calada da noite só com a roupa do corpo, uma mochila com meu passaporte e minha carteira praticamente sem dinheiro. Só tive tempo de tomar um banho e, assim mesmo com água emprestada de um prédio vizinho, já que o local onde eu estava provisoriamente instalado estava sem água.

Felizmente ninguém viu a água sendo retirada da caixa d´água do prédio vizinho, mas me comprometi a um dia devolver os três baldes de água que consegui (o espaço aqui não me permite explicar como isso foi feito). Depois de um dia inteiro andando sob o sol do mediterrâneo, era impensável viajar sem banho, ainda que fosse um “de balde”.  Apesar do risco eu tinha que dar um jeito de tomar meu banho antes de pegar aquele último voo do dia para Milão, Itália e depois, uma conexão para casa. Se eu ficasse mais um dia naquele lugar minha vida poderia ter tomado outro rumo.

A trágica experiência dos afegãos tentando fugir de Cabul está sendo testemunhada por todo o mundo. É impossível não nos solidarizarmos com eles e com tantos outros nesse mundo vivendo trágica situação, vendo-se forçados a sair da sua terra deixando para trás suas casas, amigos e entes queridos.

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O que precisa acontecer para que as tensões presentes no mundo – sejam elas de que natureza forem, político-ideológicas, religiosas e econômicas – possam ser atenuadas?

Thomas Hobbes, filósofo inglês, argumenta em seu livro mais famoso – Leviatã – publicado em 1651, que os humanos são egoístas por natureza e tendem a guerrear entre si. Por isso, para que não se exterminem mutuamente é necessário que haja um contrato social que em tese, levaria os seres humanos a renunciarem à guerra. Mas, por serem egoístas, conforme sugere Hobbes, necessitam de um soberano que esteja a postos para punir quem desobedecer ao contrato social.

Esse poder soberano, segundo Hobbes, seria o Leviatã, título de sua obra que remete à criatura na forma de um peixe monstruoso e feroz, que pode ter sua interpretação mitológica ou simbólica, dependendo do contexto em que a expressão é empregada. Essa figura é mencionada nas Escrituras do Antigo Testamento (1) e esteve presente também no imaginário de navegantes europeus da Idade Média.

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Partindo do prognóstico e solução apontados por Hobbes, de que os seres humanos são egoístas por natureza e que, portanto, precisam de um “contrato social”, muito tem se falado nos últimos anos sobre Governança Global, um movimento transnacional, que tem por objetivo negociar e buscar respostas a problemas que afetam mais de um Estado ou região, seja em questões econômicas, sociais ou ambientais.

Instituições de governança global tais como as Nações Unidas, o Tribunal Penal Internacional e o Banco Mundial, dentre outros, ainda que com poderes limitados têm atuado para influenciar as nações no sentido de implementar normas cujo objetivo é criar um ambiente de relações humanas mais harmoniosas, mais equitativas, além de, obviamente proteger o meio ambiente, numa escala global.

A governança global tem ampliado a conjugação de esforços de atores diversos, abrindo caminho nas relações internacionais e descentralizando o poder outrora exclusivo de Estados soberanos. Esse processo se acentuou especialmente com o final da Guerra Fria, descortinando um nível crescente de complexidade crescente nos problemas nacionais e transnacionais, com enormes implicações para o meio ambiente, desigualdade social e graves violações de direitos humanos.

Os trágicos acontecimentos em Cabul são apenas a ponta do iceberg e não temos espaço aqui para aprofundar esse debate. Entretanto, algumas perguntas podem ser feitas a líderes nacionais, sejam eles de países islâmicos ou não. Por exemplo: de que forma seus líderes lidam com as questões relacionadas à governança global? Como poderiam exercer sua influência e pressionar quem está no poder, seja de que viés ideológico ou religioso for, no Afeganistão ou em outros lugares do mundo, com vistas à criação de políticas públicas que respeitem os valores fundamentais da pessoa humana universalmente aceitos pelas grandes religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo?

Da mesma forma entidades estabelecidas e proponentes da Governança Global poderiam interagir com líderes islâmicos, visando a abertura de caminhos diplomáticos e outros, para que as populações nesses países, em especial as mulheres e as crianças, não sofram violações de qualquer espécie. Dentre outras coisas os   educadores nessas regiões têm uma oportunidade única de criar um sistema próprio de Governança priorizando a Educação, dentro de seus padrões culturais e religiosos, caso ainda não o tenham.

Dessa forma, ações pontuais e programáticas da parte de organizações não governamentais, voltadas à promoção de princípios e normas, trarão os resultados desejados na melhoria das condições de vida daqueles que vivem em contextos semelhantes ao de Cabul.

Atenção especial deve ser dada a esforços e cuidados na Educação. Nas palavras de Malala Yousafzai (2) – jovem paquistanesa defensora do direito das meninas de estudar – “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”(3).

Concluindo, penso que esta é uma oportunidade única para pessoas de todas as idades, em especial jovens estudantes de escolas públicas e privadas, para se unirem à Malala e colocarem em prática uma das ideias relacionadas às redes internacionais de cidades, que tem relação estreita com a dinâmica da governança global (4). As mídias sociais estão aí para serem usadas, inclusive para o envio de mensagens aos líderes do Talibã em Cabul defendendo o direito das meninas e mulheres de estudar e trabalhar.

Assim, pequenos munícipios podem se tornar cidades globais à medida em que cidadãos do mundo usem seus celulares para escrever e promover mudanças numa sociedade cheia de complexidades como aquela. É imprevisível o impacto que ações desse tipo podem causar.

As redes solidárias, na forma de estruturas inovadoras, são uma expressão de governança, uma vez que cumprem seu papel no contexto de governança global, e não tem nenhuma ligação com o poder Estatal desse ou daquele país. Esse tipo de fenômeno tem o condão de estimular o protagonismo de novos atores no cenário internacional de uma forma inédita.

Por conseguinte, mesmo num mundo cheio de egoísmo e luta por poder, conforme argumentou o autor de Leviatã, será possível encontrar pessoas de boa vontade que, consigam transcender o “contrato social” proposto por Hobbes e se mobilizarem em prol de sociedades mais humanas e menos hostis aos vulneráveis.

Somente assim a noite escura de Cabul poderá ter um fim e possibilitar o nascimento de um novo dia.

Notas

  1. Jó 41:1
  2. Jovem paquistanesa vítima de atentado em 2012 por defender o direito das meninas de ir à escola. A mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, com 17 anos
  3. https://escoladasaguas.org.br/atividade/uma-crianca-um-professor-um-livro-e-uma-caneta-podem-mudar-o-mundo-malala-yousafzai/
  4. http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000122011000200031&script=sci_arttext

Sobre Robson Ramos

Advogado, mestrando em Ciência Jurídica na UNIVALI em Itajaí, SC. Consultor na área de Compliance e Mediador na solução de conflitos familiares, Autor de livros e membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú. Atuou por mais de 20 anos nas áreas de gestão de pessoas e desenvolvimento organizacional, no Brasil e nos EUA.

Instagram: @robson.ramos.adv

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