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Brasileiro se assusta com alto teor de açúcar, gordura e sal na comida

Silvia Andrade, 43, estava certa que o biscoito de polvilho era um alimento “inofensivo”, leve e gostoso o bastante para as duas filhas pequenas, Kyara, 9 anos, e Valenina, 3. Mas qual não foi a sua surpresa da última vez em que foi ao supermercado e encontrou um rótulo preto na frente do produto com o alerta: “Alto em gordura saturada e sódio”.

“Eu fiquei chocada”, diz. “Existem coisas que você já sabe que tem açúcar ou sódio, mas com essa etiqueta dá impressão que tem muito mais. Ver essa indicação em produtos como biscoito de polvilho foi uma surpresa”, afirma a administradora de empresas, que diz sentir certo “mal-estar” ao se deparar com a nova rotulagem. “Mas talvez seja mesmo essa a intenção: causar mal-estar para que a gente comece a se alimentar melhor.”

A nova rotulagem nutricional para alimentos processados e ultraprocessados, que alerta para altos teores de açúcar adicionado, gordura saturada e sódio, passou a ser obrigatória em outubro do ano passado, depois de nove anos de debate entre Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), fabricantes e entidades da sociedade civil, como o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

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A etiqueta padrão traz uma lupa preta, com a indicação “alto em”, na parte frontal dos produtos, que também passam a apresentar uma tabela com a informação de nutrientes por 100 ml ou 100 g, para facilitar a comparação por parte do consumidor.

De acordo com pesquisa da consultoria Bain & Company, obtida com exclusividade pela Folha, 56% dos consumidores perceberam a nova rotulagem. Destes, 46% desistiram de comprar o produto ou pretendem reduzir o consumo. Outros 34% repensaram o consumo, mas ainda assim compraram. Para 20% dos que perceberam os selos, nada mudou.

A pesquisa ouviu 1.998 pessoas em novembro e tem margem de erro de 2,2%, com intervalo de confiança de 95%. Na divisão por faixa etária, quanto mais velho, mais disposto a abandonar o produto rotulado -resposta de 33% dos “boomers” (entre 60 e 68 anos), frente a 15% da “geração Z” (entre 14 e 27).

A reportagem entrou em contato com seis grandes empresas do setor alimentício -Nestlé, Mondelez, Danone, BRF (marcas Sadia e Perdigão), Bauducco e Tirolez- para saber se elas mudaram ou planejavam mudar algo na formulação dos produtos para evitarem o selo de alerta. Apenas Danone e Nestlé concederam entrevista. As demais não quiseram se pronunciar.

“O índice de 24% de pessoas que desistiram de comprar o produto é bastante expressivo, ainda mais considerando que a pesquisa foi realizada um mês depois do início da obrigatoriedade do novo selo”, diz Daniela Carbinato, especialista nas práticas de bens de consumo, varejo e ESG da Bain.

A filial brasileira da francesa Danone não quis que um dos seus produtos mais icônicos -a sobremesa láctea Danette, lançada em 1979- corresse o risco de ficar fora da lista de compras. Em setembro do ano passado, pouco antes da nova rotulagem se tornar obrigatória, a companhia levou para as gôndolas uma nova versão do produto, com redução no teor de açúcar, para evitar a nova rotulagem.

“Foi uma pequena alteração, nada que impactasse o sabor de produto de forma significativa”, diz o diretor de marketing da Danone Brasil, Marcelo Bronze. Uma equipe com cerca de 50 profissionais foi montada na filial brasileira para atender a regulação.

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“Com a mudança de Danette, hoje 100% dos nossos iogurtes e sobremesas lácteas estão sem a lupa”, diz o executivo, ressaltando que o brasileiro tem aumentado a demanda por produtos mais saudáveis, como o iogurte natural e a linha YoPro (bebidas lácteas com alto teor de proteínas, lançada em 2018).

O portfólio da Danone, porém, não ficou livre dos alertas nutricionais: a manteiga e o requeijão da marca (inclusive a versão light) apresentam o selo de alto teor em gordura saturada. “Teríamos que mudar demais a composição desses produtos para que eles não fossem rotulados”, diz Bronze.

