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Guerra de ‘primeiras-damas’ mudou rumo do PCC, que completa 30 anos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma partida de futebol realizada no pátio de um presídio no interior paulista, há 30 anos, é considerada a gênese de uma das maiores facções criminosas do mundo. O placar final desse jogo ninguém sabe ao certo, mas o nome do time tornou-se uma marca presente em ao menos 26 países, segundo as investigações: PCC.

Embora não tenha entrado em quadra naquele dia e não faça parte da lista dos fundadores, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, é apontado como o nome por trás da criação do Primeiro Comando da Capital, também chamado de Partido do Crime e de 15.3.3, em referência a ordem das letras no alfabeto.

Também é atribuída a Marcola a principal mudança de perfil do grupo. Criada sob o discurso de combater “a opressão dentro do sistema prisional paulista”, a facção acabou transformada em organização voltada ao tráfico internacional de drogas e com faturamento de bilhões de reais por ano com a venda de cocaína. Atualmente tem cerca de 40 mil criminosos batizados.

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A assistência às famílias de presos continua, mas hoje é secundária.

A primeira vez que o PCC demonstrou o tamanho de seu poder foi em 2001, quando presos de 29 penitenciárias de todo o estado de São Paulo iniciaram uma megarrebelião. Na ocasião, ao menos cinco detentos morreram. Nada perto, porém, de maio de 2006, quando os criminosos atacaram as forças de segurança paulista, em represália à transferência de 765 presos para Presidente Venceslau, no interior paulista. O saldo de mortos de agentes públicos chegaria a 59.

A mudança de perfil da facção teve início depois de outubro de 2002, quando a advogada Ana Maria Olivatto, 45, ex-mulher de Camacho, foi assassinada a tiros em Guarulhos. A principal suspeita de mando do crime era Aurinete Carlos Félix da Silva, a Netinha, mulher de César Augusto Roriz da Silva, o Cesinha.

Há algumas versões para Netinha ter ordenado a morte da advogada. Em uma delas, Aurinete teria tentado evitar que Ana contasse para Cesinha a secreta amizade dela com policiais. Na outra versão, a ex-mulher de Marcola teria repassado ao Deic (departamento de homicídios da Polícia Civil) informações contra Cesinha, numa guerra de poder, e foi descoberta.

Cesinha, ex-comparsa de Marcola em uma série de crimes desde infância, era, no início dos anos 2000, o principal chefe do PCC, ao lado de José Márcio Felício, o Geleião, ambos participantes do time naquele 31 de agosto de 1993. Camacho não estava no radar da polícia, mas isso mudaria com a morte de Ana.

“Na verdade, as mulheres tiveram um papel fundamental na fase inicial e meados do PCC. Quando eles [os chefes] foram isolados, numa primeira repressão, a comunicação fluía através delas. Na maior parte das vezes, elas eram organizadoras, acabaram assumindo para si uma responsabilidade de organizar a facção”, disse o procurador Marcio Sergio Christino, especialista em crime organizado e autor de livro sobre PCC.

Entre os atos organizados pelas mulheres, segundo o procurador, está uma tentativa de explosão da Bolsa de Valores de São Paulo supostamente organizada por Petronilha Maria de Carvalho Felício, a mulher de Geleião, também amiga de Netinha. Por esse crime, Petronilha acabou sendo presa.

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“Houve um racha entre as mulheres, que deu causa ao assassinato da Ana Olivato, que, como advogada, assessorava o Marcola na época. Então, essas mulheres eram muito poderosas”, disse Christino.

Ex-batedor de carteiras, Marcola se tornaria a partir dali o principal nome da facção e, ao lado dos comparsas, teria decretado a morte de Cesinha e Aurinete, ambos pelo assassinato de Ana, e, também, a morte de Geleião e da mulher dele, porque ele teria aceitado fazer delação premiada.

Os dois ex-chefes da quadrilha morreram ao longo dos anos. Cesinha foi assassinado na prisão, em 2006, e Geleião morreu de Covid, em 2021, mas ainda era procurado pelos ex-comparsas.

