Hoje foi um dia intenso.
Estou em São Pedro na borda da Cordilheira, no pé da Serra do Corvo Branco da encantada Urubici.
Estou sozinho, porque minha mulher está na Capital, dando um apoio pra irmã dela, que operou o joelho.
Aqui, sem mulher, a minha qualidade de vida caiu muito!
Estou trabalhando de encanador, para melhorar as condições hidráulicas, porque arrumar a água é o esporte preferido e tortura de todo dono de sítio.
Entre a parte térrea e o sotão da casa, onde ficam as caixas d’água, subi na escada, umas 10 vezes.
Para ser mais rápido deixei as portas abertas – foi o meu erro – e andava ali, pra cima e pra baixo..
Quando parei o trabalho passei a guardar as ferramentas e voltei para casa.
Bem …aqui tem um casal de jacus.
Jacu é uma ave preta, parecida com galinha, mas que tem o rabo bem comprido. O ilustre casal é o xodó da mulher.
Pois é, quando chego na varanda aberta, vi que a jucu-fêmea estava de dona da varanda.
Falei:
– Aí não madame, vocês é ali pra baixo.
Estranhei porque o sr. jacu, não estava junto. A gente trata ele. Subo a escada, entro na cozinha e dou de cara com o sr.jacu, dentro da cozinha. Falei:
– Pára, assim não dá. Chô…chô…chô… a gente é amigo.
Fui tocando numa boa.
Mas, quando cheguei mais perto, o jacu deu um salto de cima da cadeira de balanço em direção a pia da cozinha. Eu lavo a louça cada dois dias e a roupa uma vez por semana. Neste primeiro voo ele já derrubou uma taça que se espatifou e virou uma tampa de panela.
Fui chegando na boa, tocando ele pro outro lado … O estúpido, na volta derrubou a coleção de colher de pau, passou por cima do forninho e veio em direção ao fogão de lenha, sendo que em cima do micro-ondas tinha uma bandeja com uns 30 vidros de doce de fruta com tempero.
E o jacu veio atropelando tudo. Foi pimenta no chão, quebrou o vidro de farinha do Pará, derrubou mais uma panela e foi sentar em cima do sofá de pano, que eu tinha comprado no Magazine Luiza – antes de quebrar – e ainda deu uma cagada bem no meu lugar preferido.
Aí, também fiquei nervoso, agarrei uma vassoura e parti pra cima do ignorante. E foi assim, ele pra lá e pra cá, e eu atrás.
Numa dos combates ele cagou de novo em cima do chinelo de quarto da mulher. Quase sorri.
Então o jacu partiu para o canto da lareira, derrubou a parafernália de arrumar o fogo, desequilibrou e ameaçou ir pra cima da televisão.
Gritei:
– Aí não seu desgraçado!
Ele deu mais uma cagada no vidro da janela e caiu num canto. Parti pra cima, ele se defendeu mas consegui agarrar o rabo do infeliz.
Numa reação violenta o animal abriu as asas e saiu voando meio engraçado e eu… fiquei com o rabo dele na mão.
Aí ele parou cansado em baixo duma mesinha e consegui pegar e imobilizar o meliante .
Levei pra rua e falei.
– Comigo, não! Vai e não volte mais aqui.
Entrei para fazer o inventário dos estragos da batalha , com farelo de milho, arroz , pena, caco de vidro, folha de louro, sal, e mais um monte de coisa esparramada no chão.
Foi intenso.
Agora estou pensando em processar o jacu pedindo indenização através do IBAMA, e com queixa crime por invasão de domicílio, porque é assim:
– Se eles têm direitos eu também tenho.
Então tô fazendo uma pesquisa:
– O que você acha?
– Processo o jacu !?
…segue a saga…
Hélvion Ribeiro é dentista aposentado, reside em Balneário Camboriú e veraneia em Urubici