Fabricar um alimento palatável que seja, ao mesmo tempo, saudável e livre de rótulos é o desafio da indústria alimentícia, diz Gustavo Bastos, vice-presidente jurídico e assuntos públicos da Nestlé Brasil. “Podemos, sim, produzir itens com cada vez menos açúcar, gordura e sódio. Mas a dúvida é se terá público para este tipo de produto”, afirma o executivo, que também é presidente do conselho diretor da Abia (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos). “Uma redução substancial desses ingredientes afeta o sabor.”

Segundo Bastos, a indústria está comprometida em buscar fórmulas mais equilibradas e alimentos mais funcionais. “Mas o interesse em cuidar da saúde começando pela alimentação não impede que o consumidor se permita momentos de indulgência”, diz ele, referindo-se, por exemplo, ao consumo de chocolates e biscoitos recheados.

“Na Nestlé, defendemos que a indulgência é parte de uma alimentação saudável, porque envolve o aspecto psicológico”, diz. “Ninguém defende que se coma chocolate ou biscoitos o dia inteiro, todo dia, mas em algum momento esses produtos podem ter o seu lugar na dieta.”

A pedido da Folha de S.Paulo, a Scanntech -plataforma que mede as vendas do varejo alimentar, cobrindo 40 mil pontos de venda no país- realizou um levantamento de categorias alimentícias com maior variação de consumo entre outubro de 2023 e janeiro de 2024, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

O objetivo era descobrir se houve variação significativa no consumo de algumas categorias, a partir da adoção da nova rotulagem. “Observamos queda em cereal matinal (-5,9%), biscoito (-5,1%), bala pastilha (-4,5%) e chocolate (-4,2%)”, diz Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech.

“Mas não necessariamente esse comportamento tem a ver com a nova rotulagem, uma vez que foi um período com ondas de calor, que podem ter influenciado no consumo”, afirma. Mesmo porque, entre os produtos que mais cresceram no intervalo estão categorias nada saudáveis, como leite condensado (4,6%) e refrigerante (4,6%). Já o consumo de requeijão avançou 2,5%.

“De maneira geral, porém, podemos dizer que as vendas de produtos ricos em proteína e em versões light têm ganhado tração”, afirma Priscila.

As empresas tiveram três anos para se adaptarem à nova regulação, entre 2020 e 2023. Mas em outubro do ano passado, às vésperas do início da obrigatoriedade, as indústrias pediram à Anvisa para ampliar o prazo para mudança na rotulagem até outubro de 2024, o que foi aceito pela agência. “O Idec contestou essa decisão na Justiça e ganhou, na metade de fevereiro”, diz o advogado do instituto, Igor Britto. “Agora, as empresas que ainda não adotaram o rótulo têm 60 dias para isso.”

Na opinião da nutricionista Mariana Ribeiro, analista de pesquisa do Idec, o sistema de lupa na identificação dos produtos representa um avanço para o mercado brasileiro. “As pessoas têm se mostrado surpresas com o alto teor de ingredientes nocivos à saúde em alimentos que elas consomem todos os dias”, afirma. “Agora elas estão mais conscientes para evitar o que é ultraprocessado.”

Um levantamento feito em parceria entre a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), USP (Universidade de São Paulo) e Universidad de Santiago do Chile avaliou os impactos dos alimentos ultraprocessados sobre a saúde. Esse tipo de alimento, que contêm substâncias como os corantes, conservantes e aromatizantes, foi responsável pela morte de 57 mil pessoas no Brasil, com base em dados de 2019. Para efeito de comparação, no mesmo ano, 45,5 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde.

“Estudos como este comprovam o quanto uma alimentação inadequada, a partir do excesso de gordura, sal e açúcar, pode matar”, diz a nutricionista Janine Coutinho, que trabalhou no Idec durante a discussão sobre a nova rotulagem. “A verdade é que os produtos industrializados, de maneira geral, são muito ruins. Do ponto de vista da saúde pública, os ultraprocessados não deveriam ser consumidos.”

(FOLHAPRESS)


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