As duas mulheres, segundo os serviços de inteligência do governo paulista, acabaram desaparecendo. Acredita-se que ainda estejam vivas e continuem sendo caçadas pelos criminosos.

Essa guerra entre as mulheres acabou, ao final, dando poderes importantes a Marcola. Entre as principais decisões atribuídas a ele está o avanço do grupo para o tráfico de drogas. O registro das primeiras negociações está em uma carta apreendida pela Rota (tropa de elite da PM) em 2008.

Integrantes da Polícia Federal ouvidos pela Folha afirmam que, atualmente, o PCC é o principal fornecedor de cocaína na Europa Ocidental, com forte presença em países como Portugal, França e Itália. Isso se deve, principalmente, pelo domínio quase total dos países produtores de coca na América do Sul.

“No começo, diziam que o PCC era uma ficção da imprensa. Hoje, é notícia no mundo”, diz o jornalista Josmar Jozino, autor de três livros sobre o tema.

Tanto Marcola como outras lideranças da facção tinham uma carreira criminosa ligada a sequestros, roubos a bancos e ataques a empresas de valores. Dentro do sistema prisional, esse tipo de perfil é considerado o mais respeitado entre os criminosos, até mesmo em relação aos narcotraficantes.

“[O assaltante de banco] Está no topo da cadeia alimentar do crime, vamos dizer assim. Porque eles são líderes de quadrilha, são caras que quando chegam na quebrada deles, são admirados”, afirma Pedro Ivo Corrêa, delegado de Roubo a Bancos de São Paulo.

Também foi nessa mesma época que, apontam os estudiosos, começaram notícias de que o PCC passou a aceitar mulheres. Antes, a maioria das mulheres de poder era chamada de “cunhada”, porque sempre estava ligadas a algum chefe ou integrante do PCC.

Um dos casos mais rumorosos envolvendo mulheres ligadas à facção ocorreu em 2015, quando as presas da penitenciária de Santana, na zona norte da capital paulista, comemoram o aniversário de 22 anos do PCC com uma festa onde a cocaína era servida em bandeja. “É o 15”, gritavam as mulheres.

A divulgação do vídeo dessa comemoração levou à punição de funcionários e à criação de uma ala exclusiva para mulheres no presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes.

Segundo a Secretaria da Administração Penitenciária, desde a inauguração da ala, ingressaram 21 custodiadas no Centro de Readaptação Penitenciária (CRP).

Nos 30 anos de existência do PCC não há informações de que uma mulher tenha ocupado função de comando. A chefia continua a cargo de um núcleo duro ligado a Marcola, segundo a polícia.

Todos os fundadores do PCC morreram ao longo dos anos. Além de Geleião e Cesinha, estavam no time Misael Aparecido da Silva, o Misa, Wander Eduardo Ferreira, o Eduardo Cara Gorda, Antonio Carlos Roberto da Paixão, o Paixão, Isaías Moreira do Nascimento, o Isaías Esquisito, Ademar dos Santos, o Dafé, e Antônio Carlos dos Santos, o Bicho Feio.

Marcola foi transferido para o sistema federal no início de 2019. A mudança ocorreu a pedido do Ministério Público paulista após ser descoberto pelas autoridades paulistas um suposto plano de resgate do chefe do PCC de um presídio no interior e uma suposta ordem de ataque ao promotor Lincoln Gakiya.

O advogado de Marcola, Bruno Ferullo, diz considerar “um verdadeiro paradoxo ter que se manifestar numa matéria sobre uma determinada organização criminosa da qual o Marco Willians Herbas Camacho sempre negou veementemente possuir qualquer tipo de vínculo”.

“Embora decorridos muitos anos, a tese de total inocência permanece firme e forte, sem nenhum tipo de abalo”, afirma ele.

Ainda segundo Ferulho, “todas as condenações criminais injustamente impingidas a Marco Willians Herbas Camacho estão sendo impugnadas perante a Justiça, sobretudo aquelas que lhe adjetivaram como líder ou integrante da tida organização criminosa”.

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